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Por: Armindo Tavares

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IV CENA

Em casa de Amadú, enquanto este cose um sapato, vai falando com a Emília que está sentada em cima de uma caixa.

AMADÚ – Rogo-te, minha querida, que não afaste a tua coragem, porque nesta vida é necessário sacrifício.

EMÍLIA – Se sacrifício é remédio, então a minha doença terá cura, Sr. Amadú.

AMADÚ – Obrigado, minha filha, obrigado. (Pára um pouco e medita) Costuma-se dizer que o verdadeiro amor é como uma bola cheia de vento donde saem tempestades quando rebenta.

EMÍLIA – Não pode haver mais verdade do que esta, Sr. Amadú. As suas palavras reconfortam-me.

AMADÚ – Mantenha o teu espírito esclarecido.

Sê discreta sem seres desconfiada,

Dócil, sem contudo, seres fraca,

Benevolente com muita inteligência.

EMÍLIA – Obrigada.

AMADÚ – E imploro às celestes virtudes

Que os teus prazeres sejam puros,

A tua beleza flórea e duradoira

E, sem fim, seja a tua felicidade.

EMÍLIA – Meu Deus!

AMADÚ – Espero que estas saudades

Que escondem agora no teu peito

Venham traduzir-se brevemente

Em miríades de felicidades.

EMÍLIA – Agora estou a ver de onde vinham aquelas frases doces que o Mamadú mas dizia. Afinal, eram frases do poeta!

AMADÚ – Estás ainda na flor da idade

Mas tens um gosto delicado

Desejo que tudo à tua volta

Seja recheado de puro prazer.

 

Ama e estima os teus amigos

Aprende e cultiva a sábia arte

De nunca criar inimigos fúteis,

De respeitar e conquistar respeito.

 

Não prima pela maledicência

Para que a tua alma se afigure pura,

Como a tua beleza agora,

Hoje, amanhã e para sempre.

Emília não consegue conter as lágrimas. Soluça tanto, Amadú pára de coser o sapato e dirige-se à ela, reconfortando-a.

V CENA

Emília esta a dormir, vestida com uma camisa de noite azul claro. Tem um pesadelo.

EMÍLIA (voz off)   – Estas tristes frases

Que tu ouves agora,

É a voz da tua Emília

Que te fala, Mamadú.

 

Aliás, é já o seu espírito

Que de ti está despedindo

Porque a tua pobre Emília

Já não pertence a este mundo.

 

Ela morreu desde aquele dia

Que tu partiste e a deixaste,

Mas só agora teve a coragem

De te chamar para te anunciar.

 

Já tudo dorme em silêncio

Apenas eu continuo acordada.

Falta-me um peito amigo

Para ao ouvido lhe segredar.

 

Vejo a turva lua surgindo além

Cercada, porém, de mansas brisas,

Em minha direção iluminando vem

Para, talvez, me vir surpreender.

 

E um vulto vestido de preto

Vem à trás rumo ao meu quarto

E em direção à minha cama,

Não sei o que vem aqui fazer.

 

De onde vem ele?

Quem o mandou?

O que vem aqui fazer?

Oh! Juro que não sei.

 

Talvez me venha buscar

Para me levar perto de ti,

Para ir viver eternamente

Nos teus braços, Mamadú.

 

E, preparada julgo estar

Para esta viagem realizar.

Que horas ou que dia?…

Só Deus sabe como será.

 

Emília acorda de sobressalto e a chorar numa melodia como se cantada.

EMÍLIA – Monstro tirano por que vens agora

Lembrar-me as mágoas que por ti passei

Aqui no mundo onde eu vivo chorando,

Desde o momento que te vi, te amei?

 

Para e divaga um pouco.

Oh, meu Deus! Devia poupar-me a esta última tortura. Não devia ter permitido que eu acordasse.

Volta a chorar e cai novamente na cama.

VI CENA

Emília limpa a sala, feliz da vida, cantando a morna:

Fórti nu tinha amizadi bunitu

Ami N gostaba di bo

Abo bu gostaba di mi

Bus família kre-m txeu

Bu pai kre-m txeu

Áh, Mamadú pamodi?

