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Por: Armindo Tavares

VII CENA

Palmira e Sabina à mesa comendo um prato de cuscuz com leite dormido.

PALMIRA – Comadre, você não sabe como é que eu passei?

SABINA – Como é que a comadre passou… como?

PALMIRA – Não sabe que um desgraçado comeu-me…

SABINA – Comeu-a?!

PALMIRA – Eu, não! Credo em cruz, vade retro. Abrenúncio, água tuntum.

SABINA – Não foi você que disse que um desgraçado a comeu?

PALMIRA – Comeu-me 25 mil escudos.

SABINA – Agora é que você está a falar dos 25 mil escudos.

PALMIRA – Você não me deixou acabar de falar! Vocês têm hábito de interromper aos outros quando conversam! (Riem-se) Neste mundo, o único homem que pode gabar-se de me comer, é apenas o Dos Santos, meu marido.

SABINA – Comeu-a 25 contos, comadre Palmira?!

PALMIRA – Isso mesmo. Um rapaz muito bem vestido bateu-me à porta, deu-me uma carta e disse-me que era do meu marido, que lhe pedira para me trazer de Portugal. Disse-me ainda que trouxe umas encomendas e que estavam na Alfândega para eu ir despachar. Tomou-me 25 contos… ah! Perdão: 24 contos e oitocentos escudos, subiu e latxiu.

SABINA – Ave-maria, comadre!

PALMIRA – Não digo a mais ninguém para não me chamar de burra. Só à comadre eu contei.

SABINA – Não o conhecia?

PALMIRA – Nunca o tinha visto com os meus olhos.

SABINA – Não lhe disse o nome dele? Nem de onde era?

PALMIRA – Ele disse-me que se chamava Duco. Mas já não acredito em nada que ele disse-me. Cheira-me que ele deu-me bulô. Que me deu o nome falso.

SABINA – Se o visse agora, reconhecia-o?

PALMIRA – Eu vejo uma pessoa uma voz só… nunca mais a desconheço.

Sabina entra no quarto e sai com uma fotografia na mão.

SABINA – Não é este Domingos, pois não?

PALMIRA (arrebata-lhe o retrato) – É este bandido! A comadre o conhece?

SABINA – Parece-me que passei pior do que a senhora!

PALMIRA – Vinte e quatro contos e trezentos escudos por cima… comadre! Que não comi, não bebi, nem dei ao meu filho… e a senhora acha ainda que passou pior do que eu?!

SABINA – Você ficou sem os seus 24 contos e 300. Eu fiquei comprometida com alguém.

PALMIRA – Comprometida, como?

SABINA – Este rapaz passou uma semana em minha casa a comer e a beber. E ainda deixou-me metida num grande sarilho. Numa grande encrenca.

PALMIRA – O que é que ele lhe fez também? Grande encrenca porquê?

SABINA – Ele apareceu-me aqui em casa, com um monte de livros debaixo do braço, disse-me que era professor, que tinha sido colocado aqui para dar aula no Ciclo Preparatório. Pediu-me que lhe arranjasse um quarto, lhe desse comida, lavasse e passasse-lhe a roupa, que me pagava 20.000$00 por mês.

PALMIRA – E deve ter-lhe dado bons pitéus!

SABINA – Você tem dúvidas?! Para eu ganhar os meus 20 contos todos os meses?!

PALMIRA – É por isso mesmo que eu lhe disse. Para ganhar os seus 20 contos, você arreganhou aquele lugar e encheu a barriga ao mandrião.

SABINA – Comadre! Ele passou uma semana metido dentro do quarto, nem um dia o vi sair para ir dar aula. Quando fez uma semana aqui, mostrou-me um cheque de 50 contos e disse que precisava de o trocar, mas que o Banco só havia na Praia e ele não podia lá ir. Perguntou-me se conhecia alguém que lho pudesse trocar, que me dava 5 contos.

PALMIRA – Kel kau nha ten largu!…  

SABINA – Fui falar com Nhu Cando que lhe deu 35 contos que ele tinha na altura, disse-lhe que como ia à Praia, passava pelo Banco, trocava o cheque e trazia-lhe os 15 contos que faltavam. Quando Nhu Cando chegou no Banco, o cheque era falso.

PALMIRA – Jesus!

