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Por: Armindo Tavares

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CCXIV CENA

Mana Vaz, Teresa e Amândio conversam-se. Mana Vaz está deitada numa catre a ler uma bíblia, Teresa a bordar uma flor, sentada no sofá ao lado do Amândio.

MANA VAZ – Com que então, o nosso amigo não nos pode, amanhã, fazer companhia a beber água do coco…

AMÂNDIO – Efetivamente, Sr.ª Mana Vaz, tenho piquete no hospital, e por isso…

TERESA – A mamã ainda acredita nele? O que ele decerto tem é por aí algum passatempo mais proveitoso e a que não deseja faltar…

AMÂNDIO – Juro-lhe, minha senhora…

TERESA – Não jura, não jura nada. Não quero contrariar-te os desejos.

MANA VAZ – Aí estás tu já despeitada com o Amândio. Não queres que ele cumpra com as suas obrigações?

TERESA – Deus me livre de tal, mamã? Mas, como desde que ele vem a nossa casa é o primeiro dia que quer faltar, sendo véspera de um feriado…

AMÂNDIO – O acaso assim dispôs as coisas. E tu bem sabes que tenho deveres a cumprir.

MANA VAZ – Não faça caso, Amândio. Esta minha filha tem exigências bem loucas; é uma cabeça de vento, que não pensa no que diz.

AMÂNDIO – Ela tem razão. De há muito é esta a primeira vez que fico preso em véspera de um feriado; contudo o mais que posso fazer é dar parte de doente, e assim ficará satisfeita a Teresa.

TERESA – Não quero que faças sacrifícios, nem dês faltas por nossa causa; se é verdade ter amanhã o tal piquete como lhe chamas, estás desculpado. Mas cuidado em não faltar a verdade, senão…

AMÂNDIO – Dou-te a minha palavra de honra, Teresa.

TERESA – Estou convencida; mas, em compensação, faça-nos hoje companhia, se é que não tem também algum caso de força maior que o impeça.

AMÂNDIO – Com todo o gosto; estou completamente livre, e nada me impeça de aceder a um convite que tanto me honra.

TERESA – Ora ainda bem.

MANA VAZ – Ao menos já que estás prestes a deixar-nos, é necessário que sejas mais assíduo nas tuas visitas à nossa casa.

AMÂNDIO – Daqui até lá, ainda faltam alguns meses, Sra. Mana Vaz. E mesmo quem sabe se depois de concluir os meus estudos eu deixarei de ver-vos?

Amândio troca com Teresa um olhar furtivo, acompanhado de um sorriso.

MANA VAZ – Então tencionas ficar a exercer a medicina aqui na Praia?

AMÂNDIO – Talvez… Veremos.

TERESA – Ora deixe-o falar, mamã. Verá como ele, logo que se forme, volta para casa de seus pais, desposa por lá alguma morgada rica e nunca mais se lembra de nós.

AMÂNDIO – És muito injusta, Teresa. Os laços de amizade que me prendem a vocês, as finezas que vos devo, jamais me farão ingrato. Quanto ao casamento com a tal morgada rica que imaginaste, creio que foi um gracejo…

TERESA – E há nisso alguma coisa de extraordinário ou impossível?

AMÂNDIO – Talvez …

TERESA – Pode saber-se porquê?

AMÂNDIO – Porque tenciono casar-me aqui na Praia.

MANA VAZ – Ah, sim?! Podes dizer-nos então quem é a feliz noiva?

AMÂNDIO – Permita-me, por enquanto o segredo.

MANA VAZ – Ao menos diz-nos se é rica, formosa, prendada.

AMÂNDIO – Nada mais posso responder-lhe Sra. Mana Vaz, a não ser que a amo.

MANA VAZ – E ela corresponde-te?

AMÂNDIO – Creio que sim.

MANA VAZ – Então não tens a certeza?

