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Por: Armindo Tavares

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I CENA

Atrás de uma secretária, o Rei fala com o Calixto que está a sua frente.

REI – Prepara a carroça e vai deixar a negrinha na casa do campo. (Calixto começa a andar para se retirar) Diz-lhe para vir falar comigo. (Calixto sai e entra Kizy cheia de medo) O Calixto vai levar-te para a casa do campo e vais lá ficar até as minhas segundas ordens. Ninguém pode saber que estás grávida de um filho meu. A minha família e o meu povo não me perdoariam se soubessem que me envolvi e que tenho um filho com uma negrinha.

KIZY – Desculpe-me, senhor Rei.

REI – Não te irá faltar nada. O cocheiro levará a carroça cheia de mantimentos.

KIZY – Lá há hortas, há cabras bravas, tiro o leite e como com batatas fervidas.

REI – Ele irá levar todas as coisas que por lá não encontres: sal, arroz, banha, café, açúcar, petróleo, fósforos, etc.

KIZY – Muito obrigada, senhor Rei.

REI – Não digas nada à tua mãe. De vez em quando vou visitar-te. Podes sair. (Kizy vai à cozinha, abraça a mãe e chora. O Rei entra de repente) Por que estás a chorar? (Chama o Calixto) Cocheiro… (Calixto chega a correr) Leva a negrinha imediatamente.

Calixto agarra a Kizy.

XIPIROTA – Para onde quer mandar a minha menina, senhor Rei?

REI – Vai ser vendida. Já está aqui a mais. Dei-lhe comida até agora… que vá aventurar por outra porta.

Calixto arrasta a Kizy para a carroça e Xipirota desmaia.

II CENA

Gabinete do rei, nove meses depois de Calixto ter levado a Kizy.

REI – Prepara a carroça novamente e vai ver como é que a negrinha se encontra.

CALIXTO – Sim, senhor rei. Com licença.

Xipirota entra e põe uma travessa na mesa. O rei levanta, acerta as calças à cintura.

XIPIROTA – O senhor rei não vai tomar o pequeno-almoço?

REI – Agora não me apetece.

Xipirota sai e o rei sai a seguir.

III CENA

No gabinete do rei.

REI – Como é que a encontraste?

CALIXTO – Com um filho de uma semana.

REI – Um filho?!… Um rapaz?

CALIXTO – Sim, senhor rei. Um rapaz.

REI – Como é que ele é?

CALIXTO – Retrato da mãe. Negro, beiços grossos, olhos vermelhos, cabelo crespo. Bastante musculoso. Ainda é bebé, mas já tem umas batatas nos braços… que nem as do senhor rei.

REI – Chega, chega, chega… (entrega-lhe uma navalha de barba) Toma esta navalha, vai retirar-lhe o negrinho e matar num sítio distante.

CALIXTO – Sim, senhor rei.

REI [V. O.] – “Musculoso! … Batatas nos braços… para quando for grande, estarei velho, vem-me vingar!”

REI – Traz o sangue na navalha para eu certificar que o mataste.

Calixto sai e o rei fica vermelho de raiva.

IV CENA

Romana e Nhonhô Landim encontram uma criança abandonada num bosque.

NHONHÔ LANDIM – Romana, anda ver uma criança aqui sozinha.

ROMANA – Criança aqui?! (Vai a correr e apanha o menino) Coitadinho está cheio de fome… olha como é que abre a boca e chucha na língua!

NHONHÔ LANDIM – O que lhe vamos dar para comer? Não temos nada em casa, esses grãos de purga só os podemos vender na quarta-feira. Não temos dinheiro nem para comprar açúcar e fazer-lhe um chá.

ROMANA – Como a nossa burra pariu há uma semana… damos-lhe de mamar juntamente com o burrinho.

NHONHÔ LANDIM – Pois é. Vamos rápido, então.

Nhonhô tira o menino dos braços da Romana e põem-se a andar.

V CENA

Romana está com o menino ao colo e Nhonhô entra com leite numa caneca.

NHONHÔ LANDIM – Toma. Dá-lho.

ROMANA – Dá-me uma colher. (Dá o leite ao menino e fá-lo arrotar) Não sei por que há mães com coragem de abandonar um filho que saiu de dentro da sua barriga!

NHONHÔ LANDIM – Tanto desejávamos ter um filho quando éramos novos!…

ROMANA – E a esta criatura Deus lhe deu… ela atirou-o para a morte.