SABINA – Como já tinha tomado o seu banho, quebrado o seu jejum, mal recebeu os 35 contos, pegou nas suas coisas e disse-me que ia à escola ver quando é que começavam as aulas. Dissera-me antes de sair, para ficar com os 15 contos quando Nhu Cando mos desse.

PALMIRA – E Nhu Cando… como é que ficou?

SABINA – Devia era perguntar-me como é que eu fiquei. Envergonhada, que sempre que vejo Nhu Cando, ponho a cara no chão, com vontade que abrisse para eu entrar.

PALMIRA – Então não vamos esperar mais. Vamos já à Praia apresentar queixa contra ele.

SABINA – Então espere que eu vá só mudar este lenço da cabeça, amarro o pano à cintura e já vamos.

PALMIRA – Enquanto você se prepare, vou ao kobon rapidinho dar de corpo.

SABINA – Vá lá rápido. Vá lá para não ir ficar com a coisa apertada em cima de Achada de Santo António, que nem onde pôr-se de cócoras você não encontra.

PALMIRA – Praia! Ali, por onde você baixar, ouve-se apupos de rapazinhos.

SABINA – Por isso que não vou morar na Praia por nada deste mundo.

A Sabina entra no quarto, Palmira sai à rua e mete por detrás da casa.

VIII CENA

PALMIRA – Chefe, vimos apresentar uma queixa contra um rapaz que, pelo menos a mim, deixou desgraçada.

CHEFE – Como é o nome do rapaz?

PALMIRA – A mim ele disse que se chamava Duco. Mas o seu nome próprio já não sei, porque à minha comadre Sabina ele disse que se chamava outro nome.

CHEFE (para Sabina) – Como é que lhe disse que se chamava?

SABINA – A mim ele disse que se chamava Domingos.

CHEFE – Assim é complicado. Como hei-de saber se ele chama-se Domingos, ou se chama Duco?

SABINA – Temos uma fotografia dele.

CHEFE – Então assim já é mais fácil. Mostrem-me a fotografia.

SABINA – Comadre, mostre ao Chefe o retrato do homem.

Palmira mete a mão na algibeira e tira uma fotografia embrulhada num lenço.

PALMIRA – Tome.

CHEFE (ri-se ao ver a fotografia) – Conte o que se passou. O que foi que ele lhe fez?

PALMIRA – Este rapaz, chegou em minha casa ainda com o lusco-fusco, faz hoje três semanas. Levou-me uma carta e disse-me que era o meu marido que lhe dera para me trazer de Lisboa. E foi ele próprio quem ma leu. Na carta dizia que o meu marido tinha-me mandado encomendas para eu ir levantar nas Alfândegas. Que o meu marido lhe pedira para que ele me acompanhasse e me ajudasse nos despachos. Matei uma galinha que lá tinha, que a comadre Tantarutxa, madrinha do Filipe lhe dera aquando da festa de Nha Santa Ana, quando ele foi lá, este ano, passar com ela. Comprei um quarto de quilo de batata inglesa e fiz uma panela de guisado. Comprei meio quilo de arroz agulha, fui buscar favas no milheiral e fiz jantar para ele. Para o meu filho cozinhei uma panelinha de xerém sem pinto, ele misturou com cachupa, também sem peixe, nem carne. Ele dormiu aquela noite em minha casa. Levantei-me de madrugada, tirei o milho da água, pilei e fiz cuscuz, fritei ovos, fervi café e dei-lhe ao pequeno-almoço. Saímos de casa antes da alvorada, fomos apanhar o carro do Cosme e descemos à porta das Alfândegas. Entramos e ele mostrou-me uma televisão, um frigorífico, uma aparelhagem, duas camas e dois colchões molaflex, um gira-discos, um gravador, um jogo de sofá e uma bicicleta. Entrou numa repartição e saiu com uns papéis na mão. Pediu-me 25 contos para ir pagar os despachos, mandou-me buscar um camião…

CHEFE – Deixe-me ver a carta.

Palmira tira a carta do bolso e dá ao Chefe.

SABINA – Ainda bem que você tinha a carta guardada.

PALMIRA – Melhor fez você ter-lhe tomado a fotografia.

CHEFE (Chefe abre a carta e dá uma gargalhada) – Na carta não está nada escrito! Está apenas riscada de cima para baixo.

SABINA – Não está nada escrito?!

CHEFE – Nem o “O” que o burro escreve no chão com as patas. (Para Palmira) Você não se desconfiou que ele queria enganá-la?

