
Cabo Verde, uma vez mais, irá a votos. Existem duas propostas: continuidade e mudança. A expressão “Mors Tua Vita Mea " é uma frase em latim que se aplica aos ciclos políticos e que significa "tua morte, minha vida", normalmente usada para descrever uma situação de sobrevivência, competição extrema ou conflito, onde a derrota de um é necessária para a vitória ou sobrevivência do outro.
Os ciclos políticos têm sido sempre assim, desde 1975, quando Cabral (até 1973), e depois com Pedro Pires, Aristides Pereira e Abílio Duarte, e os irmãos guineenses, contribuíram para derrotar Salazar e Marcello Caetano. Em 1991 e 1996 Carlos Veiga e os seus derrotaram o PAICV; em 2001 e 2006 e 2011 José Maria Neves e os seus derrotaram o MPD; em 2016 e 2021 Ulisses Correia e Silva, e os seus, derrotaram o PAICV e agora em 2026 temos um novo embate entre Francisco Carvalho/PAICV e Ulisses Correia e Silva/MPD.
O ciclo político é assim, há momentos em que uns entram e outros saem. É preciso aceitá-lo com tranquilidade como algo natural. Muitas vezes, pede-se ideias novas, energia nova e propostas novas para o bem da sociedade, criando dinâmicas. É natural.
Nota-se que algumas pessoas da classe média ainda estão com alguma ‘resistência’ face ao candidato do PAICV, dado que uma das críticas que lhe é dirigido é que deveria ser mais dialogante com todas as classes sociais. Parece que esta apreensão não tem razão de ser, na medida em que o candidato tem vindo a manifestar que quer trabalhar com todos os empresários e com quem cria, ou tem vindo a criar empregos, e que ganhando estas eleições vai, e terá mesmo, de dialogar com todas as empresas/instituições, mantendo a sua firme ideia de fazer algo útil por, e para, Cabo Verde.
Não convém menosprezar o percurso de Francisco Carvalho. De facto, mostrou-se corajoso, firme e focado nos seus objetivos. Ele quer a mudança e quer ser o rosto dessa mudança, assim como em outros momentos outros quiseram o mesmo. É verdade que muitos se sentem ‘desconfortáveis’ com a sua rápida ascensão na cena política cabo-verdiana. Convém lembrar da frase do Papa João Paulo II, que apoiou as mudanças no Leste da Europa durante a Guerra Fria, “non avete paura” (não tenham medo!), tornou-se num mantra pro-mudança na Europa de Leste.
A retórica que os partidos, antes de Francisco Carvalho, sempre fizeram assim, parece também não colar porque existe, no histórico do país, muitas más práticas e opções políticas, assim como muitos ganhos também. Há uma ideia, mesmo no mundo de negócios, que enfatiza essa desconfiança com a mudança: «idiotas é que pensam que as coisas podem ser feitas de outra maneira» (Henderson, 2023, p49).
Francisco Carvalho prometeu trazer uma nova visão para Cabo Verde. O que vai exigir um código de conduta, um pacto maior. É verdade que o medo reside no facto de a inovação na política poder mexer com ‘interesses instalados’. Contudo, convém enfatizar também que a política de costume não pode ser uma opção. É preciso encontrar uma forma diferente de trabalhar e questionar sempre como criar uma sociedade próspera.
Normalmente, a transição será sempre disruptiva, mas ela traz muitas oportunidades. É preciso repensar a política, não focar somente no dinheiro e negócios, mas gerar prosperidade e liberdade e uma sociedade saudável. A política deve ter uma visão pro-social. A missão da política, assim como das empresas, é tratar as pessoas com dignidade e respeito, torná-las co-criadores autónomos e empoderados. O caminho ético é incontornável, e a novidade é que a ética e a justiça são pilares da inovação, do crescimento saudável. Um país como Cabo Verde, com o seu histórico de fome, migração forçada, desemprego, etc., deve ter sempre isto em conta.
Construir uma economia justa e sustentável será altamente disruptivo e as dinâmicas de disrupção são sempre difíceis. Uma sociedade saudável exige respeito e encorajamento para as pessoas darem o melhor de si, cruciais para o desenvolvimento. É este desiderato que podemos considerar o valor partilhado da política (uma sociedade Próspera, justa, digna e saudável).
Há necessidade de se reprogramar também o sistema financeiro para haver mudanças, ter métricas, a nível micro, meso e macro, que demonstrem que fazer a coisa certa também é lucrativo. Precisamos de métricas auditáveis e replicáveis que captem os custos e benefícios de enfrentar problemas sociais e ambientais, de modo que, como diria R. Henderson (2023), esse valor partilhado possa surgir. É preciso desenvolver sistemas rigorosos de contabilidade financeira.
A mudança exige colaboração de todos. A Psicologia moderna sugere que somos naturalmente “grupistas” e “egoístas”, que gostamos de fazer parte de uma equipa e que pensamos mal daqueles que não fazem a sua parte ou se aproveitam do grupo. Apela-se aqui, para que surjam transformações positivas, que usemos a habilidade de cooperar e a mobilizemos para resolver problemas públicos em escala cada vez maiores. O paradigma é a «autorregulação», i.e., trabalharmos juntos para criarmos soluções para problemas partilhados.
A ideia maior é reconstruir as nossas instituições e reparar os nossos governos. É preciso equilibrar o poder do mercado com o poder de instituições inclusivas. Reconstruir as nossas instituições é um problema de ação coletiva, como o desenvolvimento de novas formas de comportamento ou de novos tipos de crenças e a promulgação de novas leis e novas regulamentações.
Francisco Carvalho tem vindo a falar de «valores» e «missões». Governar é estar sempre ciente das responsabilidades para com o povo, com a sociedade. Um mercado genuinamente livre e justo não consegue sobreviver sem uma boa governação.
Neste momento, parece que Cabo Verde está perante uma escolha entre uma nova visão da política, com propostas muito mais inclusivas e também amigas do mercado e outra proposta de continuidade, com todos os seus ganhos e constrangimentos e certas práticas que têm vindo a ser contestadas pela oposição, pelos jovens e pelos cabo-verdianos no geral. É verdade que sem uma boa governação e liberdade política, o mercado livre não sobrevive. O interesse da nação deve vir sempre em primeiro lugar, eliminando o desemprego, a miséria e a desesperança, sobretudo dos jovens.
Seja como for a transição não pode nunca ser feita na ausência do Diálogo e do compromisso. Devemos promover negócios sim, para criar emprego, mas, ao mesmo tempo, criar instituições inclusivas. Para isso é preciso redescobrir o valor partilhado (sociedade próspera, justa produtiva e inclusiva), missão (boa governação e bem comum), finança reprogramada (redução de custos, eficiência e eficácia), autorregulação (trabalhar juntos para ter soluções para problemas partilhados) e construção de sociedades inclusivas (e inteligentes).
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