Pub
Por: David Veiga

david veiga 10

O cabo-verdiano é um povo sui generis. De quando em quando lá estamos nós a aplaudir feitos menores e, de repente, a criticar atitudes que nos deviam orgulhar. Amiúde, há tentativas avulsas de nos tentar condicionar o raciocínio, como se fossemos bonecos pré-programados para executar tarefas.

O discurso do primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva em inglês, na conferência Horasis Global Meeting, acabou sendo motivo de chacota nacional por causa do seu sotaque. E de chacota passou, num ápice, para argumentos flácidos de que Ulisses Correia e Silva desprezou a sua língua oficial, o português ou o crioulo, para se mostrar arrogante num palco internacional.

As críticas a Ulisses não têm qualquer sentido lógico, muito pelo contrário, revela a pobreza intelectual de certas pessoas que, sentadas no seu divã, esperam – ou procuram – qualquer lapso do Governo e do primeiro-ministro para apontar o dedo e se fazerem de juízes do tribunal popular. Tenho para mim que Ulisses fez um discurso optimista, compreensível (apesar do sotaque) e vencedor, precisamente porque tocou o coração dos presentes, que retribuíram com aplausos.

Estou, aliás, convencido de que quem divulgou o vídeo inicialmente, não o fez para criticar Ulisses, mas sim para troçar do ministro Abraão Vicente que semanas atrás havia humilhado os jornalistas porque não sabiam o inglês. Sendo o inglês um idioma estrangeiro é normal que em Cabo Verde pouca gente o entenda. E no caso do primeiro-ministro foi uma atitude ousada e plausível, pois nessa conferência internacional não havia tradutores. Ora, Ulisses foi destemido, não se acanhou perante o público que o ouvia e de forma confiante falou no seu inglês. E com eficácia.

O mais caricato nisso tudo é que muitos dos que andam a gozar com o inglês do primeiro-ministro, são os campeões do assassinato do português, sua língua oficial. Ninguém critica o mau sotaque e o pouco domínio do português dos deputados no Parlamento. Ninguém levanta do dedo indicador em riste contra o sistema de ensino que permite estudantes do básico ao universitário atropelarem a língua de Camões, sua ferramenta de trabalho. Mas a bazofaria crioula chega ao cúmulo de ridicularizar o chefe do Governo simplesmente porque não tem um inglês com british accent.

Alguém já riu do português de Angela Merkel? Ou do francês de Donald Trump? E do inglês de Xi Jinping? Seguramente que não, porquanto nas arenas onde falam em outra língua, que não a sua, estão personalidades que se preocupam apenas com a mensagem e não com a forma. O complexo do cabo-verdiano é exactamente isto: dar importância ao aspecto sem se preocupar com a essência. O caso de Ulisses é a confirmação cristalina dessa sina crioula, a ponto de muito pouca gente se dar ao trabalho de tentar entender a mensagem do primeiro-ministro. O que disse Ulisses nessa conferência? Nenhum dos seus detractores conseguem responder, porque não estavam (ou não estão) interessados em ouvir. Querem acusar, condenar, penalizar.

Neste quesito se calhar sou pouco cabo-verdiano. Mentira, sou do leque de cabo-verdianos que sabe valorizar o seu país e se orgulha de ver o seu primeiro-ministro a brilhar em palcos internacionais. Seja a falar crioulo, português, inglês ou wolof.

Palmas, senhor primeiro-ministro. Tenho orgulho em ser cabo-verdiano.



APOIE SANTIAGO MAGAZINE. APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE!

A crise na imprensa mundial, com vários jornais a fechar as portas, tem um denominador comum: recursos financeiros. Ora, a produção jornalística, através de pesquisas, entrevistas, edição, recolha de imagens etc. Tem os seus custos. Enquanto está a ler e a ser informado, uma equipa trabalha incessantemente para levar a si a melhor informação, fruto de investigação apurada no estrito respeito pela ética e deontologia jornalisticas que caracterizam a imprensa privada, sobretudo.

Neste momento em que a informação factual é uma necessidade, acreditamos que cada um de nós merece acesso a matérias precisas e de interesse nacional. A nossa independência editorial significa que estabelecemos a nossa própria agenda e damos nossas próprias opiniões. O jornalismo do Santiago Magazine está livre de preconceitos comerciais e políticos e não é influenciado por proprietários ou accionistas ricos. Isso significa que podemos dar voz àqueles menos ouvidos, explorar onde os outros se afastam e desafiar rigorosamente aqueles que estão no poder.

Portanto, se quiser ajudar este site a manter-se de pé e fornecer-lhe a informação que precisa, já sabe que toda contribuição do leitor, grande ou pequena, é tão valiosa. Apoie o Santiago Magazine, da maneira que quiser, podendo ser através da conta nº 6193834.10.1 - IBAN CV64 000400000619383410103 – SWIFT: CANBCVCV - Correspondente: TOTAPTPL - Banco Caboverdeano de Negócios - BCN, ou por meio deste dispositivo do PayPal.