PALMIRA – Pela forma como ele fala ninguém ousa desconfiar que ele esteja a mentir. Ele contou-me a história de uma cama que extraviara nas Alfândegas, há quase dois anos, e disse-me que a tinha recuperado. Mas, o que mais me deixou intrigada e convicta foi quando o Filipe, meu filho gémeo com um que está em Lisboa com o pai deles, entrou. Mal ele viu Filipe, disse: Este é irmão gémeo do Djoca! Diz-me quem é que não acreditava? Nunca o tinha visto com os meus olhos, nunca tinha ouvido ninguém falar dele!

CHEFE (para Sabina) – Conte o que se passou. O que é que ele lhe fez?

SABINA – Ele pediu-me para arrendar-lhe um quarto, para dar-lhe a comida, lavar e passar-lhe a roupa, que me pagava 20 contos por mês…

CHEFE – Você tem provas de tudo isso?

SABINA – Provas como?

CHEFE – Pelo quarto que a senhora o arrendou, pela roupa que lavou e passou a ferro, pela comida que lhe deu, a senhora pode apresentar queixa em como foi burlada.

SABINA – Esta palavra significa o quê?

CHEFE – Assinaram algum papel? Fizeram algum contrato?

SABINA – Contrato?! Nós do interior sabemos o que é isso?

PALMIRA – Contrato que eu conheço é aquele que se faz com o Diabo para ficar rico! Como Nhu Serafim pai da Naninha fez.

SABINA – Ficar rica deste jeito não quero. Não viram como que Nhu Serafim, quando morreu, fizeram-lhe dois caixões? Puseram um dentro do outro?!

CHEFE (admirado) – Dois caixões… um dentro do outro?!

SABINA – Ele fez contrato para o Diabo não levar somente a alma dele para o inferno, mas também o corpo. Dois caixões foram para despistar o peso e não desconfiassem que o corpo não estava lá dentro.

CHEFE (depois de uma gargalhada) – Assim é difícil. Você não tem provas.

SABINA – Prova é a comida com a qual lhe enchi aquele lugar.

CHEFE – Pois… a senhora diz que lhe deu… ele, certamente, dirá que a senhora não lhe deu. E como saber, assim, quem está a falar verdade?

SABINA – Eu não minto. A minha alma eu entrego a Deus.

CHEFE – Ele também, de certeza, dirá a mesma coisa. Que o corpo dele vai para o chão, mas que a alma será entregue ao Cristo.

SABINA – Ele é conhecido como pirata.

CHEFE (ri) – O que mais é que ele lhe fez?

SABINA – Ele mostrou-me um cheque de 50 contos e pediu-me para falar com Nhu Cando para lho trocar. Nhu Cando tinha apenas 35 contos naquele momento, deu-lhos e disse que, como ia a Praia, passava pelo Banco e trocava o cheque. E que quando regressasse dava-lhe os 15 mil escudos que faltavam. Nhu Cando chegou no Banco… o cheque era careca.

CHEFE – Isso também é crime. E é mais um que está dentro da sua especialidade: Burla. Mas tem que ser Nhu Cando a apresentar queixa. A senhora pode ser testemunha.

SABINA – Então vou dizer Nhu Cando para vir apresentar a queixa.

CHEFE – E como é que conseguiu tomar-lhe a fotografia?

SABINA – Conforme lhe disse, ele passou uma semana em minha casa. E confesso-vos que foram uns dias muito agradáveis. Diverti-me bastante.

PALMIRA (boquiaberta) – Agradáveis, comadre?! Divertiu-se bastante?! Náaaah… eu já não lhe estou a entender!

SABINA – Todas as tardes deitávamos sobre um esteirado à sombra de uma espinheira que há na minha rua e ele contava-me boas piadas. Para ser franca, apesar de que o pesar pesa pesado, ele deixou-me com algumas saudades.

PALMIRA (irritada) – Ele deixou-a com saudades, comadre Sabina? Aquele larápio?!

SABINA – Ele é pirata de facto. Mas também é elegante, divertido e muito carinhoso.

CHEFE – Quero saber como conseguiu tomar-lhe a fotografia.

SABINA – Ele estava a contar-me uma cena que passara entre ele e uma amiga, enquanto mexia nuns papéis que tinha na pasta. Vi a fotografia e arrebatei, convencida de que era daquela amiga. Quando reparei que era dele, fiz a questão de ficar com ela como recordação.

