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Por: Mana Guta

 

PARTE 1 - ANTES DO NUNCA

Tenta segurar com as mãos o sorriso do sol a ver se te queimas e depois vem ter comigo contar estrelas de ontem. Cobre o manto da lua com teu olhar. E então, se desconseguires, grita em peito zero as palavras que nunca me dirás. Se sofres, morro mil águas ao vento e se choras seca minha boca o esgar da ternura. Dores suor e mágoa. Passe a dor, cai a chuva, Cobre o manto. Que amanhã terás sono e dormirei por ti.

Pudera eu escrever poemas de amor que me enchem os olhos de lágrimas. Quisera eu te olhar nos olhos e te contar histórias que enchem mil páginas de dramas e amores que guardei para ti e que (finjo) são de mentira.

E você, habitante desta selva chamada mundo, que me lê, não pense em mim. Não tenho pretensões a escritora. Mas sou essencialmente uma vivente. Que persiste. Já fiz do muito um pouco nesta vida. Apenas pense por mim. Se escrevo é porque o Alfa virou Ómega e estamos perto do fim.

Mas há sempre a esperança. Mesmo quando não há nem uma esperança. Não se diga, depois, que eu não avisei. O lápis e o papel são a minha arma. Esta é a história de uma doente que tem a certeza de que milagres existem e que, no fundo e depois de tudo, a vida são conquistas e sobretudo memórias. Leia-me pois e me ajude a viver.

Terça-feira

Ninguém me ligou hoje, Ninguém me ligou ontem, ninguém me ligou desde Domingo – me parece. Só os que vivem aqui mesmo em Lisboa. - Cabo Verde?

Feia

O meu nome é Feia. Sou negra, africana, de Cabo Verde. Tenho um câncer a que, na verdade, eu deveria chamar de cancro. Mas eu considero que, nestas alturas da minha vida, depois de tantas proibições e de poucas alternativas, posso me dar ao luxo de mudar ao menos o nome da minha doença. Que seja assim: mais suave e mais suportável _ câncer! E com minúscula, por favor. Para reduzi-la à infinitude da sua pequenez…

Comecei a escrever as minhas memórias há já algum tempo. Mas parei. Contava regressar a Cabo verde, o mês passado, e parecia que o Tejo ia entrar pelo Oceano adentro e, junto com o Vulcão do Fogo, as Dunas da Boa Vista, o Grande Monte Cara e o Topo da Coroa, se faria uma festa rija que cobriria as ilhas de verde. Tudo se comporia, afinal; e as memórias, um dia, se eu merecesse, e havido que eu teria tempo suficiente para reparar os meus males e amar de novo a minha gente… um dia, meus filhos e meus netos fariam a minha memória. Memória bem-feita é escrita por outros. Homenagem em vida saberia bem; mas como é que eu tenho certeza disso? Não. Nem sei se, quando eu chegar, o Monte Pico Dantónia me irá receber, já que nem tenho mais as feições de ontem.

Avante! O tempo urge. Regresso hoje à escrita, pois me preparo para enfrentar a nova batalha da minha vida: a segunda fase e a mais forte da quimioterapia. E esta é a agenda atual do meu ser. Escrever e viver.

Lisboa, 11 de Julho de 2011

Hora: 23h24.

Agora dá para escrever um pouco.

A notícia me foi dada num momento em que as malas estavam quase prontas, para a viagem em Agosto. No quarto vazio, enchi alguns bidões com edredons, jogos de lençóis e colchas, conjunto de toalhas, louças em porcelana, serviços de jantar e faqueiros completos de inox.

Mãe de filhas e filhos sou eu, mas todas as mulheres de África sabem que quem se preocupa com as coisitas da casa são mais as mulheres que os homens. Fui comprando aos poucos as coisas mais importantes. Preparava-me para colocar no barco as encomendas – até artigos de higiene e limpeza, azeite doce do bom e bacalhau (já pensando no Natal) fui arranjando ao melhor preço.

Quando chegasse a Cabo Verde, as encomendas já teriam chegado antes de mim. A Casa eu mandei abrir com antecedência. Fosse limpa e arejada, pintada com cores neutras e arranjado o teto do quarto que me diziam andava a pingar por ocasião dazágua. Era preciso ir uma vez mais tentar receber o meu dinheiro do Totocaixa na família do Tindoli. O desorelhado desaparecera no mundo com os pertences dos outros, mas a família que pagasse. Fosse lá cobrada a dívida de novo. Não sou eu, que estou doente, que tenho que relevar uma coisa dessas. Pois sim: com esse dinheiro, fosse pintada a casa, e levantada a cerca do quintal, onde pretendo voltar a criar coelhos, agora que Deus olhou para mim e me devolveu a saúde.

