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Por: Armindo Tavares

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CCVI CENA

Nha Domingas e Nha Segunda, com suas enxadas ao ombro, vão tagarelando na vida de Rosalina.

NHA DOMINGAS – Dizem que Rosalina está noiva do filho de Sr. Morgado!

NHA SEGUNDA – Chegou ao que queria!

NHA DOMINGAS – Os moços da lavoura já não lhe serviam!

NHA SEGUNDA – Porém, deve estar satisfeita: filho de um morgado rico…

NHA DOMINGAS – E além disso, dentro em breve… Sr. Dr. Cirurgião!

NHA SEGUNDA – Não era coisa para desprezar.

NHA DOMINGAS – Coitada! Está bem servida!

NHA SEGUNDA – Persuade-se talvez que filho do Sr. Morgado a quer para alguma coisa!

NHA DOMINGAS – E a delambida anda já tão emproada, que não dá palavra a ninguém!

NHA SEGUNDA – Parece até fugir da gente!

NHA DOMINGAS – Como se fosse ela a filha de gente rica!

NHA SEGUNDA – O filho de Sr. Morgado há-de casar com ela, quando o mundo se acabar, ou quando a igreja desabar.

NHA DOMINGAS – Nem que o Amândio fosse tolo. (Cruzam-se com Nha Quinta, Natércia e Nha Sábado) A onde é que vocês vão, que estão assim tão formosas?

NHA QUINTA – Vamos confessar.

NATÉRCIA – Senão, o Sr. Padre Gil não nos dará hóstia ao domingo.

NHA SEGUNDA – Por acaso há algum tempo que não confesso. Vou ver se o faço pela semana que vem.

NHA DOMINGAS – Eu confessei na Quinta-feira passada. Ainda não tenho pecados que justifiquem voltar a confessar-me.

NHA SÁBADO – E vocês… devem estar a ir à roça!…

NHA SEGUNDA – Vou juntar as mãos com Nha Domingas.

NHA DOMINGAS – Já marquei a sementeira… entretanto o lugar está cheio de caiumbra e espinho-cachupa.

NATÉRCIA – Eu também tenho sementeira marcada, mas já fiz a roça. No meu campo tinha mais: Djedjé, Maranganha, Corda-Lopes e o Costa-branco.

NHA DOMINGAS – Amigas, ouviram que Rosalina de Simoa está a namorar com o filho do Sr. Morgado?

NHA SÁBADO – E, segundo asseveram, anda doidinha pelo moço.

NHA QUINTA – Não digo nada, para não pensarem que tenho inveja. Mas aquela amizade não pode ter bom fim. O filho do Sr. Morgado é rico, e dentro em pouco terá uma linda posição…

NATÉRCIA – Pode ser que a rapariga lhe calhasse e que venha a casar com ela. Mas duvido muito.

NHA QUINTA – Deus ampara aquela boa rapariga e a livre de alguma desgraça.

NHA SEGUNDA – Aquilo é mocidade. Deixem-nos divertir.

NHA DOMINGAS – O morgadinho enquanto por aqui anda, quer passar o tempo.

NHA SÁBADO – E já faz muito bem. Ela é nova e solteira, e por isso está no seu direito de dar a trela a quem ela quiser.

NHA QUINTA – Daqui há dois dias eles aborrecem-se ou zangam-se por dá cá aquela palha, e cada um trata de procurar outro norte.

Riem-se às gargalhadas.

CCVII CENA

Em casa do Morgado.

NHANHA – Noticiam por aí que Rosalina namora o nosso Amândio.

MORGADO – Deixem-no divertir-se; está no seu tempo.

NHANHA – Assim é que dizes?

MORGADO – Nós também quando tínhamos a mesma idade, fazíamos outro tanto; ao menos o demo do rapaz não teve mau gosto; a rapariga não é rica, não, mas também é a melhoria destes arredores.

NHANHA – Só espero que não venha fazer troça da pobre menina. Ela não tem mãe nem pai, mas tem uma santa avó.

MORGADO – Isto é verdade. (Entra o Amândio) Anda cá, maroto; é verdade que namoras a Rosalina de Simoa?

AMÂNDIO – Não o nego, meu pai. Mas a que vem essa pergunta?

MORGADO – É porque se fala muito nisso por cá. Todos juram de pés juntos, que só a queres para troçares dela.

AMÂNDIO – Falam por malícia.

MORGADO – Olha: deixa em paz a pobre rapariga e tapa assim a boca a essas línguas danadas.

AMÂNDIO – Mas eu é que não tenho nada, absolutamente com o que dizem.

