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Por: Gabriel Fernandes

Gabriel Fernandes

Em Cabo Verde, a despeito das conquistas da Nação, há sinais de que, afinal, não conseguimos converter-nos naquilo a que Otto Bauer chamaria de “comunidade de destino”. Não conseguimos entendimentos tácitos sobre o que queremos ser e muito menos para onde queremos ir; temos sérias dificuldades em explorar o que nos une e grande predisposição para potenciar o que nos separa. Descurando o essencial, gravitamos em torno do residual.

De certa forma, estamos a experimentar uma espécie de “retorno aos primórdios” onde, marcada por tráfico e traficâncias, a vida no arquipélago decorria sob o signo da automutilação do próprio corpo social, por amputação da componente humanizante, pela subtração da dimensão civilizacional e pela brutalização fundante que esmaga e anula as possibilidades de uma pauta humana de que pudesse resultar um projeto social.

Ontem, tivemos mais um sinal de fragmentação das bases do estar junto comunal. Porém, nada que pudesse surpreender-nos. Afinal, a violência física de que tanto se fala e que tanto repúdio suscita parece ser corolário natural de um perigoso processo de banalização do mal e de recuo civilizacional a que todos assistimos, serenamente, ou instigamos, tacitamente.

Portanto, nada de alarmismo, e muito menos de puritanismo ou pseudo-moralismo. De certa forma, merecemos o que temos.

Artigo publicado por Gabriel Fernandes na sua página pessoal do facebook



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Comentários  

0 # Daniel Carvalho 14-11-2018 16:26
" De certa forma, merecemos o que temos." ou então, temos o que não merecemos, se pensarmos que ao fim e ao cabo, caminhamos todos, cegamente, para destino comum dos mortais. O tal denominador comum que fingimos desconhecer.
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0 # SÓCRATES DE SANTIAGO 12-11-2018 18:35
Excelente reflexão. Assino por baixo.
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0 # Filhos de Caim 12-11-2018 14:13
Senão conseguimos encontrar um denominador comum é porque a sociedade não está bem? Talvez devemos perguntar as pessoas se querem a vida ou a morte, saúde ou doença? Paz ou guerra? Segurança ou insegurança? Pobreza ou riqueza?
É bem verdade o que o Dr. Gabriel levanta e a sociedade cabo-verdiana (talvez o Dr. Devia investigar a origem dos desgraçados que vieram para CV) não é possível constituir uma sociedade (como no Brasil) a partir de dejetos de outras sociedades. O melhor é uma déspota esclarecido para por ordem nisto, como o Bolsonaro no Brasil talvez. Porque o problema quando é de caracter não se trata com políticas sociais, mas sim com injeção de katxor.
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+1 # Gerson 12-11-2018 09:26
Muito bem visto, Senhor Gabriel!
Afinal, que tipo de humanos queremos ser? Convinha que não virássemos as costas à indagação e não adiássemos a resposta. Porquê? Somos mortais, vamos morrer; logo, é do nosso interesse realizar, enquanto estamos aqui, coisas que nos engrandeçam aos olhos e no coração dos companheiros de jornada. Amanhã pode ser demasiado tarde.
Temos que escolher; ninguém faz opções por nós. A todos se oferecem oportunidades de fazer o bem ou o mal, independentemente do estatuto económico e social de cada um. Pois é, a bondade não está à venda, não se compra, tem que se praticar.
O bem anda escondido, mas o mal mostra-se à luz do dia: no esbulho dos povos, na destruição das nações, na arbitrariedade, corrupção e perversidade das elites, na exploração infame das pessoas, nas angústias, humilhações, maus-tratos e sofrimentos infligidos aos frágeis e pobres, no abandono e desprezo dos idosos, nos dramas e gritos dos refugiados, nas lágrimas derramadas por mulheres e crianças, na precariedade laboral e na indigna retribuição salarial, no roubo do presente e no fecho das portas do futuro a tantos milhões de seres humanos.
Muita gente prepotente e sádica, abjeta e cruel, instruída e doutorada na esperteza e maldade, na sandice e vigarice, falsa e hipócrita, insana e louca, iníqua e reles, safada e traiçoeira não atribui importância à mortalidade; cuida que é imortal e imune ao castigo. Mas…atenção! Os canalhas e vermes que praticam o mal intencional, reiterada e alegremente, e os que o apoiam, aplaudem e reforçam com a sua cobardia, cumplicidade e omissão são malditos. São malditos para todo o sempre! Vão arder no inferno da vida e da morte. Não há confessionário que lhes valha, nem padre que os absolva da imperdoável perda de humanidade, da vergonha da indiferença, da incapacidade de amar o próximo ou, ao menos, de se colocar no lugar do Outro. Judas é o seu nome e companhia.
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