CHEFE – E ele deixou-a ficar com a fotografia sem problema?

SABINA – Ele não queria. Tentou tirar-ma à força, mas como já havia alguma confiança entre nós, meti-a dentro do soutien e pus a mão sobre os seios. E assim fiquei com ela.

PALMIRA – Eu fui à casa da comadre Sabina, simplesmente contei-lhe o que me tinha acontecido. Ela foi buscar esse retrato e me mostrou.

SABINA – Quando ele surgiu em minha casa, muito bem vestido, com livros debaixo do braço… pensei que era alguém!

CHEFE – Esse rapaz já fez tantas velhacarias, que se lhe pedirem para contar as coisas que ainda não fez, dirá mais rápido de que se lhe pedirem para contar o que já fez.

PALMIRA – Oh, Diabo!

CHEFE – Já passou por Advogado, por médico; já disse que é engenheiro, que é professor; já passou por curandeiro… até por padre ele já passou!

SABINA – A mim ele disse que era professor do ciclo.

PALMIRA – Ele é um Satanás que Deus pôs no mundo. Mente com cara séria… sem um pingo de vergonha!

SABINA – Coitado dele!

PALMIRA – Coitado? Você quer dizer que está com pena dele?!

SABINA – Um rapagão tão bonito daquele… dono de um corpinho tão giro… tão fofinho!

PALMIRA – Corpinho limpo, mas coração mais sujo do que do Satanás!

CHEFE – Pronto. Venham assinar o auto.

PALMIRA – Nós não sabemos assinar, Chefe!

CHEFE – Então venham pôr o dedo na tinta.

As senhoras põem o dedo na tinta e o Chefe assina o Auto.

SABINA – Coitado!… Pela sua cara, qualquer pessoa o compra por muito dinheiro!

PALMIRA – Eu já não lhe estou a entender, comadre! Se calhar, até coisa você fez com ele. Está a lamentar demais.

SABINA (ofendida) – Então você também fez coisa com ele. Você não disse que ele dormiu em sua casa?!

PALMIRA (revoltada) – Lá na despensa. Ele dormiu lá despensa na cama do meu filho. Eu sou casada e respeitada. O meu marido está embarcado, mas Deus está lá no Céu a ver tudo. Não tenho mácula. O meu sacramento só se quebrará quando me puserem terra por cima, e me pisarem a cova. Não sou meretriz, nem Tché de Praia.

CHEFE (intromete-se) – É aqui o lugar onde vêm discutir?

PALMIRA – Chefe, você ouviu o que é que ela disse! Sendo eu uma mulher casada, o meu marido embarcado, ela vem dizer-me essas coisas?!

SABINA – Eu não sou casada, mas também não sou vagabunda. Primeiro não foi você que começou?! Se você não é Tché de Praia, eu também não sou Fatona, nem Maria Pô-Tudo.

PALMIRA – Eu estava a brincar consigo. Não estava a falar a sério!

SABINA – Eu também estava a brincar consigo. Você é que se ofendeu!

PALMIRA – Pensei que estava a falar à serio.

CHEFE – Vocês não acreditam que esse rapaz dormiu cá ontem, e que nem tinha meia hora que ele fugiu quando vocês chegaram?

SABINA – O que foi que ele fez desta vez?

CHEFE – Tirou a uma idosa um fio do pescoço e foi tentar vendê-lo em Ponta Belém.

PALMIRA – Estava preso e vocês o deixaram fugir?!

CHEFE – Mandei tirá-lo da cela para ir lavar o carro do Comandante, saltou a parede e fugiu.

SABINA – Pobre rapaz!… Deve ter praga da mãe ou da madrinha! Bonitão… veste tão bem!

PALMIRA (outra vez revoltada) – Bonitão!… Veste tão bem!… Você não deve estar boa da cabeça. Ele veste bem por acaso. Consegue dinheiro sem assoar!

CHEFE – Pelo jeito como ele se apresenta, qualquer pessoa o confunde com emigrante ou professor.

PALMIRA – Eu por exemplo, ele enganou-me que era emigrante. E não tinha como duvidar-me dele.

SABINA – A mim também, se me dissessem que ele não era professor, chamava a essa pessoa de mentirosa.

CHEFE – Não é a primeira vez, nem vocês são as únicas que ele tem enganado que é professor. Não é professor e nem é emigrante. Se querem saber… ele nunca foi nem até a ilha do Maio.

