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Por: Mana Guta

“Juro ensinar e aprender sempre, partilhar com todos o conhecimento adquirido (…) a fim de que o processo de aprendizagem se torne válido e enriquecedor. Assim juro e assim Deus me ajude.” (Juramento de Professor-Linguista, feito em 1996) 

Este texto foi escrito para ajudar o leitor a entender as razões que justificam a atribuição do PRÉMIO CAMÕES do ano de 2018 a GERMANO ALMEIDA. Trata dos temas eleitos e de um estilo novo que se redesenha no período pós-independência, e do qual o laureado é um dos protagonistas.

Germano Almeida, o Escritor

O segundo olhar a ser partilhado com o leitor pretende explicar, através de uma pequena viagem por quatro livros de Germano Almeida, a introdução a uma abordagem temática e a instituição de um “estilo de escrita” que foi semeado em diálogo e aparentemente no destoar da chamada literatura “clássica”. Os livros foram escolhidos, de forma criteriosa, pela sua diversidade e abrangência ilustrativa.

O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo

O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo foi publicado em 1989 e terá sido escrito, segundo o autor, à mão e em 15 dias. Sua “estória” passa-se na  cidade do Mindelo, ilha de S. Vicente, ilha onde vive Germano Almeida. No mesmo ano de 1989 no mês de Agosto, ele dá por findo o romance de 452 páginas intitulado O Meu Poeta onde consolida, com uma fina ironia, uma crítica já iniciada no primeiro livro, dirigida à sociedade cabo-verdiana do período pós-independência. Diz-nos Germano que, entre o início de O Meu Poeta (1984/85) e a publicação em 1990,  houve um interregno em que O Meu Poeta terá ficado em tempo de espera. 

Adaptado a filme, numa produção homónima que envolveu três países, sob a direção de Francisco Manso, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo tem como elenco: Nelson Xavier, Maria Ceiça, Chico Diaz, Zezé Mota, Karla Leal, Via Negromonte, Francisco de Assis, Milton Gonçalves, Camacho Costa, Elisa Lucinda e coadjuvantes e músicos cabo-verdianos (Cesária Évora, Tito Paris…). O romance apresenta-nos a figura contraditória do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, homem metódico e ambicioso, natural de S. Nicolau, que chega a Mindelo, S. Vicente, de pés descalços, e consegue prosperar e conquistar respeito dos seus habitantes e de outras ilhas de Cabo Verde. As contradições de Napumoceno figuram tão emblemáticas que atingem a sociedade mindelense e cabo-verdiana no geral.

Em O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (1989), a insularidade é retomada e o verde do nome contrasta com a seca constante; a raridade da chuva surpreende os mindelenses e acaba por ser a grande virada do negócio de Napumoceno, que consegue vender 10.000 guarda-chuvas, devido a um erro de cálculo. O acaso da descoberta e a natureza agreste das ilhas vão de encontro ao caráter pacífico de seus filhos, utilizado no passado como estratégia de ascensão social, sinal de civilidade que marca a diferença com os outros povos do mundo; as contradições prosseguem nos sentimentos de amor-ódio do pai pelo filho ilegítimo e pela recusa-negação do filho em relação ao pai. A identidade de Maria da Graça e demais protagonistas está presa à memória que ambos representam, no apagamento/esquecimento, e na reminiscência/recuperação  a um tempo de orgulho e de vergonha , de reconhecimento e de subjugação,de aceitação e de repúdio. 

Ao retratar as festas e os costumes de Mindelo, as viagens de Napumoceno aos Estados Unidos da América e depois à sua ilha Natal de S. Nicolau e em outros momentos da obra, o narrador contrasta a herança colonial e a simbologia do Ocidente erudito com o fincar os pés na terra e o retorno às origens. Por isso, a especificidade do ser cabo-verdiano, seja ele pobre ou remediado/filho da terra é possível através da morte do pai. Napumoceno deixa de viver em 1974, ano em que ele se considera morto. Entretanto, Carlos e Gracinha sabem-no muito bem que o velho só vem a morrer efetivamente em 1984. Em dez anos, não só não terá comprado nenhum fato (terno), à razão de dois por ano, como de costume, como ainda deixou de cuidar do único que foi encontrado cheio de mofo num simbólico e misterioso armário. Após a sua pretensa morte em 1974 e a sua morte “oficial” em 1984 deixa para Carlos seu sobrinho, como única herança, um pardieiro velho no Mato Inglês. 

