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Por: João Cardoso

João Cardoso1

I

Não vou falar da minha sementeira por que já a fiz, no meu terreiro, no passado século e deu su-cu-len-tos frutos. Mas sim, das nossas sementeiras entremeadas da chegada, vindas das longuidões do tempo das azáguas. Somos assim, prontos, sem dar conta... Nesta terra em que nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre os nossos ombros, como inimitáveis insónias do carvão, da ilha do Maio, nas noites escuras d’esperanças, como o manto diáfano da fantasia.

sementeira

Há um mundo antes e outro depois das sementeiras! Parece-me que a nebulosidade do mês de julho veio para ficar, e, o vento também. Mas não será preciso esperar assim tanto tempo, afinal… Quem vem de fora sente-o como a nudez forte da verdade divina. (Gostaria de ser voluntário no Instituto Nacional da Meteorologia e Geofísica de Cabo Verde, durante o terceiro trimestre de cada ano, para poder-me medir a subida das temperaturas máximas e o grau da nebulosidade do céu). Agora, pergunto ao vento e às nuvens, que me tragam boas alvíssaras sem as nortadas.

 II

Na zona de Salinas na ilha do Maio, vi avós a não quererem buscar o bronze por que elas têm-no; de caras rugadas, de ossaturas salientes, de doloridas olheiras, e, de mãos e pés calejados a sangrarem de sangue, debaixo de um Sol ardente, sem entregarem hoje, os archotes da história como corajosas estafetas. (Fruto do não desencanto, pessoa com tanta, tanta realidade da vida dura). Nas Salinas da Cidade do Porto Inglês rezava-me, no mês de julho, nos rosários durante meia semana. Vê-se dali, também, as asas dos pássaros lá em cima no céu, juntos, das ingratas nuvens, onde nada se esconde. E tudo dorme nas ressacas das ondas e no cheiro das madrugadas com ladrões do sal e do carvão, e, das vozes rocas ao som do violino inglês. Aparece risco inusitado e revelador de que havia qualquer coisa que era preciso segurar e continuar. (Não é, sequer, esse o jogo delas. Somos divinos do Céu).

 III

Nas nossas sementeiras de julho, teimosamente, continuamos recusar a retórica da parábola de sementes germinando (Germinatione). As mãos calejadas semeiam, em pó, corajosamente, para antecipar, com fé e a esperança ou com as riquezas flutuantes da vontade, na aritmética, da primeira queda da gota d’água. Rezar-me-ei nos manuais da biologia sobre a evolução do embrião contido na semente passando do estado de vida latente ao de vida ativa, e, reler-me-ei também nos vendavais (furacão e tornado) que no Céu das ilhas se formam e se levam as empoeiradas e ingratas nuvens da desgraça para a região do Pacífico Ocidental. Pois, a terra por si mesma produz, primeiro a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante na espiga. O desafio de trabalhar sempre é menos aborrecido do que esforçar-se por estar contente. Há um mundo antes e outro depois das sementeiras! (Semeamos para não herdarmos nem plantas, nem espigas, e, nem tão pouco grãos). No nosso ciclo de Germinatione perdemos as sementes, não se acendam as panelas, não sentemo-nos à mesma mesa e os pratos e talheres, empoeirados, fiquem adormecidos nos armários. Parece-me que não edificamos sobre as rochas, mas sim, sobre areias. Já nada nos pertencem, nem as nossas misérias salvarão.



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