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Por: David Veiga

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Revolta é o mínimo dos sentimentos que invade os corações dos cabo-verdianos desde sábado, 23. A morte da jovem parturiente Eloisa Correia na ilha do Sal, depois de uma flagelada e indigna viagem de barco desde a Boa Vista, que a Binter se demite dessa responsabilidade, alarma qualquer um.

E nem tem tanto a ver com o facto de a Binter “lavar as suas mãos” desta indecência humana – porque, como a empresa privada se escusa de só ter autorização para transportar passageiros e cargas, e não doentes a necessitar de evacuação – mas porque, de repente, nos vemos, nós todos cabo-verdianos, iminentemente vulneráveis, frágeis e impotentes.

Cada um de nós tem parente, amigo ou familiar próximo a viver nas nove ilhas habitadas deste país. Cada um de nós sofre só de pensar “que o próximo pode ser você”. Porque por mais que tentemos ilibar o sistema e as leis que o regem é impossível ficar indiferente a tamanha barbárie institucional. A partir do momento em que o dinheiro sobrepor as pessoas deixamos de ser gente e passamos a funcionar como animais com um padrão de conduta.

O mais grave é que esta não é primeira vez que tal descaso em relação a cidadãos nacionais acontece. O que demonstra como a classe governante vem lidando com os problemas sociais de base que nos afligem desde a independência.

O PAICV, nos 15 anos que governou o país em democracia, não conseguiu criar condições nas ilhas para reduzir a dependência dos hospitais centrais no que toca aos cuidados mais prementes. O MpD está com puco tempo na administração do país, mas isso também não o iliba, porque disse ter solução, mas misturou alhos com bugalhos. A começar por esse estranho acordo com a Binter, sem negociar de antemão a possibilidade de a empresa de capital canariense poder assegurar o transporte de passageiros em situações de emergência, serviço, que, bem ou mal, a TACV, retirada do mercado inter-ilhas, fazia.

Neste momento, todos os cabo-verdianos estão a absorver a dor de Eloisa e de seus familiares. Porque é deveras lamentável um país que se arroga de ser exemplo em África, a nível da boa governação, e permitir que parturientes sucumbam por falta de condições clínicas na ilha onde residem ou por falta de transporte aéreo (e estamos a falar de um arquipélago) para as socorrer.

Neste quesito, até faz sentido adicionar onde estes descasos têm estado a ocorrer: Boa Vista e Maio, ilhas turísticas. É bom que se perceba que no dia em que um turista sentir mal e necessitar de ser transportado para um hospital central e não houver avião, toda a política do turismo irá por água abaixo.

A Binter, da sua parte, já fez saber que não é da sua conta prestar esse tipo de serviço, debitando a culpa ao Governo e ao INPS. Tem razão, a sua insensibilidade brota de outra insensibilidade primordial: o mau contrato que o Governo assinou, fazendo que com que opere em regime de monopólio com a incompreensível saída da companhia de bandeira nacional dos voos inter-ilhas.

O Governo, por sua vez, anuncia a abertura de um inquérito para apurar o caso de Eloisa, no que parece ser mais uma tentativa de gerir expectativas. Numa recente entrevista concedida à TCV, o primeiro-ministro anunciou a compra de um novo avião para a Guarda Costeira já equipado com meios clínicos para os primeiros socorros. A informação surgiu depois de outro caso similar – uma mulher perdeu o filho no trajecto maio-Praia de bote – e foi aplaudida pelos mais ferrenhos mpdistas, como se já fosse um ganho adquirido. O PAICV fizera a promessa mesmo com os helicópteros, lembram-se?

O país está numa fragilidade sanitária e mobilitária preocupante. A indignação é do tamanho deste nosso Cabo Verde. A mágoa tem a extensão do nosso mar.



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Comentários  

0 # Djosa Neves 26-06-2018 21:37
Emoções á flor da pele que retiram a capacidade de analise fria, factual das diversas situações, de vez em quando passam por aqui como um lamiré num quarto escuro.
Quantos trágicos e muitos acontecimentos do tipo constituem nosso quotidiano, desde há muito? Quantas mortes por causa desconhecida povoam nossa história e dia a dia? Este trágico acontecimento foi trazido á ribalta e desta maneira usado/manipulado e distorcido por puro oportunismo e demagogia.
Sem conhecerem os factos, para mais numa situação médica, sem saberem das condições necessárias para transportar doentes por via terrestre, aérea ou marítima, o INDIGNISMO saltou á ribalta numa espécie de concurso em busca de um oscar. Esta é uma de entre varias situações/desafios a resolver, mas que não se resolvem de dia para noite e que não foram antes resolvidas porque as prioridades antes escolhidas e anunciadas e chamavam-se OBRAS de camaradas
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0 # PEPETELA 26-06-2018 09:09
COME ON MAN.... PLEEEAAAASE. POR FAVOR... Uma pessoa morreu, há outras hoje em situações delicadas e desesperadas (alunos e famílias esfomeados, situação sanitária precária, etc.), esta a olhar ainda pelo retrovisor (“O PAICV, nos 15 anos que governou o país em democracia”). A final “sem djobé pa lado” não era de solucionar os problemas (“Cabo Verde tem solução”) e avançar. Não queremos saber do PAICV ou do MPD. Queremos um Governo e dirigentes que solucionam os problemas. Será que a falta de chuva é uma fatalidade? Será que viver nas outras ilhas fora de São Vicente e Santiago é um castigo? Não queremos ouvir mais “vão ser construídos…”, “vão ser feito…”, “temos financiamento para...”. Não queremos dirigentes com salários mirabolantes e multiplicação exponencial de contratos de gestão para técnicos sem técnica, sem savoir-faire, jeepões de luxo, a viajar pelo mundo fora com ajudas de custo elevadíssimas enquanto o povo está a morrer de forma lenta e pouca digna. Queremos que as coisas funcionam e CIAO…
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