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Por: Jorge Lopes

Jorge Lopes1

Ao “abrigo do 114º”, já agora, escrevo essas linhas para partilhar o sentimento que me invade e envolve, certamente, como muitos outros cabo-verdianos. Na verdade, sinto-me muito ofendido na minha honra e dignidade como cidadão deste país e não consigo (nem quero) conter a minha mais profunda indignação em relação à forma baixa/vergonhosa como vem funcionando o parlamento do meu país.

O parlamento cabo-verdiano chegou ao fundo do poço. E tudo “ao vivo e a cores” através da nossa radio e da nossa televisão, pois, ainda por cima, é emitido para quem quiser ouvir cá fora.

Chegamos a um ponto tal que se recomenda aos pais e encarregados de educação que, lá em casa, mantenham as emissões do parlamento fora do alcance dos seus educandos, sejam eles crianças ou adolescentes.

É simplesmente deprimente acompanhar o parlamento. Quem vê uma sala tão nobre, bonita, e bem composta com deputadas e deputados trajados a rigor, nunca poderá imaginar a péssima qualidade do conteúdo que dela emana e se ouve cá fora.

Há um grupo bem razoável e perfeitamente identificável de deputados que, claramente, não têm perfil para estar nessa casa. São mal-educados e malcriados. Contagiam e contaminam todo o ambiente de trabalho, se é que que se pode chamar de trabalho ao que ali acontece. Sim, tenho de dizer que se trata de um grupo, para fazer justiça a muitos deles que fazem a diferença, lá dentro e cá fora, pessoas que sabem entrar, sair e relacionar-se com respeito para consigo próprios e para com os outros.

Entenda-se educação, aqui, não propriamente como o processo ou resultado de aquisição de conhecimentos ou aptidões, mas sim como a adoção de comportamentos e atitudes correspondentes aos usos socialmente tidos como corretos e adequados, como a cortesia, a polidez e o respeito no trato com o outro. Disso, o esperado é que os deputados, pelo papel que deles se espera na sociedade, tenham uma dose acima da média.

Exige-se, sim, algum conhecimento e aptidão. Mas muito mais do que isso, é incontornável e imprescindível um comportamento socialmente adequado, respeito para com os cidadãos eleitores deste país que, através do seu voto democrático, concederam o assento que ocupam na Magna Casa e dos seus impostos lhes pagam o salário, respeito entre os deputados, respeito para com a Magna Casa dos cabo-verdianos que é o Parlamento.

Ao contrário, os cabo-verdianos são brindados com sessões em que setenta a oitenta por cento das intervenções são feitas ao abrigo do famoso artigo 114º (defesa da honra) ou para interpelar a mesa da assembleia.

O timbre de voz, a postura e a forma de se dirigir aos sujeitos parlamentares são condimentos da condução dos trabalhos que contribuem de forma significativa para a balbúrdia e escola de maus modos que caracteriza o ambiente do parlamento e que faz muito lembrar a “escolinha do barulho”. Que esperar de uma sociedade em que a elite se comporta desta forma?

 



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Comentários  

0 # AUGUSTO DOMENICONI 11-08-2018 22:26
BRAVO! Jorge Lopes. Para além da dimensão do teu brilhante discurso que sintetiza, concentrando, a voz crítica da maioria dos cidadãos CV - e quem sabe, também de vozes externas, eu tenho ainda fresco na memória o exemplo do teu exemplar desempenho como Presidente da Assembleia Municipal do Sal, pois, para mim, os alguns De[censurado]dos na AN, necessitando de alimento educativo e parlamentar, poderiam ou deveriam escutar as gravações dos trabalhos da AMSal do teu tempo como Presidente, para alcançarem um nível mínimo de bagagem para melhor desempenho das suas funções. Proponho uma iniciativa privada para erigir e fazer funcionar uma entidade/escola para os próximos candidatos/alunos. Um Forte ABRAÇO Salense.
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+4 # Sócrates de Santiago 29-07-2018 11:57
Concordo ipsis verbis com este brilhante e pedagógico artigo do Senhor e cidadão nacional Jorge Lopes e creio também que a grande maioria dos cabo-verdianos concorda com o mesmo. Há dias, no âmbito das Disciplinas de Direito, FPS e Educação para a Cidadania, umas turmas duma Escola Secundária aqui da Praia foram assistir a uma sessão parlamentar. Terminada a sessão, os alunos, estupefatos, disseram assim aos professores que os acompanhavam- SI KI DI[censurado]DUS DI NASON É MALKRIADUS, ES TA FAZE MÁS BUREZA Y BARUDJU KI NÓS NA NÓS TURMA! Senhor Engenheiro Lopes, eu gostaria que toda a classe política cabo- verdiana lesse com atenção este seu artigo e agisse em consequência. Cumprimentos socráticos!
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0 # Daniel Delgado 28-07-2018 11:14
Parabéns pela opinião! Bem conseguida e que exprime, exactamente, o que penso!
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0 # Dijon Djon 27-07-2018 20:46
Estamos tramados, de[censurado]dos mal preparados que não representam o povo mas sim o seu partido, o Presidente do AN sempre a berrar, com tudo isso há motivo para deprimir qualquer um...
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0 # Rapacinhu di Fora 27-07-2018 14:27
Boa Tarde a todos. Sr. Jorge Lopes, estou de acordo em parte com a tua opinião e assino por baixo. Quando diz que pais e encarregados de educação devem deixar as emissões da TCV, quanto a transmissão da sessão parlamentar, diria o seguinte: Penso que o que vede ser feito é ter um maior rigor na escolha do de[censurado]dos, ou seja, do pessoal que compõe a lista. Não sei bem, mas as pessoas escolhidas para representarem o nosso parlamento, e representar o povo Cabo-verdiano, dever ser exemplo para o futuro, pessoas que nos orgulha. Ainda esta semana ouviu-se uma barbaridade do de[censurado]do para o circulo de São Nicolau, hoje é este do Fogo. Onde chegamos e para onde vamos? Que futuro para Cabo Verde e nosso Parlamento? Fico triste. mesmo triste com estas situações. Já não vão lá para defender o interesse do pais, mas sim, seus próprios interesses. è Lamentável
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+2 # Antonio Pina 27-07-2018 11:18
Pelos vistos esse de[censurado]do é um professor.
A questão é :- Que tipo de ensinamento que ele transmite aos seus alunos?
Será que é esse seu comportamento/seu modo de entender as coisas/suas interpretações? etc,etc,etc,? Francamente !!!!!!!!!!
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