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Por: Mana Guta

No ano de 1972, ainda em Mindelo, um mulato bem-educado, natural da ilha de Santiago e com menos preconceitos machistas do que vontade de vencer na vida, aceita, de um oficial português, a proposta de emigrar para Lisboa, para trabalhar como cozinheiro.

Aos pais em Santiago e aos restantes membros da família, Inácio apenas mandou dizer que, em vez de regressar da tropa, iria emigrar para Lisboa, a convite de um patrão, que lhe garantira trabalho.

O Patrão gostava dele, achava-o inteligente, e queria ajudá-lo. Era o primeiro filho homem do casal e, após ele, já haviam nascido mais cinco irmãos (enfim duas meninas) e três rapazes. As chuvas escasseavam; as propriedades da família não produziam como antigamente e o futuro era incerto. Da independência muito se falava e pouco se sabia. Ninguém podia garantir que a situação seria melhor.

De São Vicente para a ilha do Sal. Daí para Lisboa. Ousou. Viajou. Então sim.

A conversa com Nache é bastante reveladora dos sucessos e desventuras. Indagado sobre seus processos de adaptação em contextos migratórios, ele começa por verbalizar seu estranhamento, referindo que “Não foi muito fácil, porque o único lugar que eu conhecia fora de Santiago era Morro Branco e a cidade de Mindelo, aonde os recrutas iam aos fins-de-semana, se estivéssemos de folga. Lisboa era muito diferente. Mas, por outro lado, tive muita sorte: como eu já conhecia o Patrão e o trabalho estava garantido, não tive problemas”.

Muitos acreditam ter havido um bom relacionamento entre africanose portugueses e que, quer no território nacional como na diáspora, aconteceu uma mestiçagem ímpar e um convívio salutar de raças e culturas entre os dois povos. Mas um olhar mais demorado deixa entender que, na décima primeira ilha de Cabo Verde[1],os condenados da terra[2]continuaram a sê-lo, mesmo depois da independência e mesmo depois de alcançar um certo sucesso profissional. As chagas se mantinham abertas. A violência típica da colonização _ estamos a falar do processo de colonização e não das pessoas que nela foram envolvidas _ encontra uma resistência, que se desdobra em risos como arma e ou uma auto-mutilação cultural… com sequelas que continuam, mesmo depois da independência,  e assumindo formas diversas. 

Questionado sobre processos discriminatórios, muito presentes no cotidiano dos migrantes, nosso personagem, com um sorriso enigmático e _ indecifrável com assumida redundância nossa – talvez por timidez? Ironia? Alguma lembrança triste? – devolve-nos a pergunta, “Racismo? Para, posteriormente, externalizar como vivenciou tratamentos discriminatórios: “Eu nem sabia o que era o racismo. Naquela época, um africano tinha de dar graças a Deus por ter trabalho. Hoje sinto que, simplesmente, continuei como um bom soldado que em tudo obedece e respeita o oficial. Mais nada. Esta questão não existia (…)eu era, de certa forma, feliz. Sentia-me privilegiado. Devido à minha profissão, conhecia muitas pessoas com alguma influência e é verdade que se diga que o meu antigo patrão era um homem de bom coração”.

À nossa insistência em saber o por quê da felicidade parcial, o nosso personagem, deixando antever alguma frustração, explica: “Se comigo estava tudo bem, já com meus familiares - nem por isso. Houve momentos em que eu ficava meses sem notícia; e chegou uma altura em que eu sonhava que toda a minha família tinha morrido. Depois acostumei-me. Um dia soube que poderia mandar buscar os meus irmãos e, aos pouquinhos, vieram todos. Só ficou lá a Quinta, porque casou-se…enfim”.