De duas mortes sofreu Napumoceno: a primeira em 1974, ano da Revolução dos Cravos e o fim da soberania de Portugal nas Colónias. Depois de dez anos após se abrirem as portas do Campo de Concentração do Tarrafal, morre, de novo. Mas efetivamente só as suas memórias propositadamente detalhistas e objetivas para nos confundirem sobre quem/o que/que lado de Napumoceno morreu em 1984. Enterrou-se o homem, ao som da marcha de Beethoven como ele próprio exigiu, mas a memória persiste e Napumoceno pervive, através de suas memórias e principalmente nas fitas-cassete gravadas e nas laudas à máquina e à mão deixadas à Gracinha.

Os Dois Irmãos

Os Dois Irmãos, contrariamente aos dois primeiros livros, tem como espaço o Sotavento. Um promotor público, alter-ego de G.A., decide escrever um livro que ele próprio admite ser uma forma de se perdoar por ter condenado André, personagem de Santiago, que vive no Tarrafal, extremo Norte da Ilha de Santiago. Esta região em Santiago representa o inverso de Mindelo em S. Vicente; e, pelo papel simbólico que tem quer na resistência dos portugueses e africanos ex-presos do regime fascista no Campo de Concentração, quer pelas propostas no domínio de uma cultura de resistência por meio da música e da literatura tradicional no pós-independência; Germano traz-nos, pelo olhar e pela voz de um sampadjudu (cabo-verdiano de Barlavento), os modos de ser e de estar do badiu (cabo-verdiano de Santiago).

Em circunstâncias nunca esclarecidas, André e ou a sua aldeia acabariam por ser responsáveis por assassinar João, que havia traído o irmão, levando sua cunhada a adultério. André, que na época do adultério se encontrava em Portugal enquanto sua esposa morava com os pais dele, regressa com a voz do emigrante retornado, que havia saído à procura das condições de vida, ditas melhores, na ex-metrópole. Nem sequer concorda com a “sentença” popular e moral que os seus familiares haviam dado a João, em nome de uma honra que lhe vem antes e  que está acima da família. 

Vê no João o irmão, por quem tem afeto e sentiu saudades. Nem o leitor nem o narrador nem o Promotor público que se transfigura em um narrador ou algo parecido, mas que teima em fugir também para fora do livro, fazendo as vezes do escritor, entendem claramente o que aconteceu numa fatídica madrugada de baile, no interior do Tarrafal. O certo é que João é assassinado e André assume a culpa do fatricídio. O Direito é exercido, sem que a justiça seja feita. Justiça esta que só será feita mais tarde quando o promotor “cria” um escritor e o escritor faz parceria com um contador de estórias e esclarece que o livro é o relato de “uma estória real”. 

Estória que purga quem? Narrador, promotor, autor, escritor badiu ou sampadjudu? O certo é que o livro questiona e reflete sobre uma sócio-cultura considerada diferente à do Barlavento, mas sob o olhar de um boavistense, e sobre quando ele viveu em Santiago, mas que escreve depois de radicado em S. Vicente. Interessante ainda o questionamento à volta da verosimilhança e dos papeis de cada um na escritura, feita como meio de redenção que persegue a justiça que “tarda mas não falha”.

