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Por: Mana Guta

O primeiro olhar

Atribuir o Prémio Camões do ano de 2018 a Germano Almeida foi um ato de justiça!

Sempre acreditei que não é possível nascer e sobreviver nessas rochas vazias e ser-se igual às outras pessoas de terras ricas em tudo e mais alguma coisa. Mas mais: amar estas pedras! Não desejar nenhum outro pedaço da terra porque daqui é que somos e aqui é que nos sentimos em casa. Esse sentimento de pertença não o temos em nenhuma outra parte do mundo e então podemos dizer como numa das canções da Maria Bethânia "que importa todo o mundo, se o mundo todo é aqui?”. (Germano Almeida, “Correspondência para MAETT”: Escrita em Mindelo, 30/09/2009)

Eu recebi a notícia do Prémio Camões com um “Até que enfim!” muito profundo e do tamanho da vitória que ele simboliza. Os Parabéns e Votos de Felicidades já foram apresentados ao Autor, pessoalmente, pois ele, mais do que todos nós, é o protagonista desta narrativa.

Sim, porque, não foi uma atribuição pontual, a um escritor cheio de sorte, nascido e criado até os seus mais de dois metros num país que está na moda. É o resultado de uma longa caminhada, que se fez uma caminhada longa! E na qual o caminhante se fez, sempre, junto com o caminho. Por isso, este texto pretende apontar, portanto, algumas razões pelas quais Germano Almeida merece ser laureado com o mais importante prémio literário em língua portuguesa. 

Na epígrafe, que é excerto de um testemunho que ele teve a generosidade de me enviar no âmbito do Mestrado em Letras, de Mindelo para o Rio de Janeiro, ele nos mostra, como se pode ver, as razões mais importantes da sua luta, através da pena: que tudo se resume, “… ao fim das contas, a um profundo amor por Cabo Verde”.

Num primeiro olhar, pode-se dizer que a abordagem à obra de Germano Almeida pode ser feita na perspectiva dos Estudos Culturais, em sentido restrito; da Crítica Textual, especialmente na necessidade de se fazer a história do livro; e da Sociologia Cultural, em sentido lato. Estas formam, a meu ver, um entrelaçamento único com que ele resume questões fundamentais da cultura cabo-verdiana: que incluem desde aspectos da Jurisprudência à História, do ensino de línguas à tradição oral e costumes locais, da política às relações familiares. 

Da Jurisprudência à Construção do Bilinguismo: tudo para Germano é um Fazer Literário!

Em 1983, é publicado o primeiro número da revista Ponto & Vírgulae é de lá que partiremos para dar a conhecer um pouco de Germano Almeida. Para além do trabalho de múltiplas facetas em Ponto & Vírgulae da publicação deO Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (1989), obra de importante significado para a literatura cabo-verdianaa imponência da sua escrita justifica-se pela quantidade, pela diversidade e pelas inovações propostas pelas obras. Na primeira fase em que escolhemos como corpus literário principal O meu Poeta, podem ser sintetizados aspectos respeitantes à literatura e identidade cabo-verdianas, na perspectiva de Estudos Culturais em diálogo com a Crítica Textual. Concretamente, a sua participação na Revista Ponto & Vírgula (1983-87), em nome próprio e sob dois pseudônimos e o significado de seus livros O Testamento do Sr. Napumocenoda Silva Araújo (1989) e O Meu Poeta (1990), poderão ser analisados sob dois pontos de vista: a primeira abordagem, que se preocupa sobretudo com as questões da cultura lato sensue com um foco em uma gênese literária que questiona o cânone até a independência; depois, já nos livros: a literatura e caboverdianidade, em que ambos trazem um revisitar às questões temáticas, desde o tempo da “Claridade” e a sistematização de uma problemática à volta do que  Louis HAY chamaria de escritura e que traz à baila conceitos como literatura, autoria e identidade cultural. 

Num breve resumo: pretendemos, neste primeiro mergulho, focar o principal da obra que mostra a diversidade temática que se relaciona com uma “certa” síntese da caboverdianidade. Anote-se a preferência do escritor de ser considerado “um contador de estórias”, apesar das duas dezenas de livros publicados. Ainda assim, de Ponto e Vírgula aos nossos dias, é da identidade do cabo-verdiano que trata a sua obra: uma cartografia identitária que contempla Barlavento e Sotavento, ricos, pobres e remediados,homens e mulheres… enfim toda uma nação sonhada, caldeada e em devir.