PALMIRA (incrédula) – Custa-me acreditar que este rapaz nunca esteve embarcado. Ele não conhece Lisboa?! Não acredito.

SABINA – Comadre Palmira, se o Chefe já disse!…

PALMIRA – Se ele não conhece Lisboa… então ele é Satanás. Só Satanás é capaz de saber sobre uma coisa sem que lá esteja. Ele contou-me tintim por tintim sobre o meu marido. E creio que nunca se conheceram em Cabo Verde.

CHEFE – Ele tem uma extraordinária capacidade para malandrice. Vasculha ao pormenor, arquiteta com mestria as suas ações e atua com segurança e confiante no sucesso.

SABINA – Vê-se na forma como fala que é: ou muito inteligente, ou grande malandro.

CHEFE – Ele é as duas coisas. Inteligente de facto, mas também é muito malandro. Não tem qualquer responsabilidade assumida. É um homem dos seus trinta e tal anos, ainda não lhe é conhecido uma família. Não tem filho, nem mulher nunca teve.

SABINA – Ele disse-me que teve uma mulher com quem tem dois filhos. Que ela o traiu com um emigrante, fugiu e deixou-lhe sozinho com os filhos pequeninos.

PALMIRA – A mim também ele disse que deixou família em Portugal. Mulher e quatro filhos. Que até o meu marido estava para ser padrinho de um.

CHEFE – Ele nunca teve mulher, nem nunca saiu de Cabo Verde. Conhece sim, a ilha de Santiago ponta a ponta. Por isso, consegue enganar as pessoas com essa facilidade.

SABINA (benze) – Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

CHEFE – Amem! (Riem-se) Podem ir. E tomem cuidado, não confiem nas pessoas que vêm pela primeira vez. Este mundo, infelizmente, está cheio de especialistas em sarapionar pessoas de boa-fé.

Preparam-se para sair, entra um Polícia com Nhu Seis algemado.

PALMIRA (para Sabina) – Comadre Sabina, é ele!…  

SABINA (para Palmira) – É ele sim, comadre.

PALMIRA E SABINA (nervosas) – Chefe, é ele… é ele.

Nhu Seis tenta esconder a cara para não ser reconhecido.

PALMIRA – Foi ele que tomou-me vinte e quatro contos e trezentos para fazer-me despacho das encomendas nas Alfândegas. E ele sim. Disse-me que se chamava Duco.

NHU SEIS – Eu?!

SABINA – É ele, Chefe. É ele. Conheço-o bem. Ele disse-me que o nome dele era Domingos.

NHU SEIS – Vocês devem estar malucas! Eu nem vos conheço! Não sei quem vos enganou, vêm agora dizer que fui eu!

CHEFE (para o Polícia) – Vai fechá-lo na frigideira, mais logo tratá-lo-emos o corpo e mandamo-lo ao Tribunal. (Para queixosas) Podem ir embora, o Tribunal irá chamar-vos.

Elas saem, o Chefe coloca o boné, ajusta a farda ao corpo e sai.

IX CENA

Duco bate à porta e Palmira vai abrir, revoltada.

PALMIRA – Pra quê é que está a bater na minha porta? O que é que você quer? O que veio também buscar?

DUCO – É a senhora, a D. Palmira, mulher do senhor Dos Santos?

PALMIRA (atira-se bruscamente a ele) – Outra vez?! Mais um ainda?! Oh, Satanás. Espere que já lhe vou ensinar como enganar alguém… Estão conluiados?!

Duco consegue escapar e fugir, defendendo a cabeça com a mão atrás da nuca, enquanto a Palmira lhe dá murros e empurra-o pelas costas.

DUCO – Nha Palmira, eu vim só entregar-lhe uma carta do seu marido!

Ele tenta mostra-lhe a carta, mas ela arrebata-lha e rasga-a de seguida.

PALMIRA – Bandido, pirata, aldrabão, gatuno, ratoneiro, amaldiçoado. (Duco desaparece) Vai e volta outra vez! Há-de encontrar-me à sua espera! Quase vinte e cinco mil escudos o seu colega levou-me… ainda querem mais. Belzebu, Satanás!

Rezingona, entra em casa e fecha a porta.



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Comentários  

0 # Terra-terra 24-03-2018 23:28
Interessante!
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