Dignidade Rebatizada: O Mito do Empreendedorismo em Cabo Verde
Ponto de Vista

Dignidade Rebatizada: O Mito do Empreendedorismo em Cabo Verde

A juventude cabo-verdiana rejeita as falsas alternativas que lhe são impostas. De um lado, a precariedade pintada de cor-de-rosa. Do outro, o clientelismo elegante dos gabinetes. Não quer ser heroína da informalidade nem comparsa do rentismo. Deseja, simplesmente, um país onde a dignidade não precise de ser rebatizada para ser respeitada, onde a resiliência seja uma escolha e não um destino imposto, e onde o Estado saiba ser facilitador em vez de entrave ou juiz parcial. Chegou o momento de Cabo Verde deixar de celebrar a sobrevivência e começar a construir as condições para a verdadeira prosperidade.

Houve um tempo em que os rabidantes eram enxotados do Plateau a golpes de pau. Hoje, a sua dignidade é recuperada e repintada com as cores oficiais do “empreendedorismo”. A transformação é hábil e oportuna. O que antes significava exclusão e sofrimento apresenta-se agora como virtude nacional, sobretudo quando dirigido aos jovens, a quem se vende esta ideia como promessa de futuro.

Trata-se, na verdade, de um engenhoso exercício de alquimia política. O mesmo poder que outrora interditava o ganha-pão dos informais converte hoje essa resiliência arrancada a ferros no eixo central de uma narrativa triunfal. O discurso oficial procura convencer o arquipélago de que o desenvolvimento assenta, acima de tudo, no heroísmo individual e de que só a continuidade da sua orientação saberá conduzir esse fardo com sucesso.

A juventude cabo-verdiana, porém, não se deixa seduzir por esta fábula. Não deseja o empreendedorismo que lhe é oferecido, uma versão enfeitada do setor informal onde a precariedade de sempre ganha o nome novo e radiante de “inovação”. O que os jovens procuram é algo bem mais exigente e incómodo para o sistema: capacitação verdadeira, ecossistemas profissionais dignos desse nome e um mercado que não transforme a simples sobrevivência num exercício quotidiano de heroísmo.

Exige, antes de mais, uma capacitação séria e profunda. Cansou-se dos workshops motivacionais, das palestras efervescentes e das formações ligeiras sem ligação com a realidade. Reclama uma estratégia nacional de desenvolvimento de competências assente em currículos exigentes, parcerias consistentes com instituições de referência internacional e na criação de centros de excelência nos domínios que realmente importam — da economia azul às energias renováveis, das tecnologias da informação à agricultura de precisão.

Sem domínio rigoroso destas áreas, desde as ferramentas digitais até à gestão financeira e à capacidade real de inovar, todo o discurso oficial sobre empreendedorismo não passa de uma narrativa estéril — celebra a arte da sobrevivência perante a pobreza estrutural de capital humano.

Talento sem contexto é talento condenado. Por isso, a nova geração não se contenta com cosmética, com microcrédito fácil, incubadoras de fachada e relatórios que brilham no papel mas pouco mudam na vida real.  Exige ecossistemas autênticos, com leis estáveis que não mudem ao sabor dos ventos políticos, acesso a financiamento decente, justiça que resolva litígios em tempo razoável, infraestruturas que funcionem e uma administração pública que desburocratize em vez de asfixiar.  Quer clusters produtivos verdadeiros entre empresas, universidades e poder público, bem como regras de concorrência que ponham fim ao rent-seeking que enriquece uns poucos à custa de muitos.

Acima de tudo, os jovens recusam a condecoração por conseguirem sobreviver. Estão fartos de ser heróis da precariedade, obrigados a fazer malabarismos diários só para manter a cabeça fora de água. Reclamam um mercado previsível, onde as regras não sejam alteradas por decreto, onde a carga fiscal seja justa, onde a inflação não lhes devore o futuro aos poucos e onde a concorrência seja leal, em vez de falseada por proteções a amigos. Querem poder planear, investir e crescer sem terem a sensação de que jogam contra o próprio Estado.

A juventude cabo-verdiana rejeita as falsas alternativas que lhe são impostas. De um lado, a precariedade pintada de cor-de-rosa. Do outro, o clientelismo elegante dos gabinetes. Não quer ser heroína da informalidade nem comparsa do rentismo. Deseja, simplesmente, um país onde a dignidade não precise de ser rebatizada para ser respeitada, onde a resiliência seja uma escolha e não um destino imposto, e onde o Estado saiba ser facilitador em vez de entrave ou juiz parcial.

Chegou o momento de Cabo Verde deixar de celebrar a sobrevivência e começar a construir as condições para a verdadeira prosperidade. 

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