NHONHÔ LANDIM (apanha um saco) – Fica a cuidar dele, vou tentar vender esses grãos de purga, mesmo que baratos, compro alguma coisa para ele.

ROMANA – Compra só açúcar. Tenho aqui camoca. (Nhonhô sai e Romana brinca com o menino) Vou dar-te uma “banhoca” e faço-te “ou-ou”, meu querido.

VI CENA

No gabinete do rei.

REI – Prepara a carroça e leva-me até a negrinha.

CALIXTO – Hoje?

REI – AGORA MESMO.

CALIXTO – Sim, senhor rei.

Calixto dá meia volta e sai apressado.

VII CENA

No gabinete do rei, nove meses depois da sua última visita à Kizy.

REI – Prepara a carroça e vai ver como é que a negrinha está.

CALIXTO – Sim, senhor rei.

Calixto começa a andar para se retirar.

REI – Diz a Xipirota para vir ter comigo. (Calixto sai, pouco depois entra Xipirota) Faz almoço para seis homens que tenho na horta a trabalhar.

XIPIROTA – Sim, senhor rei.

REI – Vá, vai para cozinha.

XIPIROTA – Com licença.

VIII CENA

CALIXTO – Senhor rei, ela está com duas meninas recém-nascidas… lindíssimas!

REI – Ah, é! Duas meninas? Como são elas?

CALIXTO – Brancas de olhos azuis, cabelo loiro… são lindas, lindas, senhor rei.

REI – Agora está de noite, mas amanhã logo cedo, dou-te uma carta, vais buscá-las e leva-as para o colégio, onde irão ser educadas. Não digas nada a ninguém. Não precisam saber quem é a mãe delas.

CALIXTO – Sim, senhor rei.

REI – Pega na mãe delas… (dá-lhe a mesma navalha) leva-a no mesmo sítio onde mataste o negrinho e mata-a também. E traz-me a navalha encharcada de sangue como prova.

CALIXTO – Com certeza, senhor rei.

Calixto retira-se e o rei fica contente. Serve e bebe um cálice de Whisky.

IX CENA

No mesmo bosque, o mesmo casal resgata Kizy.

NHONHÔ LANDIM – Minha filha, o que estás a fazer aqui sozinha?

Kizy chora, Romana limpa-lhe as lágrimas com um pano.

ROMANA – Não chores. Estás perdida? Vieste aqui sozinha?

KIZY – Estou perdida, sim. Estou aqui há vários dias.

NHONHÔ LANDIM – Como vieste parar aqui?

KIZY – Não sei! Não sei como vim parar aqui.

NHONHÔ LANDIM – Vieste de onde?

KIZY – Fui vendida e fugi.

ROMANA – Fugiste para ires aonde?

KIZY – Não sei. Não conheço este lugar… não sei onde estou.

NHONHÔ LANDIM – Aqui é a zona dos Rebelados.

KIZY – Tenho fome! Não como há vários dias! Estou com muita fome.

ROMANA (tira um pedaço de cuscuz e uma garrafa de água de algibeira) – Come e pega a boca-do-estômago. (Para o marido) Levámo-la connosco?!

NHONHÔ LANDIM (para Kizy) – Queres ir ficar em nossa casa?

KIZY (com a boca cheia) – Quero.

ROMANA – Olha que somos pobres…

NHONHÔ LANDIM – Mas somos filhos de Deus. Um bocado para a boca não nos faltará.

KIZY – Muito obrigada.

ROMANA – Nós vivemos destes grãos de purga que apanhamos e vendemos.

KIZY – Apanho purga também convosco. Faço tudo o que vocês quiserem. (Continua a chorar) Sei fazer muita coisa.

ROMANA – Não chores, minha querida. Vais ficar bem em nossa casa.

NHONHÔ LANDIM – Somos três, contigo faremos quatro: eu, a minha mulher, um neto que a mãe morreu quando ele nascia, e tu. (Kizy tapa a mão na cara e chora ainda mais) Acalma-te. Vais fazer parte da nossa família.

ROMANA – O nosso neto vai ter, afinal, uma mãe que ele não conheceu.

KIZY (limpa as lágrimas) – Ele tem quantos anos?

ROMANA – Tem pouco mais de dois anos.

NHONHÔ LANDIM – Tu ainda não tens filho?

KIZY – Não.

