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Por: Mana Guta

Guta11

Era uma vez, uma senhora muito bonita, que se chamava Dona Casa, e contava histórias de encantar, para crianças e adultos. As pessoas do lugar lembravam-se bem dela, porque costumava estar cheia de crianças, ao fim da tarde, no tempo em que só havia a luz da Lua, ou o escuro em breu. Naquele tempo, sobrava tempo à tarde e sobrava tempo à noite, para crianças e adultos. E todos eram muito felizes.

Passaram-se anos e tudo mudou. As plantas e as flores mudaram; os lugares, o mar e os ventos mudaram; os peixes, as rochas e os animais… e os afazeres mudaram. E até as pessoas também mudaram. Mudaram tanto e tão rapidamente que a Dona Casa, às vezes, se encontrava vazia. Passou a se encher só aos domingos, à tarde.E depois, nem isso. Nem Domingo à tarde; nem feriado de manhã. Nem fumo, nem mandado. Estava sozinha, deserta e sem gente.

Quando ninguém ia à Casa, ela própria dava a sua razão: penteava seus crespos cabelos negros e fazia grossas tranças com fitas nas pontas; colocava um batom vermelho, com cheiro a morango e usava um perfume de jasmim.

E saía por aí à procura de crianças. Se encontrasse adultos, também servia.
Dona Casa era moça bem-educada. Parava para cumprimentar as pessoas, que ia encontrando pelo caminho e perguntava-lhes sempre:

- Conheces a história de Lobo e Chibinho? Da Tia Ganga e Cabra Gazela? Quem sabe do Menininho Camoca ou da Encantada do Mar de Ilhéu?

Assim andava, de vila em vila; cidade em cidade. Saiu da terra, à procura de ouvintes: viajou pelas ilhas, de Norte a Sul; e foi para a diáspora. Chegou aos Estates Of Course, a Lisboa Menina e Moça, à França Biensur e deu um pulo até o Brasil. Legal...

E por todos os países da Comunidade, da CDEAO: Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné-Conacri, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. E continuando a viagem, enquanto houvesse uma única criança, que precisasse de companhia, lá ia ela:

- Conheces a história de Branca Flor? Algum dia viste o Saci Pererê? E Ossaim, já ouviu falar? Quem sabe, Moby Dick, a baleia?

Mas um dia a Casa se cansou e ficou velha. E, depois de velha, ficou doente. Foi assim que Camões a viu, num dia em que ela estava triste. Cansada e triste, que pena!

Camões gostava da Dona Casa, desde que era bebé. Sua Mana Preta lhe contava as histórias lindas da Casa de Tranças. Tempo, ele Camões, não tinha. Mas tempo, dizia a Avó, somos nós que o fazemos. Reuniram-se os dois e tomaram uma decisão muito importante.

Dona Casa não precisava mais sair por aí, pelos mares bravios, pelos ventos secos e chuva fria. Seus sapatos estavam velhos e sua roupa quase rota. Quem tem um bom colherão não precisa queimar a mão...

Tudo havia mudado, mas tudo mudou de novo. Então sim.

Foi assim que os encontrei no sábado de manhã.
Onze crianças de lindos nomes: Antão, Vicente, Luzia, Nicolau, Maria das Dores, João Galego, Maria da Luz, Tiago, Filipe, Maria Brava e Tomé Hamilton. Olharam todos para a Casa, pedindo licença, e ela sorriu. Sorria um doce sorriso lindo, só comparado ao da Encantada.

Sentou-se no Banco Mor e disse:

- Eu, a Casa das Ilhas, conto-vos uma história, a primeira de todas. Esta é a história de onde todos viemos, antes de o mundo ser mundo.

E Dona Casa assim falou:

- Estória, estória.

- Fortuna do Céu, Amém!

- Era o sexto dia.

O Senhor Deus, em sua sabedoria e onipotência, fez o Céu e a Terra, o Sol e a Lua; o Mar bravo e o Mar manso, a nuvem, os astros e as estrelas.

O dia e a noite.

E Deus viu que era bom.

E Deus olhou para as suas mãos.

E as mãos de Nossenhor estavam cheias de barro. Era o sexto dia.

Fez-se um grande silêncio.

E Deus sacudiu as mãos. Eis que dez respingos de barro caíram no meio do mar: à direita, o Barlavento, à esquerda o Sotavento.

Obra do acaso.

Quem souber mais, que conte melhor!

E que o mais novo corra rápido e tente agarrar o saco de dinheiro que está quase entrando no mar.
- Então sim. Sejam bem-vindos. Aqui preparamos a viagem das ilhas. Na terra seca e depois das águas. Ilha a ilha, soltamos a língua dos anjos que o mar leva ao silêncio das rochas. A fortuna do tempo e o tesouro da terra são frases que moldam o coração dos homens. Num terreiro à noite, sob a luz do luar, nas canções de ninar... a Paz vem chegando, o Sol vai nascendo. Filhos do Amor do Norte e do Sul. Assim somos nós.

Eu conto hoje o que ouvi ontem, tu contas amanhã o que hoje ouviste. Porque as árvores só se elevam nos céus, se as raízes estiverem no fundo da terra-mãe.
E assim ela repousou, no doce sono das casas. E as onze crianças e os onze bancos ficaram por conta de Camões Codê.

Logo deveras. (Mana Guta)




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