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Por: Fernando dos Reis Tavares

 Toco

A História de Cabo Verde deve ser escrita pelos seus filhos, em primeiro lugar, e por especialistas na matéria, como assessores ou colaboradores de valor. Ela não é outra coisa senão a narração dos acontecimentos e factos dignos de memória.

Faz-me lembrar que em Cabo Verde, chegou a haver, antes do Muro de Berlim, uma Companhia Indígena de Caçadores n.º 1, na Praia, comandada por sargentos e oficiais portugueses e na ilha de São Vicente, outra Companhia Indígena de Caçadores n.º 2, também comandada por sargentos e oficiais portugueses. Na altura, poucos funcionários do Estado tinham o direito a voto, por sermos indígenas. Só viemos a ter direito de voto, depois da Independência, já com o muro de Berlim de pé. Festejamos, pela primeira vez, o “Primeiro de Maio”, dia do trabalhador, por termos deixado de sermos indígenas, mas sim, homens com plenos direitos de cidadão.

O Nosso saudoso Sr. Engenheiro Agrónomo Amílcar Lopes Cabral nos ensinou que “devemos estudar e estudar sempre, para não sermos enganados”. Não é por acaso, que em 1962, o famigerado Ministro das Colónias, Professor Dr. Adriano Moreira, um jovem escolhido por Salazar para dirigir a pasta do Ministério das Colónias, organizou com os esbirros da Polícia internacional e Defesa do Estado – P.I.D.E, a forma de eliminar fisicamente a cúpula da direção dos movimentos de libertação nas então ditas colónias portuguesas, não deixando vivo o Dr. Eduardo Mondlane, mais tarde o nosso saudoso líder, Sr. Engenheiro Agrónomo Amílcar Lopes Cabral, e vários dirigentes dos movimentos libertação. Também mandou reabrir o Campo de Concentração de Tarrafal, mandado fechar em 1954 pelas Nações Unidas. Esse malfadado senhor, foi em 2011 agraciado com o título de Dr. Honoris Causa pela Universidade em São Vicente, por sinal o primeiro a ser galardoado em Cabo Verde com tal distinção, prova inequívoca de que o cabo-verdiano LÊ POUCO E ESQUECE RÁPIDO. Igualmente, ele visitou o nosso país, ocupado por tropas fascistas do regime de Salazar e teve a honra de nos colocar no nosso lugar de colonizados, dizendo “essas terras de Cabo Verde, parecem ter estado adormecidas no meio do Atlântico à espera de ser Portugal”.

Muitos intelectuais do nosso país mendigaram o “Estatuto de Ilhas Adjacentes”, sem receberem uma pequena ajuda. Ficou bem claro que aqueles que bajulavam e ajudavam Salazar na ocupação militar em Cabo Verde, como se dizia “os bufos da P.I.D.E, bem como os “Comandos Africanos” na Guiné-Bissau, assim como as “Forças Voluntárias” em Angola e Moçambique, jamais questionaram o regime de partido único de Salazar-Caetano. Com o 25 de Abril de 1974, os mais engajados na defesa da metrópole, e os mais activos na defesa das colónias portuguesas, foram detidos e levados para Portugal. Com a Independência de Cabo Verde, muitos deles hibernaram-se, para só mais tarde, se ressurgirem transmutados em democratas e paladinos da liberdade do cabo-verdiano, isso já depois da abertura política de 1990, proporcionada pela mudança da Constituição da República.

Os indígenas de Cabo Verde alguma vez o chegaram a questionar o partido único, União Nacional (Deus, Pátria e Família), de Salazar-Caetano??

Assomada, 14 de Setembro de 2018

Fernando dos Reis Tavares



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Comentários  

0 # José Cabral A 16-09-2018 17:29
A vontade, por parte dos militantes do Paicv, para escrever a sua versão da História, que, há quem pense, no Paicv, a História de Cabo Verde começou com a criação daquele partido. Para os militantes deste partido, os 500 anos anteriores não chegam, os séculos anteriores a chegada dos portugueses também não. Mas mais, são tão presunçosos que acreditam que podem mudar a História de um País com artigo.
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0 # Arena critica 16-09-2018 14:43
É preciso repor os factos e não deixar ser enganado seja por que for. Infelizmente, a história de Cabo Verde está cheio de interpretações inviesadas dos acontecimentos passados. Um povo pouco crítico, que baseia as suas opiniões no "flado fla", o resultado é a estupidez e a ignorância que se tem verificado em vários setores, desde de os mais letrados aos iletrados.
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