ROMANA – Não vês que ela ainda é muito novinha?

NHONHÔ LANDIM – Vais ficar em nossa casa e tratamos-te como a nossa filha. Dizemos ao nosso neto que és a mãe dele. Assim ele não fica triste por saber que a mãe é morta.

KIZY – Obrigada.

X CENA

Romana prepara rapidamente uma caneca de café com camoca para Kizy. Depois traz uma panela com água quente e despeja num alguidar. Traz-lhe umas roupas.

ROMANA – Acaba de comer, vens tomar um banho, mudas de roupa e vais descansar um pouco lá na despensa.

KIZY – Muito obrigada.

Kizy acaba de comer, apanha o alguidar e vai tomar banho. Muda de roupa e senta-se num banco. Romana coloca-lhe ao pescoço uma cruz feita de tiras de carriço.

ROMANA – Esta cruz defende-te de todos os males deste mundo, de feiticeiras de língua e de maus olhares.

O menino surge a beira da Kizy e, meigamente, abraça-lhe as pernas.

KIZY (toma-o ao colo, emocionada) – Como é o nome dele?

ROMANA – Podes chamar-lhe “filho”.

NHONHÔ LANDIM – Nós não dizemos o nosso nome, minha filha.

ROMANA – À nossa Comunidade chamam-lhe Rebelado.

NHONHÔ LANDIM – Revoltamos contra os abusos dos parocos, (Párocos, padres) fomos perseguidos, presos, torturados e repatriados.

ROMANA – Nhonhô foi repatriado para o Fogo onde não conhecia ninguém.

NHONHÔ LANDIM – Vivi anos na Cova Figueira, graças à caridade das criaturas que me davam bocado de comida.

ROMANA – E antes o queriam mandar para o Sul Abaixo(São Tomé e Príncipe) para longe da família.

NHONHÔ LANDIM – Isto foi um paroco que propôs ao Governador.

ROMANA – Um nosso vizinho foi mandado também para a ilha do Fogo e deixou a mulher com uma filha de 17 dias. E essa filha foi batizada à força, na ausência e sem consentimento do pai.

NHONHÔ LANDIM – Fomos presos porque sabiam o nosso nome. Por isso deixamos de dizer como nos chamamos e refugiamos aqui, longe deles.

ROMANA – E um paroco apelidou-nos de Rebelados, o Governador assinou, assim passou a ser o nosso nome.

NHONHÔ LANDIM – Já não suportávamos as coisas que os parocos faziam, minha filha. Faziam coisas de Satanás. Coisas que Jesus Cristo não permitia.

ROMANA – Deixaram de vestir batina preta e passaram a usar a branca, porque a cor preta, segundo esses parocos, é cor do Diabo, dos escravos, das trevas, do pecado e do mal.

NHONHÔ LANDIM – Celebram casamento entre o homem e a mulher, enquanto Deus não deu poder ao homem de casar o outro.

ROMANA – Jesus Cristo não era casado, mas teve dois filhos.

NHONHÔ LANDIM – Zacarias ou Zaca, e Zebulú ou Luz da Fé.

ROMANA – A única coisa que Deus autorizou o homem a fazer é o crisma. Como não vamos à igreja, não crismamos nesses padriocas, fazemos o nosso filho “Cristão”, em casa, ao sétimo dia do nascimento, com oração e ladainha que aprendemos com os verdadeiros padres. Os padres antigos.

NHONHÔ LANDIM – Eles venderam a nossa bandeira à Rússia. Em 1910, o Pano Sagrado foi roubado e içado a bandeira do colonialismo.

ROMANA – Mas a nossa bandeira vai voltar outra vez. Há-de vir o dia em que o povo de Cristo, composto por 144 mil povos, lutará contra 666 mil do Zebulú. E o povo de Cristo, comandado por um dos nossos Evangelistas, vencerá o exército de Zebulú.

NHONHÔ LANDIM – E não falta muito tempo. E aí sim; vai haver revolução. Muitos dizem que houve revolução, mas não é verdade.

ROMANA – Não pode haver revolução sem sangue.

NHONHÔ LANDIM – Segundo o nosso Lunário Perpétuo, o sangue cobrirá os tacões dos sapatos. Os pretos vencerão os brancos e a escravatura acabará. Muita gente morrerá. (Levanta a cara e apercebe-se que Kizy está a sonambular) A rapariga está cansada, Romana. Deixa-a ir dormir um bocadinho.