AMÂNDIO – Tenho-a muitas vezes ouvido jurar-me uma afeição eterna, mas, como o coração das mulheres é…

TERESA – Cala-te, não digas tolices. Uma mulher, quando jura o seu amor a um homem, creio que não pode mentir-lhe.

AMÂNDIO – As vezes…

MANA VAZ – Tens então muita razão de queixa, das que tens amado?

MÂNDIO – Nenhuma, porque também, até hoje só uma soube prender-me o coração.

MANA VAZ – E essa?

AMÂNDIO – Essa creio que me é constante.

MANA VAZ – É verdade, deixa-me ir prevenindo-te: no dia em que fizeres o teu ato grande espero que virás jantar connosco juntamente com teus pais. Falo-te com tempo para que não te comprometas com outras pessoas. Aceitas o convite, não é verdade?

AMÂNDIO – Com o maior prazer, minha senhora.

TERESA – E a mamã não o convida para o nosso passeio de domingo?

MANA VAZ – Tens razão, ia-me já isso esquecendo. No domingo tencionamos ir dar um passeio à Cidade Velha. Queres dar-nos o prazer da tua companhia?

AMÂNDIO – Claro que vou, sim, senhora.

MANA VAZ – O Amândio dá-me licença que me retire por alguns momentos?

AMÂNDIO – À vontade. (Mana Vaz sai, Amândio aproxima-se mais da Teresa) Que pensas daquelas palavras de tua mãe?

TERESA – Pois ainda te persuadias que ela de nada soubesse? Se as nossas relações datassem de um mês ou dois, então seria isso motivo de admiração, mas lembra-te que elas existem já há muitos anos.

AMÂNDIO – Tens razão; contudo parece-me que nunca demos motivo para que ela suspeitasse sequer do nosso segredo.

TERESA – Ora, que há no mundo que escape à sagacidade de uma mãe? E, além disso, crês que não nos tenhamos traído algumas vezes? Ainda não há muitos minutos que isso sucedeu.

AMÂNDIO – Por tua culpa decerto; vens sempre com semelhantes conversações na sua presença…

TERESA – Tão culpada sou, como tu és; mas deixemo-nos dessas coisas e vejamos o juízo que fizeste das palavras de minha mãe.

AMÁNDIO – Sabia que tua mãe me estimava muito, mas não tanto como me pude perceber.

TERESA – Minha mãe é uma santa. Tudo o que ela deseja é ver-me feliz, como se adivinhasse que ias casar comigo. (Amândio rouba-lhe um beijo) Tu, amanhã, na verdade, não vens cá passar a noite por causa das tuas ocupações, ou porque tens outra distração?

AMÂNDIO – Juro-te que não posso, pelos motivos que já te expus há pouco.

TERESA (sorri) – Está bem; não te esqueças de que sou ciumenta, e sou-o porque te amo muito… Às vezes persuado-me que tu já não me tens o amor de outro tempo…

AMÂNDIO – Enganas-te, meu anjo; juro-te que te quero muito, muitíssimo…

TERESA – Acredito-te, mas…

AMÂNDIO – Mas o quê?

TERESA – Nos primeiros dias em que vieste aqui, depois de regressares de casa de teus pais, notei em ti uma certa frieza e preocupação que me fizeram desconfiar bastante do teu amor.

AMÂNDIO – Efetivamente havia alguma coisa nessa época que me trazia o espírito abstraído e até esquecido das minhas mais caras afeições; hoje, porém, tudo passou, e creio que não tens a mínima razão de queixa de mim.

TERESA – E não me dizes que motivos eram esses que tanto te preocupavam?

AMÁNDIO – É um segredo que se me não permite revelar-te, e que eu espero respeitarás.

TERESA – O que eu só desejo é que me queiras muito e que o teu amor nunca afrouxe.

AMÂNDIO – É uma recomendação escusada, meu anjo, e seria preciso não ter alma para trair os protestos que te tenho feito.