APOIE SANTIAGO MAGAZINE. APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE!

Comentários  

0 # Mario Alberto Saloma 20-05-2018 15:05
Sr. David Veiga, estou plenamente de acordo com o seu texto. O Sr. Ulisses falou um bom ingles ai nessa assemblea. Pelo que si diz do seu sotaque, è uma coisa natural. O senhor Trump fala ingles com sotaque dos EUA, onde esta o problema para que essa menoria de CVerdianos estejam procurando de denigrar-lo? Viva CV. Sou apolitico.
Responder
0 # Acordo 23-05-2018 10:06
Sr. Mario Saloma, para quê tanta pressa a ponto de cometer vários erros de português no teu pequeno texto? O que é isso de "denigrar-lo"? E "assemblea"? "si"? "ai nessa" "è" "ingles"' ?????????
Responder
-1 # Artur Cardoso 20-05-2018 13:55
Mais um que quer mostrar serviços para ver se consegue uma linguiça na boca e não no pescoço como sr. Ulisses tinha falado. Haja respeito para opinião de cada um. Mas que foi um atrevimento desnecessário há isso foi!
Responder
0 # Analogia proibida 20-05-2018 13:32
David, há analogias que não se fazem.

Se Cabo Verde precisa do Inglês como de pão para a boca para o seu desenvolvimento, já o mesmo não se pode dizer da Alemanha em relação ao Português e muito menos em relação ao crioulo. É ou não é?

Se o Inglês é um poderoso instrumento de que precisamos para o nosso desenvolvimento, então, devemos cultiva-la e aperfeiçoar constantemente. Eu acho que o Samilo acabou de prestar um grande serviço à Nação, pois, colocou o dedo na ferida e estou certo que, doravante, muita gente vai procurar aperfeiçoar o seu inglês para não passar vergonha que o UCS passou. E mais, creio que, a seu tempo, o Estado, ou seja o próprio governo, vai reagir para combater esse défice na sociedade cabo-verdiana.
Responder
0 # Tacho 20-05-2018 13:04
óóóhhhhhh David. tu também metes nisso?, ou seja, tás também atrás do tacho?
Responder
+1 # Paulino Oliveira 20-05-2018 10:55
Sim
Senhor David Veiga.
Bem falado excelente texto esclarecedor.
Isto que nos torna orgulhoso.
Mereces palmas pelo belo explanação.
Cabo Verde precisa de homens com este visão
Responder
0 # Katchas 20-05-2018 09:26
Qual é a diferença entre pronúncia e sotaque? SankiU
Responder
0 # Daniel Carvalho 20-05-2018 09:22
Concordo em absoluto com o articulista.O curioso, mas estranhamente curioso é que a grande maioria de pessoas que hipoteticamente estarão a querer troçar do Inglês do Ulisses, nem sequer conseguem identificar eventual deficiência porque não percebem. Simplesmente caricato. Ainda bem que o Ulisses está nas tintas com essa gente bem identificada.
Responder
0 # Acordo 23-05-2018 10:02
Sr. Daniel Carvalho: grande maioria de pessoas estará a querer troçar... se utilizar apenas pessoas, aí sim, seria estarão. Assim se escreve no bom português.
Responder
+1 # Djoncabafum 20-05-2018 00:24
Lata de graxa na mao direita e escova fiiininha na mao esquerda. nada mais . ..
Responder
0 # Sola de Ulisses 19-05-2018 19:24
A sola do sapato do Sr 1º Ministro de Cabo Verde está limpinho. Agora mais de que nunca já tirei a minha conclusão de que o segredo do sucesso de algumas pessoas passa pelo lamber da sola dos outros.
Responder
+1 # Djan Djóbi 19-05-2018 17:40
Oh chefe o que é que um discurso medíocre do PM tem a ver com valorizar as coisas de Cabo Verde? Você deve estar na arena do teatro e do carnaval. Por acaso o seu Ulisses é mais cabo-verdiano que os outros que desdenham o seu inglês de quinta categoria? Precisa de um emprego? Procura-o de outra forma e deixa de fazer figura de urso.
Responder
-2 # Djô Pinto 19-05-2018 17:34
Subscrevo na íntegra o seu artigo de opinião. O cabo-verdiano, na grande maioria dos casos, é um ser oportunista que procura enfraquecer o outro para poder ele sobressair-se. Podemos ser exemplares naquilo que fazemos e ninguém reconhecer isso. Mas basta um único "discuido" para muitos atacarem a nossa honra. E disse bem, muitos daqueles que atreveram a atacar o PM não sequer expressar-se na língua de Camões, atropelando-a de todas as formas. Os de[censurado]dos e os estudantes (do liceu e universitários) são prova disso: que o cabo-verdiano não sabe falar português. No caso do inglês, nem vale a pena prenunciar-se!
Responder