Em O Meu Poeta, livro eleito, para além das questões simbólicas à volta da identidade cabo-verdiana e das sócio-culturas regionais, acrescenta-se uma reflexão teórica profunda sobre os sujeitos e os pressupostos do fazer literário: os gêneros literários, a figura de um escritor, autor, leitor, editor, narração, sequências narrativas e suas relações com a temática, tipologia de edição… fazem, em alternantes tons de seriedade e ironia, a composição do livro. O narrador, personagem que desempenha a função de secretário do Poeta, tem como interlocutor(a) uma mulher, cuja função é de editora e a quem ele coloca suas conjecturas à volta dos textos literários do Poeta. Toda a escritura de O Meu Poetagira à volta de uma contextualização da obra do Poeta, pretexto para que fundamentos à volta das Teorias da Literatura sejam questionados, reformulados ou sejam objetos de (auto) crítica.

Outros textos de Germano como Os Dois Irmãos e Ilha Fantástica, pelas propostas inovadoras que trazem para a Academia, são também referidos como forma de ilustrar a riqueza temática, a representação de culturas regionais, o espaço da memória e as estratégias do narrar. 

Podemos dizer que, nestes quatro livros, temos um só Cabo Verde, pelo sentimento de pertença aos mesmos referenciais identitários, mas também quatro “cabo verdes” diferentes, pela especificidade de cada ilha-espaço. Assim ele pretendeu contribuir para um debate sobre a moderna literatura cabo-verdiana e a identidade da nação crioula. Tal estratégia, aqui delineada em quatro livros e textos de revistas, vai se aprofundando, com uma diversidade que não estratifica o conjunto da obra, mas que a reforça e aprofunda, ao longo dos mais de uma quinzena de livros que se lhes somam.

A Escrita Libertária de Germano Almeida

Tivesse Carlos[1] razão e nós os cabo-verdianos fôssemos realmente donos do tempo, e se numa das sete partidas do mundo o pudéssemos parar, então a tarefa de sintetizar a vida e obra de Germano Almeida seria uma tarefa árdua, mas possível. Ficará realmente por responder onde começa o escritor e termina o advogado e o que tem um contador de histórias a dizer ao diretor de revistas de letras e cultura, sócio de editora, ensaísta, cronista e defensor acérrimo de uma política de língua que favoreça o bilinguismo real. 

Germano Almeida é, certamente, uma referência para a cultura cabo-verdiana e tem uma postura crítica relativamente aos temas atuais - da política à cultura e que, acima de tudo, não tem a pretensão de ser o dono da verdade; apesar disso, não se coíbe de argumentar publicamente a favor dos interesses de Cabo Verde, manifestando-se, por exemplo, sempre a favor de um debate que repense o ensino da língua portuguesa e que promova a utilização do português em ambientes de informalidade, exortando sempre para a importância que esse veículo tem para os cabo-verdianos, como instrumento de crescimento pessoal e na esfera internacional. 

Escreveu muito sobre S. Vicente, sua ilha de acolhimento até hoje; mas não se consegue dissociar a figura de Germano Almeida da sua ilha da Boa Vista. Em sua vasta obra, viajamos pelas ilhas e pelos seus tipos sociais, aprendemos ou revisitamos referências culturais de cada uma, redescobrindo um Cabo Verde entre a esperança e o “desconseguir”. Há generosidade na sua escrita e, tanto na sua “figura” de Homem de Letras, quanto na sua “postura” de contador de histórias, somos banhados pela sua profunda ternura aos “dez grãozinhos de terra”. Lê-se Germano Almeida num tom coloquial cheio de detalhes de quem teve a sorte de conviver com imensas dunas de areia e teve a serenidade como personagem principal da sua região. Uma vida sem pressa, de gente simples e acolhedora, cujo código de honra só se conhece nesse pequeno paraíso no meio do Mar.