A Ilha Fantástica

Boa Vista, a ilha de nascimento do autor, serve de palco para o seu livro A Ilha Fantástica. Tendo sido inicialmente publicado emcapítulos, na Revista Ponto & Vírgula com o título de “Estórias” e sob o pseudônimo de Romualdo Cruz, o livro  interessa-nos por ter a síntese da cultura popular (hábitos e costumes, tradições religiosas, superstições, rituais de passagem ligados aos ciclos de vida). É também importante porque, para além da síntese, o olhar do narrador é um olhar de saudade e de afeto que recria um outro Cabo Verde. Um ilhéu, acostumado com uma vida de pequeno burguês de uma cidadezinha (que em  Cabo Verde na altura se chamava de Vila) que gira à volta do porto, encontra-se em plena savana angolana, num espaço de dimensão gigantesca e se sente sufocado pela vastidão das matas e pela solidão. É deste espaço que ele relembra e revive os episódios da ilha natal, onde, em contraste à pouca vegetação, há areia e dunas brancas, e por onde quer que se volte vê-se o mar, transparente, de águas quentes, céu azul e nuvens brancas; e gente simples. Gente pacata com suas tradições, onde a solidariedade e o controle social são apertados, onde ninguém está sozinho, a não ser quando “vai ao mar”.

O Meu Poeta

Para além da diversidade temática, O Meu Poeta é um livro que procura essencialmente a construção de um estilo de escrita. Ele se assemelha à matriz de onde saíram, até agora, todos os outros livros; e tem uma preocupação adicional de encontrar a forma de escrita nova, volvida mais de um década depois da independência. O Meu Poeta terá sido iniciado em 1984 e foi publicado em 1990.

Em O Meu Poeta, o narrador, chamemos-lhe assim, é um escriba peregrino que atravessa todos os sujeitos textuais, à procura da forma certa de contar uma história. É preciso que se escreva a biografia dos “Melhores Filhos do Nosso Povo”, por encomenda, em sentido de homenagem; e cabe-lhe a vida e obra de um homem de quem ele é agregado e a quem ele presta serviços. A solicitação vem por parte de uma Editora Mulher, por quem nutre ou nutria algum afeto e algo mais. O leitor surpreende o sujeito da escrita, no momento em que ele suspende a pena, para começar a escritura, e, com isso, fazer comunicar o “espaço de dentro” com o “espaço de fora”, no dizer de Louis Hay:

A literatura começa com a escritura. Essa reconquista de uma origem é de grande consequência. Ela dá à obra um autor, ao ato de escritura um destino (que seja de fracasso ou de sucesso) e ao livro um nascimento. Ela faz comunicar o espaço do dentro com o espaço do fora; faz da criação e da obra uma única realidade, e abre caminho a uma crítica de inteligência e não de autoridade ou de pura empatia. Para que tal reflexão possa se desenvolver, é preciso ver com clareza o que diferencia o mundo do autor do mundo do leitor – e como o crítico pode ter as duas pontas nas mãos (Louis HAY, 2007, p.12).

A imagem das “duas pontas nas mãos” nos fascina como leitor, pela associação afetiva de se fazer a trança. Entre dois mundos, uma ponta em cada mão, vive também o leitor, seguindo as peripécias de O Meu Poeta. O livro, o texto em devir e a escritura dizem da história e do narrar de um ser afetado pelas pontas soltas. Há uma panóplia de desafios que lhe interrogam. Questões dele, o escriba, secretário, que também ensaia ser escritor; de permeio, faz de crítico literário, enquanto procura, com as ferramentas de um crítico textual que simula cumplicidade com o leitor, encontrar a melhor fórmula para a melhor obra da melhor vida do melhor filho da cidade.

Germano traz uma nova temática e a reinvenção da temática clássica. Novos diálogos, dissonantes entre si e em transplante para a reconfiguração de um estilo novo. Pois um Prémio Camões é um caminho que se constrói, antes de nele se navegar; mas, para Germano, resultou melhor ir navegando, enquanto tecia o seu próprio caminho. 

E o leitor, o sim da obra, aprovou-o. Desde sempre. 



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Comentários  

+1 # Tomé Varela 30-05-2018 10:41
Obrigado, Mana Guta, pela partilha desta reflexão interessante sobre o Germano Almeida, neste ensaio.
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