KIZY (estremunhada) – Não… não se preocupem. Espero anoitecer.

ROMANA – Vou pôr uma esteira na despensa e vais descansar aí. Vais deitar tu e o teu menino.

KIZY – Então devo chamar de filho ao menino?

ROMANA – Podes chamar-lhe «filho» e ele chama-te «mãe». A mim chamas-me «mamãe» e ao meu marido «papai»; a ti chamamos «filha». O menino chama-me «vovó», e ao meu marido «vovô»; e nós chamamos-lhe «nosso neto».

NHONHÔ LANDIM – Como ela já faz parte da comunidade, pode saber o nosso nome. (Para Kizy) Não é para usá-lo lá fora. Para os outros, sobretudo autoridades, o nosso nome é «Rebelado do Nosso Senhor Jesus Cristo».

ROMANA – O meu nome é Romana.

NHONHÔ LANDIM – Eu sou Nhonhô Landim.

KIZY – E o menino?… como é o nome dele?

ROMANA – O menino… por ter amamentado na nossa burra, chamamos-lhe João da Burra.

KIZY – E o pai dele?

NHONHÔ LANDIM – O pai nunca quis saber. Arranjou outra mulher, daquelas que vão às sinagogas, casou-se e não quis ser mais Rebelado.

KIZY – Ele não deu-lhe o nome no registo?

NHONHÔ LANDIM – Nós não registamos os filhos, nem os batizamos. Cantámos umas rezas ao 7º dia do nascimento, numa cerimónia a que chamamos “Cristão”.

KIZY – Então os meninos não vão para escola?

NHONHÔ LANDIM – Não. Aprendem a ler e escrever em casa. Os mais velhos vão ensinando aos mais novos, de acordo com as nossas regras. Estudam apenas para aprender a ler Escritura Sagrada. E a filha sabe ler?

KIZY – Não senhor. Nunca fui à escola.

ROMANA – E tu, como te chamas?

KIZY – Kizy.

ROMANA – Nasceste cá ou vieste de Costa Abaixo?

KIZY – Nasci cá, no quintal de um branco onde a minha mãe é escrava. O patrão vendeu-me e nem me deixou despedir dela.

Chora magoada, Romana afaga-lhe o rosto.

ROMANA – Não chores. Um dia Deus há-de juntar-te à tua mãe.

NHONHÔ LANDIM – É verdade, Krizy. Lá em cima Deus recolherá os justos e, todos vão morar na harmonia. Irás reencontrar a tua mãe para sempre.

KIZY – Amém.

ROMANA – Agora vai-te deitar, vai descansar o corpo.

Kizy levanta e coloca o menino nos braços com muita ternura.

XI CENA

Kizy dá banho ao menino, derrete um pouco de vela, mistura com petróleo e DDT, põe-no sobre um banco e, com um alfinete tira-lhe pulguinha dos dedos.

ROMANA (entra) – O que estás a fazer, filha?

KIZY – Eh, mamãe! … o menino tinha tantos bichinhos nos dedos e piolhos na cabeça! Já lhe catei alguns piolhos, estou a tirar-lhe pulguinhas para depois curar-lhe com vela e gás.

ROMANA – Não faças isso, por amor de Deus, minha filha. Deixa os bichinhos em paz onde estão. Coitadinhos não têm panela. Deus que os pôs aí, é porque é aí que devem ficar, que devem comer.

KIZY (comprometida) – Desculpe, mamãe. Não sabia.

ROMANA – Não sabias… Deus te perdoará. Mas não faças mais. Os bichinhos também são viventes e criaturas de Deus.

XII CENA

Sete anos se passaram após as gémeas terem nascido.

XIPIROTA (com uma carta na mão) – Uma carta para o senhor rei.

REI – Põe em cima da mesa.

XIPIROTA – Posso trazer-lhe o almoço?

O rei guinda a cabeça e lê no subscrito. Apanha a carta, abre e lê em silêncio. Levanta a cara e vê que Xipirota está à espera da resposta.

REI – Podes ir embora.

XIPIROTA – O senhor rei não quer que lhe traga nada para comer?

REI – QUERO QUE SAIAS DA MINHA FRENTE, PRETA NOJENTA.

Xipirota sai apressada e leva a porta atrás de si. O rei volta a ler a carta em silêncio. Desorientado, mete a carta no envelope e o envelope no bolso do casaco e sai.



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