Seria em 1945 que Boa Vista via nascer Germano de Almeida. Como a maioria dos cabo-verdianos seus contemporâneos, Germano formou-se em Portugal, onde se licenciou em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Vive em Mindelo, ilha de S. Vicente, onde exerce advocacia e escreve. Pode-se dizer que o ano de 1983 teria sido o inaugurar da carreira desse Homem de Letras, cujos primeiros textos foram escritos na Boa Vista da sua adolescência, mas passa a ser conhecido, efetivamente, a partir do primeiro número da Revista Ponto & Vírgula, em 1983. Por quatro anos e numa época em que Cabo Verde vivia a experiência dos primeiros anos da independência, conquistada através de um longo processo revolucionário, Germano funda a Revista da qual ele é co-diretor e nela assume dois pseudônimos: Romualdo Cruz e Filinto Barros.

O processo de construção nacional encontrou na Revista uma voz tão independente quanto possível a um regime monopartidário e a um país de parcos recursos, um espaço de reflexão sobre a identidade de uma nação que virou país e que tem vários rostos, vários desafios e uma cultura potencialmente rica. É desta voz que se pode considerar ser Germano um intérprete e “ativista”, num estilo leve que, mesmo das desgraças nos faz rir. É assim que nos surge, na voz das personagens, na trama narrativa, na ligeireza do contar, paisagens e gentes tão peculiares que inauguram uma forma própria de linguagem que, “como se fosse uma trança”, dão Cabo Verde a conhecer.            

Ele rompeu o cânone e foi consagrado por isso

O Prémio Camões 2018 traz uma mensagem de valor incomensurável para a literatura cabo-verdiana e para a literatura universal. De forma consequente, um autor recusa o título de escritor e persiste em lutar, apesar do cânone, até ser consagrado por ele. Isto significa que o próprio cânone, quando necessário, se renega a si mesmo, para se reinventar, se a proposta inovadora é persistente e tem fundamento, e a postura do proponente passa a ser, nesse sentido, política – porque em nome de toda uma nação, toda uma forma de ser, que demanda novas formas de escrita.

Ao questionarmos o Autor sobre se o contador de estórias seria uma figura ou uma postura, ele responde-nos através de um documento que designou “Para a Augusta”, escrito em Mindelo, Setembro de 2009: 

Mais que uma “figura”, sempre vi “contador de estórias” como uma “postura”, isto é, para mim, escrever era estar na posição dos contadores de estória da minha infância à volta ou aos pés dos quais nos colocávamos para os ouvir falar horas infindas. Assim, quando escrevo, escrevo sempre para alguém, ainda que imaginário, uma pessoa a quem estou a contar uma estória. E então, eu escritor sou um contador de estórias que cria um narrador dentro da economia do livro. O narrador é ficção, o contador de estórias é G.A.

Mas claro que nem sempre é assim, num livro como por exemplo A ilha fantástica não escondo nem um bocadinho que a figura do narrador se confunde com a do contador de estórias, comigo, porque é a minha infância muito pouco ficcionada. Já na Família Trago, que é uma espécie de continuação da IF, porém já abertamente ficcionado, o narrador já é personagem diferente do autor-contador de estórias.

A questão é que não garanto ter feito absolutamente o mesmo em todos, mas de qualquer modo creio poder dizer que identificaria muito mais o contador de estórias com o autor do que com o narrador personagem… Será que me fiz entender? Espero! 

A Arte sai reforçada, quando o Árbitro Leitor é Escutado

A proposta deste item consiste em refletirmos sobre o lugar da fala que ocupou Germano, no percurso feito pela Literatura cabo-verdiana e pela Literatura mundial. Isto permitirá entender um Cabo Verde aberto a mudanças, mas que, seguindo os passos do Contador de Histórias, nos desafiou a uma literatura diferente para os novos tempos, que hoje se consagra. Mas – vale dizer também _ que esta literatura libertária há muito se concretizou, já que o Leitor deu o seu aval, de forma fiel e persistente, nestes 35 anos de escrita, e nas diversas línguas em que Germano é lido. 

Estamos orgulhosos porque a justiça foi feita, pela segunda vez com Cabo Verde, e primeira vez na ficção. Uma justiça com a Literatura universal e com o Leitor, juiz supremo. Pois se é o Autor que escreve e publica, é o Leitor que, final de contas, dá o sim final, para que um projeto de livro se transforme em obra. Então sim…

[1]Carlos é personagem de O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, o sobrinho, estranha o pragmatismo do Tio, de regresso dos E.UA. “Em Cabo Verde nós é que mandamos no tempo”, ele afrma.



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Comentários  

+2 # Olímpio Lopes Varela 22-05-2018 16:38
Forti MUDJER ki ta skrebe sabi.

SABI E SÁBI!
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