TERESA – Assim o creio, Amândio. Mas o coração dos homens tem às vezes caprichos…

AMÂNDIO – Dos quais felizmente estou isento, crê. Foste a primeira mulher que eu conheci e a quem jurei um amor infindo, e o cumprimento dessa promessa jamais o quebrarei, ainda que para isso seja preciso fazer o maior dos sacrifícios.

TERESA – Tens razão. E em recompensa encontrarás em mim a mais dedicada das mulheres, o coração mais submisso, a alma que se despedaçaria por ti!…

MANA VAZ (entra e os meninos calam-se) – Então vamos a saber. Em que falaram durante a minha ausência? Vi-os tão animados quando entrei…

AMÂNDIO – Falávamos… (um tanto embaraçado) falávamos em coisas insignificantes… em teatros, nas últimas modas…

MANA VAZ – Peço perdão, meu caro amigo, mas o senhor não diz a verdade. Quando eu entrava, ainda cheguei a ouvir estas palavras, que a rosada boquinha da Teresa proferia com certo encanto: - «o coração mais submisso, a alma que se despedaçaria por ti!…» (Os meninos ficam atrapalhados) Então que foi isso? Engoliram a língua?

AMÂNDIO – Senhora Mana Vaz…

MANA VAZ – Ora vamos. Sejamos francos de uma vez para sempre. Que podem lucrar com o segredo com que tentam envolver as suas relações amorosas? Porventura não são mais sinceros comigo? Porventura não serei merecedora que me confiem os seus afetos e as suas atenções futuras?… Para que querem ocultar-me uma coisa que eu vejo todos os dias?

AMÂNDIO – Sr.ª Mana Vaz, nunca ousei revelar-lhe as relações íntimas que de há muito existem entre mim e a Teresa, porque temia não serem elas bem aceites por si. Receei também que uma tal declaração fosse interpretada como um abuso da amizade com que me honra e se persuadisse que havia intuitos menos puros nas minhas aspirações. São estes os únicos motivos por que tentei sempre ocultar-lhe os afetos das nossas almas, na certeza, porém, de que, mais tarde, lhos havia de declarar, procurando merecer por eles a realização dos nossos desejos. Como, porém, a senhora antecipou essa minha declaração, ouso agora confessar-lhe que efetivamente nos amamos de há muito e que o único fim a que aspiramos é a união santa das nossas almas.

MANA VAZ – E não me podia ter dito isso há mais tempo, Amândio? Desculpo-te, contudo, as tuas apreensões e, longe de as censurar, regozijo-me com elas e louvo-tas, porque por elas mostra a alma nobre e honrada que possuis.

AMÂNDIO – Senhora MANA VAZ…

MANA VAZ – Não me interrompas. Escuta-me por um pouco. (Pausa) Todo mundo sabe, que nós que somos mães, somos loucas pela felicidade das nossas filhas. Via de hora para hora os anos arrastar-me para o fim da vida e antevia os perigos de deixar a minha Teresa só no mundo, sem um parente nem um amigo, exposta às mil vicissitudes da existência. O Amândio é um excelente rapaz, bem comportado, de boas qualidades e filho de boa gente. Está em vésperas de obter uma posição nobre na sociedade, que o torne ainda mais reconhecido quando casar com a minha filha. Ora vamos: deixa esse acanhamento impróprio de um rapaz da tua idade e responda-me com toda a franqueza: Queres aceitar a mão de minha filha?

AMÂNDIO – Esta pergunta seria desnecessária, se a senhora estivesse a olhar dentro do meu coração.

MANA VAZ – Muito bem. E tu, Teresa?

TERESA – Eu, minha querida mamã, abstenho-me de responder. Amândio também falou por mim.

MANA VAZ (para Amândio) – Para quando destina o teu casamento? Creia que estou ansiosa por ele se realize.

AMÂNDIO – Suponho que o melhor é esperar pela minha formatura; faltam apenas alguns meses para que ela se conclua.

