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Por: David Veiga

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“Numa democracia, a única maneira de se chegar ao poder é fazendo promessas. Todas as campanhas eleitorais são mentirosas. Prometer é enganar”. Régis Debray, filósofo contemporâneo francês e antigo assessor de François Mitterand, fez esta observação em entrevista a uma revista brasileira. E isto é precisamente o que andam também a fazer os nossos políticos cá do burgo. Desde sempre, aliás. Prometer, prometer e prometer, para no fim acabar tudo em águas de bacalhau.

Nem é necessário recuar muito no tempo que não vale a pena. Mas desde 1991 – ano das primeiras eleições multipartidárias no país – que se fazem juramentos de tanta coisa.

A entrada do novo milénio mudou o pensar e o augúrio do político crioulo: é Cabo Verde a crescer a dois dígitos por ano, o desemprego a um dígito, Cabo Verde Digital, praça financeira, o arquipélago 100% renovável, Praia Menina do Mar…

Agora os dias actuais. O primeiro-ministro, desde a campanha de 2016, prometeu que com ele na governação irá “criar condições para fazer crescer a economia do país de forma sustentada a taxas superiores a 7 por cento”, sendo 5 por cento logo em 2016/17. Não aconteceu. No ano passado Cabo Verde cresceu 3,7 por cento. Em 2018 a previsão do Governo é para a economia acelerar 5 por cento, bem mais optimista do que preveem o FMI, Banco Mundial ou banco de Cabo Verde: entre 3,5% e 4%, no máximo.

Ouvimos o actual primeiro-ministro prometer na campanha eleitoral que iria acabar com o clientelismo na administração pública, entretanto, além de acabar com os concursos, Ulisses Correia e Silva só meteu pessoas do seu partido nos lugares onde julgou estarem gente próxima ao PAICV; anunciou o fim das propinas escolares, isenção de impostos para empresas recém-criadas, emprego para 45 mil cabo-verdianos durante o mandato… e está a acontecer precisamente o contrário: a Administração Pública parou de contratar, ainda se criam “jobs for the boys” e o desemprego é o que é – a situação a mostrar números a confirmar mais emprego, a realidade a reclamar diariamente por uma chance para jovens quadros em casa.

As promessas deste Governo não estão a ser cumpridas, o que no mínimo sugere uma falta de respeito ao cidadão eleitor a quem se jurou seguir o caminho da verdade.

Enfim, no fundo há dois tipos de corrupção: do dinheiro e da promessa. Os dois casos fazem escola nestas ilhas: quem tem dinheiro compra votos, quem não tem corrompe a moral alheia com promessas muitas vezes de execução impossível.

E dos dois, a pior é a corrupção moral que está impregnada na nossa classe dirigente, criando o oportunismo que, por sua vez, se transformou na base desse exercício reprovável de mentir a quem se pede favor. Os políticos, de facto, querem seduzir a qualquer preço. Porque a única forma de roubar sem ir preso é estar na política, que lhes oferece o “paraíso” da imunidade.

O poder político, enfim, já só administra ilusões.  E a política virou uma decepção, porque sucumbiu à economia. Sobrepõe-se então uma ideia aterradora: pode haver democracia sem povo. Vota-se, mas as decisões finais ocorrem em outro nível, como diria Debray.

 



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