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Por: Natacha Magalhães

Comemora-se hoje o dia dos Heróis Nacionais. Ontem, durante uma atividade com crianças, perguntavam-nas sobre quem eram os nossos heróis. Primeiro nome, claro, Amílcar Cabral, em muitas bocas o único pronunciado. Umas poucas apontaram Pedro Pires, Jaime Mota e ouvi até Eugénio Tavares, com a argumentação de que um herói é-o de diversas formas. Como disse alguém, há os que pegaram em armas e combaterem o inimigo, libertando-nos do colonialista e tornando Cabo Verde numa Nação Independente; há os que não pegaram em armas, mas fizeram o combate de outras formas; e há igualmente aqueles que, não tendo pego nem em armas nem na caneta, deram igualmente um contributo assinalável na causa da Independência das ilhas, e que são também heróis e heroínas.

Heroínas. Eis uma palavra que raramente se ouve por cá. Atrevo-me a dizer que nunca mesmo. Fala-se dos heróis nacionais. De Cabral, de Domingos Ramos, de Jaime Mota, de Abílio Duarte, de Aristides Pereira, de José Leitão da Graça, de Manuel de Jesus Gomes (e mais um conjunto de homens cujos feitos são enaltecidos. Mas, e as mulheres? Onde estão essas mulheres cujo contributo foi igualmente importante para a luta da libertação?

A Historia sempre tendeu a invisibilizar as mulheres nos grandes feitos e nas grandes conquistas. No caso de Cabo Verde, não há exceções. Quando se fala de heróis nacionais, não se fala de uma única mulher. Não se ressalva o contributo que muitas delas deram para eu hoje sejamos nação livre e soberana. Não há uma criança que aponte, por exemplo, os nomes de Amelia Araujo, a “Maria Turra", como era conhecida entre os militares portugueses e que foi a voz da luta através da Rádio Libertação; ninguém fala de Paula Fortes, que trabalhou ao lado de Amílcar Cabral na montagem de programas de saúde ou de Dulce Almada Duarte cujo papel ao lado do marido, Abílio Duarte, foi de extrema relevância. E não o fazendo, comete-se uma tremenda injustiça para com estas mulheres e continuar-se-á a perpetuar a ideia de que a luta pela independência nacional teve apenas como protagonistas homens e que ser herói é apenas pegar em armas e lutar contra o inimigo e derrotá-lo.

 

Foram dezenas de mulheres que fizeram o combate. Mas hoje, particularmente, quero falar de uma, cujo papel foi de elevada importância para a luta pela causa maior da nossa nação: a independência. Pouco se diz dela. Chama-se Laurinda e na altura da luta vivia em Dakar.  Confesso que nunca tinha ouvido falar dela. Desconhecia-a por completo. Até ao dia em que li biografia “Aristides Pereira, Minha vida, Nossa Historia”, escrita pelo jornalista José Vicente Lopes. Pelas palavras do primeiro presidente de Cabo Verde, fiquei a saber que essa mulher foi uma grande e abnegada nacionalista que não hesitou correr grandes riscos, para ajudar os combatentes, na passagem destes pelo Senegal. Não sei se ainda vive. Mas sei que continua invisível.

Deixo-vos aqui uma passagem do livro, para conhecerem um pouco o papel e o contributo desta mulher que esse país nunca se lembrou e nunca reconheceu.

Ela foi, sim, o nosso socorro, principalmente no início dos tempos difíceis em que não dispúnhamos de meios. Chegávamos a Dakar, não tínhamos dinheiro para ir para um hotel, mesmo que fosse dos mais baratos, era na casa dela que nós ficávamos (…) para além disso, ela também ajudava na clandestinidade a gente que vivia no Senegal. E, quando surge a altura de passar as armas para o interior da Guine Bissau, coisa que não podíamos fazer através do Senegal, levávamos clandestinamente para Dakar. Ela as aguardava, metia-as nos tambores de carvão que utilizava no trabalho dela, de depois quando vinham os camaradas, ela dava-lhes e eles levavam".

(…) Mesmo assim ela correu os riscos todos com a máxima serenidade e consciência. É uma mulher de que Cabo verde se deve orgulhar, não só como alguém que soube educar os filhos, como também pela forma empenhada como abraçou a causa da independência. Infelizmente ninguém sabe disso, ela, como muitos outros, ficou no anonimato”. (In Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História, pp. 81 e 82)

Honra e gloria às nossas heroínas. Que o seu legado seja mostrado às novas e próximas gerações.



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Comentários  

+1 # Daniel Carvalho 20-01-2018 19:56
Bom reparo. Entretanto é bom ter em conta que há bem pouco tempo, quando se usava a palavra "Homem (s)" como substantivo, incluía tanto o género masculino como o feminino. Em relação aos Heróis era a mesma coisa.
Mas compreende-se, os tempos mudam, as sociedades mudam, pelo que as formas de abordagem devem mudar também. A chamada de atenção é oportuna, mas parece-me que o assunto é pacífico.
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