MANA VAZ – Pois, sim, convenho. E tua família acederá de bom grado a esta união?

AMÂNDIO – Decerto, Sr.ª Mana Vaz.

MANA VAZ – Quem sabe? Pode muito bem suceder que teu pai haja feito já alguns projetos a seu respeito.

AMÂNDIO – Meu pai não oporá o mais pequeno obstáculo ao meu casamento, minha senhora; preza também muito a minha felicidade, e estou até convencido que se há-de regozijar com este enlace.

MANA VAZ – Muito bem. Então havemos de preparar-lhe uma agradável surpresa: no dia do teu ato grande, como já te disse, virás jantar à nossa casa com a tua família, e por essa ocasião eu me encarrego de pedir o consentimento de teu pai, ao que ele não poderá deixar de anuir. No dia seguinte assinar-se-ão as escrituras, e no outro partiremos para Porto Santiago, onde se celebrarão os desposórios.

AMÂNDIO – E não julga mais conveniente se o nosso casamento se celebre aqui?… Talvez seja demasiado incómodo para a senhora.

TERESA – Oh! Não, não! Não é incómodo, não; eu pela minha parte até desejo voltar a Santiago, onde passei os primeiros anos da minha mocidade, e viver lá algum tempo. Tenho saudades daquelas pitorescas campinas, daquelas inocentes aldeãs, outrora minhas companheiras e tão minhas amigas; enfim, queria ainda gozar todos os encantos e atrativos daqueles sítios.

MANA VAZ – Tens razão, minha filha. A vida é ali mais bela e sossegada: além disso temos lá a nossa linda casa, levaremos daqui alguns criados e passaremos então dias de verdadeira felicidade.

TERESA – Olha, Amândio, tenciono viver na nossa herdade - SACOFIL – (Sociedade Anónima e Comercial, Santa Filomena [atual Justino Lopes]) em Lém Pereira, os momentos mais agradáveis da minha existência, e percorrer nessas belas aldeias, eu e tu: tu a visitares os teus doentes pobres, a confortá-los, a dares-lhes a vida, e eu e a minha mamã sempre a teu lado socorrendo também esses infelizes, provendo-os de tudo o que necessitarem, e recebendo em paga as suas bênçãos e orações.

AMÂNDIO – Oh! certamente, meu anjo!

TERESA dirige-se a ele e abraça-o.

MANA VAZ – Ora bravo, bravo! Aí está como eu gosto de vos ver: assim familiares, amorosos.

TERESA (afasta do Amândio) – Perdão, mamã, esqueci-me…

MANA VAZ – Perdão de quê, minha louquinha? Assim é que eu desejo ver-vos sempre. E de hoje por diante proíbo-vos de que na minha presença se tratem de outro modo; mas continuem com a conversação, porque me extasio em ouvi-vos.

AMÂNDIO parece distraído, absorto em si mesmo.

TERESA (volta a abraça-lo) – Parece-me que Amândio antes desejava viver na Praia.

AMÂNDIO (como se despertasse de um sonho) – Oh! não, por maneira nenhuma… Desejo também voltar para a minha freguesia e viver lá eternamente. A vida ali deve ser efetivamente mais sossegada, mais encantadora, principalmente para dois corações que se amam… Não é assim, Teresa?

Involuntariamente descolam-se um do outro.

MANA VAZ – Então que é isso? Já se esqueceram de que é que estão proibidos? Continuem a tratar-se com a mesma delicadeza e cerimónia?

AMÂNDIO – Perdão, Sra. Mana Vaz, eu não me atrevia…

TERESA – Ele tem razão, mamã. (Sorrindo-se) Quer que num momento percamos assim o pejo? Mas não se preocupe; eu encarrego-me de fazê-lo obedecer-lhe. Quer ver?… Amândio, olha para mim… tu és meu amigo?

AMÂNDIO – Tu és um anjo, Teresa…

Mergulham-se no peito um do outro, Mana Vaz sai, rindo-se.



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