
O problema é conhecido. As soluções existem. O que falta é ação concreta e imediata. Um serviço público essencial não pode continuar refém de práticas abusivas. Garantir acesso justo ao agendamento de vistos é mais do que uma questão administrativa — é uma questão de dignidade e respeito pelo cidadão cabo-verdiano.
O que deveria ser um procedimento simples e acessível — o agendamento de vistos de férias — transformou-se num verdadeiro teste de paciência, resistência e, para muitos, de capacidade financeira.
Em Cabo Verde, cresce a perceção de que já não basta seguir os canais oficiais. Para conseguir uma marcação, o cidadão comum enfrenta plataformas indisponíveis, vagas inexistentes ou sistemas que parecem inacessíveis. Em contrapartida, surgem intermediários que, mediante pagamento, conseguem garantir agendamentos em tempo recorde.
Este contraste levanta uma questão inevitável: estamos perante uma falha técnica ou diante de um sistema que, na prática, abriu espaço para um mercado paralelo?
A situação não é recente. Há anos que se denunciam práticas como o uso de bots para capturar vagas, a revenda ilegal de agendamentos e a exploração de cidadãos em situação de necessidade. Ainda assim, a resposta das autoridades continua aquém do esperado.
A inação levanta dúvidas legítimas. Falta capacidade técnica para controlar o sistema? Falta fiscalização? Ou estaremos perante uma ausência de ação proporcional à gravidade do problema?
Independentemente da resposta, há uma consequência clara: o acesso deixou de ser equitativo.
Importa sublinhar que este não é um problema meramente administrativo. As suas consequências são reais. Famílias veem viagens adiadas, estudantes perdem oportunidades académicas e profissionais ficam impedidos de avançar com projetos no exterior.
Mais preocupante ainda é o impacto na confiança institucional. Quando o cidadão percebe que cumprir as regras não garante acesso, instala-se um sentimento de injustiça e descrédito. E isso fragiliza qualquer sistema democrático.
A solução não exige invenções complexas — exige vontade e ação.
Medidas urgentes:
● Reforço dos sistemas de agendamento com proteção contra acessos automatizados
● Introdução de identificação obrigatória no momento da marcação
● Fiscalização ativa e penalização efetiva de intermediários ilegais
● Maior transparência na disponibilização de vagas
● Criação de canais alternativos para garantir inclusão digital
O problema é conhecido. As soluções existem. O que falta é ação concreta e imediata.
Um serviço público essencial não pode continuar refém de práticas abusivas. Garantir acesso justo ao agendamento de vistos é mais do que uma questão administrativa — é uma questão de dignidade e respeito pelo cidadão cabo-verdiano.
*Empreendedor
Os comentários publicados são da inteira responsabilidade do utilizador que os escreve. Para garantir um espaço saudável e transparente, é necessário estar identificado.
O Santiago Magazine é de todos, mas cada um deve assumir a responsabilidade pelo que partilha. Dê a sua opinião, mas dê também a cara.
Inicie sessão ou registe-se para comentar.
Comentários