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Cabo Verde é um país de heróis. Mortos e vivos! Conhecidos e anónimos! Um país construído com muita luta, suor e sangue. Um país próspero, porque habitado por homens e mulheres que desafiaram, e desafiam, as adversidades naturais, as afrontas políticas e sociais, a infidelidade histórica, a pelintragem ecuménica.

Comemora-se, hoje, 5 de julho de 2019, 44 anos que Cabo Verde conquistou a sua independência. Este evento é, com a descoberta e o povoamento das ilhas, um dos maiores marcos históricos, sociais, culturais e políticos do processo de formatação desta nação crioula, vagando em pleno oceano atlântico, aqui na costa ocidental do continente africano.

A história da independência de Cabo Verde não é diferente da história de muitos outros países que um dia passaram pelo processo de colonização. Porque a colonização se afirma sobre os mesmos fundamentos em qualquer lado, e em qualquer contexto histórico, ou seja, um grupo de pessoas entra num determinado país ou região, desabitado ou não, para ocupar e explorar, introduzindo a sua influência e transferindo a sua cultura para os colonizados e vice-versa.

É um processo controverso, que deixa marcas profundas nos seres humanos e nos respetivos países. Os colonizados nunca aceitam a colonização, mesmo quando ficam em silêncio e demandam a história o obséquio de, a seu tempo e critérios, resolver os problemas, quando tal for possível, porque existem feridas cavadas no intimo do colonizado que jamais sararão. Feridas culturais. Feridas de identidade coletiva, mas também enquanto indivíduos unos e indivisíveis.

É verdade. O colonizado carrega as marcas da colonização por toda a vida. É um problema que as independências não têm conseguido resolver. E certamente jamais resolverão.

Em 1975 Cabo Verde afirmava-se enquanto estado independente. A nação, esta, já existia. Vem detrás. Aliás, Jorge Barbosa, o ilustríssimo poeta santiaguense, um dos mentores da Claridade, já havia registado este momento, no poema Prelúdio, concretamente nesta estrofe que aqui vai: “Quando o descobridor chegou/ e saltou da proa do escaler varado na praia/ enterrando/ o pé direito na areia molhada/ e se persignou/ receoso ainda e surpreso/ pensando n’El-Rei/ nessa hora então/ nessa hora inicial/ começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós.”

Segundo a história, o episódio cantado por Jorge Barbosa no Prelúdio, terá acontecido por voltas de 1460. Este povo, esta nação, terá nascido a partir dessa data.

Um povo que se recusou baixar os braços para ser chicoteado sem protestar, sem reclamar.

Com efeito, a história do país é rica em episódios que remarcam a firmeza do cabo-verdiano face aos intentos do poder colonial. Ao longo dos tempos, revoltas aconteceram, muitas protagonizadas por pessoas iletradas, mas portadoras de rara inteligência emocional e distinto senso de racionalidade.

No campo, na cidade, com as enxadas, com as penas, este país se fez digno, porque foi capaz de dar à luz a homens e mulheres que cedo souberam distinguir e separar o trigo do joio, a realidade da utopia, o apreço do desdém, a verdade da mentira.

Um povo que soube educar-se a si mesmo! E que hoje se empoderou para levantar a voz e falar. Porque ganhou palavra, ganhou liberdade, ganhou identidade, ganhou nome, ganhou poder. Frutos de séculos de sofrimentos, lutas e mortes.

É este país, é esta nação, é este povo, que hoje assiste, num misto de angustia e impotência, à tentativa de adulteração da sua história por parte de entidades que, pelos juramentos que um dia fizerem perante o país, deviam posicionar-se na linha de frente em defesa da causa nacional. Entidades investidas de poderes públicos para representar o estado, e que, com as suas acções, estão a negar esse mesmo estado, de forma descarada e humilhante.

Hoje é dia de mais um aniversário da independência nacional. Um dia do povo e que devia ser festejado pelo povo. Mas não! O povo é ignorado. Por isso não há festa.

É um descaso total, que afronta a autoestima da nação e conspurca o legado dos heróis nacionais, vivos e mortos, conhecidos e anónimos.

Isto pode ser grave! Pode ser indigno!

Porém, pode não ser tão grave, nem tão indigno quanto o que aconteceu a 10 de junho de 2019, dia de Portugal, quando as forças armadas de Cabo Verde foram marchar no coração do império, para comemorar o dia da metrópole, na presença das entidades públicas mais ilustres da República de Cabo Verde.

Este ato comemorativo do dia de Portugal, que se estendeu a São Vicente e Praia, foi um tiro na cabeça dos nossos heróis. Nesse dia, aconteceu mais um assassinato público dos heróis da independência nacional.     

A direção,



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Comentários  

0 # Silvério Marques 08-07-2019 15:41
Cabo Verde era desabitado em 1460. Quem o povoou foram os portugueses. Durante viveram aqui apenas os portugueses. Depois vieram os escravos de passagem. Depois aconteceram as fugas. O povo cabo verdiano fez - se séculos depois, e finalmente veio a Nação. Quando Amílcar Cabral nasceu a Nação cabo verdiana tinhas século. Quem desmente isso.
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0 # Pedro Barbosa 15-07-2019 00:28
kkkkk Que Nacao existiu antes de 5/7/75? Um territorio colonizado nunca foi Nacao. Juizo, please.
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+1 # Pedro Barbosa 05-07-2019 20:03
Parabens pela maneira como tratou um tema delicado mas oportuno.
Subscrevo-me, com todo o respeito, esse seu desabafo que ACREDITO eh a opiniao da maioria do nosso Povo agora "amordacado" por um grupo vil e vingativo.
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+1 # Fernando Silva 05-07-2019 09:48
Em q um alto dirigente da nação caboverdiana cantou o hino nacional português ao lado do presidente português Marcelo Rebelo de Sousa.
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-7 # José Maria Rosa 05-07-2019 08:35
Já agora, perguntem ao JMN quem assassinou Amílcar Cabral.
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+4 # Marilia Tavares 05-07-2019 08:09
Um texto de grande importância! Para o presente e para o futuro! Parabéns ao Santiago Magazine!
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