A juventude cabo-verdiana não é moeda de campanha - I
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A juventude cabo-verdiana não é moeda de campanha - I

O Governo pode repetir números, inaugurar programas, anunciar bolsas, linhas de crédito, garantias públicas e cursos de ocasião. Pode falar de juventude em todos os palanques e colocar jovens na primeira fila das fotografias. Mas a pergunta essencial permanece: onde esteve essa ambição durante quase uma década? Por que tantas soluções aparecem sempre perto das eleições? Por que a juventude só se torna prioridade quando o poder precisa renovar a sua própria sobrevivência?

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. Há momentos em que calar diante da injustiça equivale a assinar, com as próprias mãos, a sentença da nossa derrota coletiva. Cabo Verde chegou a esse ponto. E a juventude cabo-verdiana, tantas vezes usada como enfeite de discursos, como estatística de propaganda e como promessa de campanha, precisa dizer, com firmeza e sem medo: basta.

Durante anos, ouvimos discursos bonitos sobre o futuro. Ouvimos promessas de empregos dignos, formação de excelência, habitação acessível, empreendedorismo jovem, economia azul, inovação, transformação digital e oportunidades para todos. Ouvimos tanto que quase nos quiseram convencer de que as palavras, por si só, alimentam famílias, pagam propinas, criam empresas, garantem salários e seguram os jovens no país.

Mas a realidade, essa senhora teimosa que nenhum gabinete consegue maquilhar, continua à porta das nossas casas, nas ruas dos nossos bairros e nos aeroportos por onde parte uma geração inteira à procura daquilo que o seu próprio país lhe negou: futuro.

A verdade é dura, mas precisa ser dita. Cabo Verde tem hoje uma juventude frustrada, cansada e cada vez mais descrente. Muitos jovens estudam e não encontram emprego. Outros querem estudar e não conseguem pagar a formação. Muitos trabalham, mas continuam pobres, presos a empregos precários, mal remunerados e instáveis. Outros, simplesmente, desistem. Desistem da escola, desistem do mercado de trabalho, desistem da esperança. E quando a esperança morre num jovem, morre também uma parte do país.

O Governo pode repetir números, inaugurar programas, anunciar bolsas, linhas de crédito, garantias públicas e cursos de ocasião. Pode falar de juventude em cada palanque e colocar jovens na primeira fila das fotografias. Mas a pergunta essencial permanece: onde esteve essa ambição durante quase uma década? Por que tantas soluções aparecem sempre perto das eleições? Por que a juventude só se torna prioridade quando o poder precisa renovar a sua própria sobrevivência?

Não somos ingénuos. Sabemos reconhecer a diferença entre política pública séria e promessa eleitoral reciclada. Sabemos distinguir compromisso verdadeiro de encenação de campanha. E sabemos, sobretudo, que um Governo que se lembra dos jovens apenas quando se aproximam as urnas não respeita a juventude; tenta instrumentalizá-la.

O país não pode continuar a tratar a emigração juvenil como válvula de escape. É moralmente inaceitável que se veja a partida dos jovens como alívio estatístico, como forma indireta de reduzir pressão social e desemprego interno. Quando um país exporta os seus jovens por falta de oportunidades, não está a vencer; está a sangrar. Quando uma geração inteira é empurrada para os aeroportos, não estamos perante mobilidade normal, mas perante uma falência política profunda.

A juventude é o maior recurso estratégico de Cabo Verde. Não é petróleo, não é mina, não é favor externo. É a inteligência, a energia, a criatividade e a capacidade de trabalho dos seus jovens. Um Governo que não investe seriamente na juventude está a comprometer a soberania futura do país. Está a hipotecar a independência económica, a autonomia social e a dignidade nacional.

E aqui está o ponto central: não faltam recursos para tudo. Faltam prioridades. Há recursos para estruturas governamentais pesadas. Há recursos para viagens, viaturas, gabinetes, assessorias e luxos de Estado. Há recursos para alimentar uma máquina pública obesa, lenta e cara. Mas, quando se trata de financiar a formação dos jovens, garantir habitação estudantil, criar emprego digno ou apoiar projetos produtivos sérios, de repente o país descobre os limites orçamentais.

Essa escolha política revela uma hierarquia moral. Mostra quem está no centro das preocupações do poder e quem continua na margem. E, infelizmente, a juventude cabo-verdiana tem sido colocada na margem: chamada para aplaudir, convocada para votar, usada para legitimar discursos, mas raramente tratada como sujeito central do desenvolvimento nacional.

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