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Por: David Veiga

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A ignorância política que grassa em Cabo Verde atingiu o cúmulo do ridículo esta semana por causa de um post do deputado do MpD, Emanuel Barbosa, a rejeitar Amílcar Cabral como figura do Estado. O seu partido, ainda que pela pena indirecta do secretário-geral ventoinha, Miguel Monteiro, já se demarcou da tal afirmação, mas ainda assim sai prejudicado.

É sabido que o MpD, de ideologia centro-direitista, não morre de amores pelo legado de Amilcar Cabral e, sobretudo, dos seus discípulos que haveriam depois por instalar o Estado cabo-verdiano. Mas o partido ventoinha nunca teve o desplante e o desrespeito pelo fundador da nacionalidade cabo-verdiana a ponto de o desprezar ao nível a que se atreveu o deputado Barbosa.

Efectivamente, mexer com Cabral é mexer com a história do nosso próprio país e quem o faz está explicitamente a desonrar a nação que lhe dá identidade. Mesmo sendo um post no facebook, logo, pessoal, não deixa de ter relevância o facto de Barbosa ser deputado nacional, que é como quem diz, alguém com responsabilidades acrescidas sobretudo no campo comunicacional e político, na medida em que as suas acções, ainda que fora da esfera parlamentar, têm sempre efeitos na sua avaliação política.

Outrossim, Amílcar Cabral é anterior e muito mais do que qualquer partido político em Cabo Verde, precisamente por ter sido ele a liderar a luta independentista que nos deu asas para sermos este Cabo Verde e, principalmente, permitiu a este arquipélago dar os primeiros passos da liberdade para cada um expressar como quiser. É esse legado de Cabral que possibilitou Emanuel Barbosa de dizer o que disse e de hoje estar sentado no Parlamento cabo-verdiano, com os votos de cabo-verdianos, e afirmar que também é cabo-verdiano.

Ora, não reconhecer Cabral como figura de Estado tem, na prática, a sua lógica, porquanto, Amílcar nunca presidiu ou governou este país. Mas, convenhamos, o Estado de Cabo Verde só existe por causa de Cabral. Isto é como não reconhecer Jesus Cristo como figura máxima do Catolicismo porque não fundou a Igreja Católica. Enfim, Cabral tem direito a estar sim em todos os locais públicos do país, onde se quiser colocar a sua imagem. 

O secretário-geral do MpD, Miguel Monteiro, já se demarcou da posição algo absurda do deputado Barbosa, mas o partido, a contra-gosto, sai também beliscado desta celeuma. Para já fica evidente – e não só aos ventoinhas – que deve haver melhor critério dos partidos na escolha de quem indica para representar o povo no parlamento, uma vez que as acções, responsáveis ou não, dos deputados eleitos pelas suas listas terão sempre reflexo na hora do voto. Sendo assim, todos os partidos serão responsáveis pelo comportamento dos seus deputados. 

Apesar de viver hoje fora de Cabo Verde, continuo atento ao que se passa na minha terra, de modo que, a meu ver, este assunto acaba, no fundo, por trazer à ribalta o tabu que se tornou Amilcar Cabral em Cabo Verde. Uma figura internacional, um pan-africanista estudado em universidades europeias e americanas e que está no panteão dos grandes pensadores do continente, continua a ser aniquilado pelos seus. Ou seja, Cabo Verde, tirando a Fundação que lhe dá nome, pouco ou nada vem fazendo para perenizar Cabral, através do ensino dos seus pensamentos nas escolas, por exemplo. 

Emanuel Barbosa foi longe, sim, mas o sistema político no geral não está ileso desta nova morte de Cabral. O pai da nacionalidade cabo-verdiana vem sendo assassinado todos os dias por nós mesmos e só damos por isso quando a sua nova morte é horrenda. Como esta, em que quem senta no Parlamento que ele, Cabral, idealizou lhe desfere golpes letais. Com a faca de Brutus!



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Comentários  

0 # Da costa 05-05-2019 09:26
Adorei este teu comentario isso demonstra que ainda existe gente de valor
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-1 # M M 04-05-2019 04:08
Os dirigentes do MPD vêm disfarçados fazer os seus comentários com veneno à mistura.
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-4 # Manuel Horta 04-05-2019 00:14
Amilcar Cabral é um político da GB e não é um Deus. Trata-se de um ser humano e que fez coisas boas e más na guerra na Guiné. Os guineenses aprenderam com ele que os problemas políticos se resolvem à lei da bala. Luís Cabral permitiu o fuzilamento dos comandos africanos rompendo o acordo da sua integração nas forças armadas da GB ou ida para Portugal. O PAIGC assassinou a sangue-frio três militares portugueses que iam falar aos militares guineenses sobre uma eventual paz entre os guerreiros. Causou-me asco ver um responsável do PAIGC falar ao Joaquim Furtado acerca desse episódio da guerra na Guiné e a rir-se como se fossem galinhas que foram assassinas desarmas e à traição.
A liberdade conquistada em 1991 permite a todo e qualquer cabo-verdiano ter ideias e expressá-las por mais absurdas e estúpidas que sejam. Em democracia não há intocáveis nem vacas ou porcos sagrados. O Estado de Direito é precioso e não se pode ceder nos princípios. A liberdade e igualdade são fundamentais e ninguém pode ser condenado por exercer a sua liberdade de expressão desde que não ofenda o direito de outro. Os juízos da história devem ser deixados ao tempo e Deus. Endeusar Amílcar Cabral não é uma boa via para determinar o seu papel na história de Cabo Verde. O homem viveu o seu tempo. Fez coisas boas e cometeu erros. Tem virtudes e defeitos. Conceder-lhe uma imunidade à crítica e à opinião não será a melhor forma de estar ao lado dele. Liberdade acima de tudo e todos.
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+2 # Antonino Barbosa 03-05-2019 16:13
Uma boa analise. O maior problema é que o MPD nunca valoriza o Cabral como grande homem que deu a sua vida para Caboverdeanos e guineenses. As atitudes dos seus militantes e dirigentes mostram isso todos os dias. Por outro lado a atitude de Emanuel Barbosa no parlamento deixa muito a desejar e agora demonstrou aquilo que é. O lugar de De[censurado]do pela Europa nao é de Emanuel Barbosa. Devido a posiçao de Miguel Sousa em relaçao ao Carlos Veiga o Emanuel Barbosa arranjou trafulices e colocou Miguel sousa fora do sistema. Ai Cabo Verde tem muita historia para se saber.
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+4 # Ernesto Rodrigues 03-05-2019 15:59
Parabéns, meu amigo.
Excelente artigo.
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-6 # Brutus 03-05-2019 15:52
Óh homem. Deixa de lero-lero, Hitler é também estudado em universidades, institutos. Amílcar Cabral é passado, bem morto. Com esta tua escrita, mataste Cabral. Coitado. Cabral era uma mente totalitária, não democrática, que não tem lugar num Cabo Verde de democracia. Tu nunca leste um livro dele, aposto, senão não estarias a dizer tantas asneiras aqui. O parlamento idealizado por Cabral era o parlamento da ditadura do partido único que durou de 1975-1991.
Brutos
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-1 # Atlovir 03-05-2019 20:32
"Acho que chegou a um ponto onde se tem de começar a escolher muito melhor os de[censurado]dos, porque é uma vergonha. Essa declaração não toca o Cabral, nem de perto nem de longe, toca os de[censurado]dos, a Assembleia [Nacional] ter gente desse tipo, é verdadeiramente triste",
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+2 # Piras 03-05-2019 14:15
Parabéns pelo escrito. Sem dúvida uma bela reflexão.
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