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Por: Mana Guta

Disse o Velho Sábio, que um Mais Velho lá das outras bandas do mundo, assim chamado Pierre Bourdieu, lhe terá contado que, aliado ao suporte biológico, o nosso nome e sobrenome, veículos por excelência de identificação do indivíduo, vêm juntar-se e compor a objetivação da relação entre um corpo e um símbolo que o identifica - todo o aparato social de formação de uma identidade, ou de uma persona, “aqui entendida como máscara social”, que virá a se sedimentar sobre essa relação de tornar concreto um todo biográfico que, na realidade, não existe.

Esta cidade se chama mulher, porque de mãe ela tudo tem.

E esta cidade se chama amor… Porque, não tendo seu sangue, ela me escolheu. Não sendo seu filho, ela me acolheu. Não sendo muitas, ela tudo tem. Não sendo “ A Mais”, ela tudo faz.

A Praia de Santa Maria da Vitória tem, como todos os verdianos, um Nome Completo, um nome solteiro, um nome casado, o seu nominho, o nome de casa e a sua alcunha. Cada nome fala por si.

A Praia, como eu, é um ser feminino entre as pontas soltas. Pontas que quero eu juntar no escrever. Como fez o Poeta, como fez o Ministro, como fez o Cantor.

Que pontas pode a Praia juntar? Quem deixa e quem ajuda? Quem agencia o percurso, a trajetória? Quando me refiro ao “eu feminino entre as pontas soltas” não pretendo que seja um dado adquirido o fato de ser mulher e de pertencer a uma família, fazer parte e reportar uma história, como se estas informações fossem objetivas e determinantes. Não é uma postura política de carácter feminista no sentido comum (de que estou falando como mulher, à procura da igualdade com os homens); na verdade, mais pretendo não sufocar, perante o meu leitor, este autor que se permitiu uma escrita libertária; que não esconde um fazer discursivo diferente. E não tenho pejo em usar o vocábulo Autor, no masculino, pois não é de cosmética que se fazem caminhos. O eu feminino é mais um autor auto-permissivo, que não é o habitual nos textos idealizados como sendo os academicamente bem conseguidos. Declaro que reconheço, sei fazer e já fiz textos academicamente bem conseguidos e aceites como tal. Não é um sonho de consumo para mim. Foi uma etapa que era necessário cumprir, para que um dia pudesse me libertar. Mas também quando foi, não foi um sacrifício. Foi resultado das leituras que fiz, do exercício crítico ao qual fui levada pelos meus professores e da insistência dos meus pais e outros familiares que, desde muito cedo, do seu jeito, sempre cobraram uma “caligrafia bonita”, um português escrito sem erros, a concordância e uma série de requisitos que, a seu nível de entendimento, eram condições para se escrever “em bom português”.

Mas eram sempre homens. Homens que escreveram ensinando como se escrever. E eram lidos por outros homens que, assim, perpetuavam a sua espécie: a espécie dos homens escrevedores e dos seus seguidores leitores. Mesmo as professoras e poucas leitoras só conseguiam laborar no mundo pensado como um ente masculino.

Havia até um distinto senhor, o José Maria Relvas, cujo nome vinha escrito numa gramática com uma capa mil vezes remendada, e que já havia circulado pelas mãos de todos os homens da família com o 2º grau completo. “Da família”, traduzindo melhor, para os que nasceram depois de 1980, podia ser do bairro todo. Da Vila inteira. Da Cidade, se houvesse. Detalhe: as mulheres também faziam parte da conservação do património linguístico, no aspecto da costura, colagem e remendo da capa. E, por último, e não menos importante, elas sabiam sempre onde estava a distinta senhora gramática, mesmo as que não sabiam ler, porque entendiam que ali se traçavam certos caminhos pelos quais se deve percorrer até chegar lá aonde se tem que chegar.

Com isto quero crer que autores de textos dissertativos podem falar de lugares não habituais, de lugares incómodos e incomodativos, dando voz a pessoas com outras filosofias, que persistem, laborando, em formas diversas de concepção de mundo; este eu feminino quer assumir os riscos de que, com sua posição que poderá levar a estranhamento e desconforto de certos leitores, seja permitido não encobrir nem silenciar outras lógicas de pensamento, outros sentidos de pertença e outros protocolos de convivência. Quer no espaço- texto, quer no espaço-Praia… Agentes precisam-se.

Os textos que me saem dos dedos são os que se libertaram do eco que a academia e outros centros de poder (epistémicos, políticos, regulatórios de diversa ordem) costumam encorajar. Não que não cumpram o seu ritual, mas que não se vergam por causa do estilo tido como certo, decidido no lugar tido como referência, e por pessoas que ou não conhecem ou não respeitam a diversidade cultural cabo-verdiana (conceito que, confesso, não sei bem como definir com propriedade).

As pontas que estão soltas explicam parcialmente as referências que fui tendo como pessoa e como profissional que se pretende pesquisadora. A minha ligação sempre presente com diferentes mundos (mundo rural, mais urbano, mais africano, mais ocidental; …mais escrita padronizada, mais oral admirado-desejado-não assumido-mas-potencialmente explorável, mais, mais, mais …o desassossego que a minha “triste” curta vida não dará conta de resolver).

No mesmo texto Bourdieu afirma que podemos acompanhar as mudanças sucessivas pelas quais um agente social passa durante seu movimento na sociedade e que acabam por sedimentar um habitus relacionado à história do indivíduo. Para ele, “este inscrito, indelével e matriz geradora de práticas pode ser definido como: Habitus”. E este, por sua vez, é um sistema de “disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes.

Assim combinados, voltemos à Praia. O nome, o corpo, veículos por excelência de identificação do indivíduo, a relação entre um corpo e um símbolo que o identifica compoem o aparato social de formação de uma (id)entidade que é MULHER, é MÃE, é ACOLHEDORA. Então, de novo, e em alto e bom som: Bem-vindos à Praia, cidade mulher, de 160 anos!

Para você que me lê, a Praia, como fica? No grupo das mulheres que costuravam o José Maria Relvas ou no grupo dos que têm a escrita como arma? As pontas continuam soltas, à espera de agentes. Obrigada Bourdieu, obrigada, Ceia.

A Praia é mulher e eu amo esta cidade. Por Praia, presente!

Publicado no dia dos seus 160 anos.



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