 

Tudu dumingu nu ta baba misa

Tanbe nu ta baba Txada Bonbéna

Nu ta pasaba pa Ospital di Trindadi

Ku di Agustinhu Netu la riba Praia

Pa nu bai djobeba duenti ku prezus

Áh, Mamadú pamodi?

 

Nu ta sistiba nos reunion jeral

La na Grexa Nhu Santiagu Maior

Purmeru dimingu di kada mes

Nu ta konfesaba, nu ta kumungaba

Tudu djuntu senpri mi ku bo

Eeeeh, Mamadú pamodi?

 

EDITE (entra de repente) – Emília, que bonito! Hoje estou muito contente contigo. (Senta-se) É assim que eu gosto de ver a minha filha: bem-disposta.

EMÍLIA – Hoje acordei bem-disposta, sim, minha mãe. Estranho! Com todo o pesadelo que tive esta noite!

EDITE – Oh! Não ligues. Pesadelo é a doença das raparigas na tua idade. Já sei: se calhar sonhaste com o teu primo! Ele vem cá hoje jantar connosco, sabias? (Emília fica indiferente) Acabou de me telefonar. Ele está a sofrer muito por ti, minha querida. Disse que nem quando era estudante se sentia tão triste como agora que é Diretor, só de pensar em ti. Ele disse-me que gostou muito de estar contigo na piscina.

O telefone toca e a Edite vai ao quarto atender. Emília continua a limpar e, desta feita, a ouvir a música: “Eu Choro Por Ti” de Camilo Domingos. E surgem-lhe em pensamento, umas cenas que passaram entre ela e o primo numa piscina.

CENAS DA PISCINA

Depois de um breve banho na piscina, Edite e o namorado, Emília e o primo deste expõem-se ao sol. Edite fica apegada ao primo e, a Emília não dá confiança ao outro. Edite e o primo afastam-se subtilmente, proporcionando o momento a sós entre a filha e o sobrinho do primo. Este aproxima-se da Emília, que sempre vai figindo. E, seguindo-a até a borda da piscina, tenta segurá-la e beijá-la, ela desvia com a cara e dá-lhe um sopapo que o faz cair à piscina. Ela foge a correr, mas o rapaz não sabe nadar e afoga. Ela olha para trás, vê que o coitado está-se a afogar, volta em seu socorro, cai à piscina e retira-o da água quase desmaiado. Aflita, faz-lhe a respiração boca a boca.

A música pára e Emília fica a cogitar.

EMÍLIA [V.O.] – “Ah Mamadú, neste solene momento, domina-me a vontade de fazer-te sentir que eu não consigo viver longe de ti. Parece-me que o pesadelo desta noite é o prenúncio da minha breve partida. Um ano faz amanhã que tu partiste e me deixaste. E contigo levaste toda a esperança da tua pobre Emília. A vida era bela, era, Mamadú, se a tivéssemos como tu ma pintavas nas tuas frases, que agora as ouço em sonhos e nos delírios! A tua imaginação banhava comigo nas águas da cachoeira dos Picos… Pico São Salvador do Mundo, que conforme cantou Nha Nácia Gome, “salvou o homem, salvou a mulher….” e será capaz de salvar a desolada Emília?!” (Limpa lágrimas e continua a divagar) “Vejo a tua imagem, quando acompanhavas-me no contemplar da inauguração da Barragem do Poilão e, naquele   domingo quente, primeiro do mês de Setembro, depois da missa e da reunião-geral, em que eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada por teu sorriso, inclinava a minha face ao teu colo, como se fosse ao de minha mã…”

Ela pensa na mãe que tem, espanta. Levanta a cara e vê Edite a dirigir-se à ela.

EDITE – Minha querida, eu volto já. Vou até a loja de Nhu Quinquim de Mouro comprar coisas para o jantar com os nossos primos.

Dá-lhe um beijo na testa e sai. Emília continua a divagar, limpando e arrumando a casa, sem se poder conter as lágrimas.