Nache considera, entretanto, ter vencido na vida e ainda reside em Portugal. Circulou por vários países lusófonos a trabalho, na busca “de melhores condições de vida”. Formou família, uma família bem mestiça e bem representativa da lusofonia, filhos de pai e mãe de países diferentes, que nasceram em outros países ainda mais diferentes, todos “lusófonos”, tendo regressado finalmente a Portugal. Teve sucesso, comparando-se com outros que não conseguiram transitar na escala social. Ainda assim, ao ser interpelado, considera e denuncia, com alguma vergonha de si mesmo, que tem “um português mal-falado”. 

- Considera-se um vitorioso? - Perguntamos – já que ele e toda a família, hoje, têm a tão sonhada nacionalidade portuguesa.

“ Eu sou um PRETOGUÊS às direitas.”  - Responde.

PRETO - GUÊS?! QUE VEM A SER ISSO?

Os governos representantes das nações pertencentes à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa escolheram este dia para celebrar e promover a Língua Portuguesa e a cultura dos assim chamados estados “lusófonos”. A data foi oficializada em 2009 e sobre ela vamos falar ao longo de diferentes textos desta série. Desta vez começamos a promover a língua portuguesa a partir de histórias de vida, da perspectiva do falante. O falante é quem faz a língua. Faz a língua acontecer, faz a língua viver. Faz a língua ser língua.Começamos com uma história de vida, entre várias outras, já que em Lisboa muitos cabo-verdianos se auto-proclamam “Sou um pretoguês”, com um misto de orgulho e algo não decifrável, mas com certeza não positivo. 

A aquisição da nacionalidade é uma via útil de terem os mesmos direitos, perante a lei, inclusivamente o direito de aumentarem o seu sucesso, por se lhes abrir, potencialmente, todas as fronteiras da comunidade europeia e facilitar o acesso aos países mais desenvolvidos, na condição de europeus. Mas a questão da língua não está bem resolvida no seu espírito.

O termo pretoguês é surpreendentemente forte. Por ser consensual às diversas faixas etárias de cabo-verdianos e seus descendentes, pode ser entendido como um sinal de resistência que é usado em contextos em que os cabo-verdianos, novos portugueses, deveriam se orgulhar da sua “sorte” ou de seu percurso; mas torna-se desconcertante, por sugerir a interpretação de que, aos cabo-verdianos, não é permitido sonhar seus próprios sonhos e vencer os obstáculos, reais e imaginários, por serem o quesão. E o QUE são, se não portugueses, já que ostentam um passaporte visível, palpável, cheirável? E por que são… o que são?

Bem, isso não sabemos nós. Mas que tem a ver com a língua, com a lusofonia e com o dia de hoje…isso tem. O acharem que lhes falta algo, que passa pela língua, levou-nos ao texto de hoje. Uma língua de que precisam, sua língua oficial, mas que acham não dominar o bastante. E, por isso, tal desdomíniocontribui para que sejam PRETO e não PORTU – gueses.

Assim sendo, como contar a história da identidade nacional, sendo a Língua Portuguesa (LP) a protagonista? Ela seria um veículo de transmissão, a memória, um dos elementos …parte da essência? Que papel teria e que estatuto teria a LP na construção da nossa identidade? 

A questão que se deve colocar, especialmente em Cabo Verde, é: o que é dominar uma língua? Que línguas dominamos? É ou não um ganho ter duas línguas? Existe conflito linguístico? Se existe uma “concorrência desleal”, como já se disse que existe, ela é feita efetivamente “contra” o Crioulo/cabo-verdiano? Ou será o contrário? Existe uma língua portuguesa DE CABO VERDE?

Existe, realmente, um português falado em Cabo Verde? Existe realmente um português falado por cabo-verdianos, aqui e lá fora? Porque a fala é que é irmã do fone, filha da fonia, essência da Luso-fonia!

 Por ocasião da celebração do “5 de maio - Dia Internacional da Língua Portuguesa”, deixe o falante falar e deixe a fonia lusar

 (Continua) 

 

[1]A décima primeira ilha é uma referência à diáspora cabo-verdiana, utilizada sobretudo por decisores políticos cabo-verdianos, em sua oratória.

[2]Alusão à obra homónima de Frantz Fanon.



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