E então fiz uma lista de afazeres para não esquecer nada aqui em Lisboa. E outra lista de afazeres para mandar para a terra para os meus filhos cuidarem.

Enquanto esperava ser atendida, fui acrescentando tarefas à lista, para adiantar e me entreter. Chamaram-me.

- Dona Maria… disse a Doutora. Ela era um anjo para mim. Até meu nome ela mudou: nem das Dores, nem Feia. Para quê esses nomes se eu tenho uma opção bem melhor? Seja D. Maria.

Ela deu uma série de explicações e entretantos e todavias do qual só compreendi uma frase:

- Vamos retomar a quimioterapia o mais rapidamente possível.

Marcou lá uma data. Agradeci e sai.

Cortina de fumaça

Há vida que pulsa numa multidão de vozes e estou no meio dela. Ou estou ou fui lançada, não depreendo. E ouço, em meio a tudo, a música. E as pessoas que circulam na cadência da música. Vejo a cor da poeira, e é uma poeira sem gosto. Não! Minto. Cheira a baunilha, a POEIRA.

Eu sou uma Cortina de fumaça que beija o nariz com cheiros à casa. E água. E rios. E azuis e o branco das nuvens.

E vem um sol grande e amarelo, e muitos tons amarelos em tecidos. Em edifícios e ruelas. Junto com ele, moças lindas pintadas. Muito. E saris de vivos azuis, verdes, vermelhos e de novo amarelo. Todos drapeados e bordados a ouro. Perfumes. Odores e corpos suados. Homens suados trabalham. Mulheres e seus cabelos longos, pretos, ondulados e finos. Belas em seus olhares.

Outro turbilhão de ruídos e gente que passa e atravessa e

chamam, e param, e falam comigo. Deve ser para eu comprar coisas.

A Cortina de fumaça agora é um vento. E a brisa é quente e cheira a pimento,

canela, cravo e gengibre.

ouço buzinas e estou a pé. Depois hortelã e eucalipto.

Procuro o Ganges. E encontro pequenas barracas de Varanasi que vendem pakora. Provo.

Have some malai kofta, madam: it is very good.

try masala dosa too. Pecado da gula.

Ainda a música e me levanto. É preciso o Ganges.

De novo o vento, mas não lhe sinto o cheiro. Nem me sufoca nem me alivia.

De novo a poeira e muito barulho, conversa. cheira-me a casa, e queijo quente. Mancarra, mel e canela. E café feito pela avó. E Chocolate - não importa de onde.

Transeuntes. Turistas, POEIRA e amarelo.

Seda e perfume.

E vejo uns olhos vestidos à ocidental e são cinco segundos que se desviaram de mim. Piscaram para o outro lado.

A música é muito alta, os camelos são muito grandes, elefantes, então, … enormes! E me pisam. E a poeira é muito densa e o homem é muito lindo.

Se calhar, lindo demais.

E o amarelo virou rosa. E tudo, assim, amanhã e ontem, é cinza…

E a vida que se vai…

Uns poucos dias e me internaram.

Feia?

- Feia, a senhora?

- Chamo-me assim, porque, na minha terra, quando se tem medo de mau olhado, os bebés afeiçoados são chamados desse nome, porque se acredita ficarem protegidos das feiticeiras.

- Ah é? Obrigado! _ Elas riram.

À minha direita, a cama do Alentejano brincalhão e engraçado que tinha sempre uma história para contar, vive em silêncio; e com as cortinas fechadas. Cerradas. A minha família, tão longe, deve ter desistido de tanto ligar. A reviravolta aconteceu tão rapidamente que, neste momento, eu sou a única pessoa consciente de tudo.

Rezo, Oro, Faço Preces. Resisto e Vivo.

Lutem sempre e não chorem por mim.

Rezem, Orem, Façam Preces. Resistam e Vivam.

CUIDEM-SE, SEM VERGONHA!

Aconchego e paz…

 

[i] Em memória de Clarice, Professora e Parteira. Dedicado a todas as mulheres-coragem do mundo inteiro que enfrentam situações difíceis e persistem, na luta diária, pela sua dignidade. O texto foi inspirado no diário de uma doente em fase terminal de cancro.



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