VII CENA

A cena começa com uma emissão televisiva. Passa-se uma parte do cortejo fúnebre e exibe-se algumas fotografias da malograda Emília. O fundo musical será assegurado com o instrumental da música «Perdão, Emília». Findo a música, a apresentadora faz o anúncio do acontecimento.

APRESENTADORA – Caros telespetadores, é com muita consternação que a televisão nacional cumpre a dolorosa missão de vos comunicar o triste acontecimento. Acontecimento que abalou a freguesia, magoou o concelho, enlutou a ilha e entristeceu o país. A pobre Emília morreu. Morreu e deixou-nos as saudades e muita mágoa. Para quem não sabia, Emília era uma jovem lindíssima, filha de uma bravense, D. Edite Seberino, e de um português, Tigoi Melancia, que também falecera na flor da idade, e que era Regedor aqui na Aldeia durante alguns anos. Segundo o relatório da autópsia, Emília Seberino Melancia morreu de doença natural, sem se ter sofrido de qualquer padecimento a priori. Convêm recordar que, a malograda Emília, há um ano, vivia um romance que não era consentâneo na óptica da D. Edite. O namorado, Mamadú Fodé Coné, de raça negra, filho e neto de um sapateiro e de um coveiro do cemitério, desvirtuaria a estirpe familiar, na perspetiva da bravense D. Edite Seberino. Queria que a filha se casasse com um primo, emigrante na América, de cor acentuadamente clara, cabelos grisalhos e olhos esverdeados. Mamadú, descontente, emigrou para Holanda e nunca mais deu sinal de vida. E, a pobre Emília, inconformada com o destino que Deus lhe reservou, ficou agoniada desde aquela altura, até que hoje, esse mesmo Deus disse: basta. A nossa Melly deixou-nos. Deixou-nos ela por ter-se ido para bem longe de nós; deixou-nos as saudades, porque sempre soube cativar-nos a sua amizade; em fim… deixou-nos derrotados com a perda de uma grande amiga. Descanse em paz, linda criatura.

Limpa as lágrimas com um lenço.

II ATO

I CENA

A cena começa numa discoteca, com uma batida “Ku Duru”. Mamadú chega e fica parado. Olha para um canto e vê Emília vestida de azul a olhar em sua direção. Dirige-se à ela, cumprimentam-se com aperto de mãos, e dançam a morna “Órfãos” do conjunto CORDAS DO SOL – faixa nº 5. No fim Mamadú acompanha-a à casa.

EMÍLIA (a caminho de casa, tremendo de frio) – Estou com frio.

MAMADÚ (despe o casaco de ganga e dá-lho) – Veste e agasalha-te.

Caminham de mãos dadas, até à porta da casa da Edite. Despedem-se, a Emília caminha em direção à porta e Mamadú vai-se embora. No dia seguinte, Mamadú volta à casa da Edite para receber o seu casaco.

II CENA

Mamadú bate à porta e a Edite vai abrir.

MAMADÚ – Bom dia.

EDITE – Bom dia.

MAMADÚ – Desculpe-me, a Emília está?

EDITE – Emília?! Você está a delirar ou tem o quê debaixo desse cabelo crespo?

MAMADÚ – Então, porquê? Preciso falar com Emília, filha da senhora.

EDITE – Infelizmente, vocês são todos a mesma coisa! Embora o senhor parece um "cochinho" mais polido, mas vê-se que por dentro… todos, sem exceção, têm as mesmas minhocas a movimentarem-se desordenadamente.

MAMADÚ – D. Edite, eu só quero saber se a Emília está ou não!

EDITE – D. Edite?! Quem foi que disse-lhe o meu nome?

MAMADÚ – Não interessa. A Emília está, ou não está?

EDITE – Emília morreu, faz três anos, rapaz.

MAMADÚ – Emília morreu?!… Faz três anos? D. Edite, é da sua filha que se trata. Por mais que não goste dela, não lhe deseje a morte! Estorvou-lhe a felicidade, mas por favor não lhe impeça viver.

EDITE – Não vejo motivo que justifique esta sua admiração. A morte dela foi largamente noticiada pela Rádio e Televisão Nacionais.

MAMADÚ – É impossível. Nós estivemos juntos ontem, na discoteca Tiara, ela estava vestida toda de azul, e muito bem maquilhada. Tinha uma coroa de rosas no cabelo e um ramo de bongaville na mão.

EDITE (estranhada) – Como é possível, meu Deus?! É a roupa com que ela foi enterrada!… Os trajes fúnebres dela.

MAMADÚ – O quê?!

EDITE – Se o senhor não acredita vai ao cemitério, em Achada Igreja, e pergunte ao Paulo, o guarda, onde é que fica a cova da Emília Seberino Melancia. Tem lá uma fotografia dela, tipo passe, na sua campa e tudo.

MAMADÚ – A senhora desculpe-me, mas sou como São Tome. Só vendo, creio. Ela até trouxe o meu casaco vestida. Disse-me que estava com frio, despi e dei-lho para vestir.

EDITE – Então, faça como eu lhe digo. Vá ao cemitério tirar as dúvidas.

Mamadú sai, não se sabe se triste ou zangado. Edite entra e fecha a porta.

III CENA

Mamadú chega no cemitério e da porta vê o seu casaco pendurado numa campa. Abre os braços, eleva-os para o Céu ao mesmo tempo com os olhos, em gesto de agradecimento ou de desespero e canta.

ODJA NHA KAZAKU PRINDADU NA KANPA

Odja nha kazaku prindadu na kanpa

Emília ta durmi un sonu purfundu

Xinti modi ki korpu sta-m tudu rapiadu

Korason ta treme-m, odju ta badja-m

 

Imília fla-m pamodi

Ki onti bu ka fla-m

Ma bo e ka éra bo

Ma bu sta nganaba mi

 

Eh-eh, eh-eh, eh-ei!

Eh-eh, eh-eh, eh-ei!

Eh, eh, eh, eh, ei!

Bu sufri txeu na mundu

Bu sufri txeu pa mi

Bu tinha txeu ki konta.

 

 

Emília, N kre pa bu labanta

N kre barsa-bu na nha petu

Menina, N ka ta seta, nau

Ma gosi e li ki e bu morada

 

 

N sta mutu trapadjadu

N sta tudu baradjadu

Sen bo pa nunka más

Emília N ka ta bibu

 

 

Eh-eh, eh-eh, Emília,

Eh-eh, eh-eh, Nhor Dés,

Eh-eh, eh-eh, nha genti,

Emília, fla-m pamodi?

 

Fla-m kusé N bai fase Olanda…

Kusé N bai buska la…

Fla-m pamodi ki N dexa-bu

Emília, ali bo-so.

Depois da música ele aproxima-se da campa e lê os epitáfios numa lápide, contendo uma fotografia da Emília.

AQUI JAZ

EMÍLIA SEBERINO MELANCIA

REPOUSANDO ETERNEMENTE

GUARDAMOS NO NOSSO CORAÇÃO

A TUA SAUDADE E AMIZADE

ATÉ AO FIM DOS NOSSOS DIAS

À MEMORIA DESSA JOVEM

REZEMOS PELA SUA ALMA

E ROGUEMOS A DEUS

QUE A TENHA EM PAZ

Abraça a campa e canta numa voz nostálgica.

Fla-m kusé N ben fase li,

Kusé N ben toma li,

Emília fla-m pamodi

Ki bu ben sukundi li di mi?

Ouve-se um pequeno trecho da música «Perdão Emília» vindo do interior da campa, na voz da Emília.

Monstro tirano, porque vens agora

Lembrar-me as mágoas que por ti passei

Lá no mundo onde vivi chorando

Desde o momento que te vi, te amei?

Na voz do Mamadú

Perdão Emília, se eu roubei-te a honra

Se fui impuro, cruel e ousado…

Perdão Emília, mil vezes perdão.

Perdão Emília, pelo indesejado.



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