MORGADO – Eu sei bem o que são rapazes, e muito melhor sei o que tu és; deixa lá a rapariga sossegada.

AMÂNDIO – Perdoe, meu pai, mas não acho bonito abandonar uma rapariga sem ter para isso o mais pequeno motivo.

MORGADO – Faz o que quiseres. Só espero que não me venha a dar desgostos.

AMÂNDIO – Sossegue, meu pai. Não há-de ter de que se queixar.

Sai.

NHANHA – Rapazinho está mesmo apaixonado, Morgado.

MORGADO – Deus o acompanhe. Deixa-o divertir.

NHANHA – E deixa-me levantar e ir ver se já retiraram a roupa do estendedouro.

MORGADO – Eu também vou ver se os animais têm pastos que cheguem.

Levantam-se e saem.

CCVIII CENA

Depois do jantar, enquanto Simoa arruma a loiça.

SIMOA – Minha filha, será verdade o que por aí se diz a teu respeito?

ROSALINA – O quê, vovó?

SIMOA – Que namoras o filho do Sr. Morgado. É verdade?

ROSALINA (atrapalhada) – É verdade, minha avó; persuadia-me que já o sabia.

SIMOA – Sabia-o, é verdade, mas queria ter a certeza. Diz-me: é certo também que o amas muito? (Ela fica em lágrimas. Simoa chora também) Minha filha, as tuas lágrimas dizem tudo. Já sabia há muito dessas relações, mas nunca julgara que pudessem tomar tanto vulto, nem dessem tanto que falar e criticar aqui na zona. (Rosalina soluça e a avó afaga-lhe o rosto) Sê forte. Eu acho que deves terminar estas relações antes que seja tarde demais.

ROSALINA (depois de matutar) – Farei tudo quanto puder para não desgostar minha avó.

SIMOA – Deus te oiça, e decerto, testemunhará esta tua promessa.

Segura-lhe na mão e saem.

CCIX CENA

Debruçada à janela, triste, Rosalina vê Amândio aproximar-se.

ROSALINA (baixinho) – Vai esperar por mim debaixo das árvores, ao pé do tapume, daqui a nada vou lá ter. Não pares aqui nem um segundo.

AMÂNDIO – Mas… (Rosalina sai apressada) Porquê que Rosalina está assim comigo?!

Vai esperá-la onde combinaram.

CCX CENA

Amândio encosta a espingarda numa árvore e senta-se em cima de um tronco. Sente uns passos, levanta a cabeça e olha Benvindo a passar com uma enxada ao ombro, olhando tristemente para o chão. Fingem-se que não se viram. Benvindo vai esconder-se entre matagal e espreita.

AMÂNDIO (monólogo interior)«Pobre rapaz!… Tenho pena dele! … E ainda há quem diga que o coração do homem não seja capaz de uma grande paixão!… Engano! E a prova é esse pobre diabo, para quem parece ter morrido toda a alegria desta vida, pelo simples facto de Rosalina o ter repudiado. Coitado! Mas afinal o que lhe hei-de fazer? Ceder-lhe o meu lugar e abandonar-lhe essa rapariga, por quem ando louco de amores? Isso nunca! Que sofra com paciência, que arraste como puder a cruz que tanto lhe pesa, ou então … que se deixe de ser tolo». (Sente passos novamente, levanta o rosto e vê Rosalina aproximar-se. Ela abraça-o e chora) Rosalina, anjo da minha vida, que querem dizer essas lágrimas? Quais são os motivos de tantas angústias? Responde-me, conta-me tudo, e não me faças morrer de impaciência. (Rosalina tenta falar mas a voz não lhe sai. Amândio enxuga-lhe as lágrimas do rosto) Vamos, minha querida, não chores mais… sossega e senta-te aqui.

ROSALINA (limpa as lágrima) – Amândio, é preciso separarmo-nos: sou forcada a deixá-lo.

AMÂNDIO (segura-a numa mão) – O que disseste, Rosalina?… que és forçada a deixar-me?!…

ROSALINA – Sim, Sr. Amândio; nunca mais poderemos ver-nos.

AMÂNDIO – E quem no-lo impede? Oh, não, não, parece-me que nem a morte poderá desunir-nos!… Mas diz-me: que motivo tão imperioso te força a separar-te de mim?

ROSALINA – Eu lhe conto: Como o Sr. Amândio talvez não ignore, as nossas relações têm dado bastante que dizer na aldeia; não há grande nem pequeno que não se tenha entretido a falar do nosso amor com mais ou menos malevolência. E todos prognosticam uma série de infelicidades e desgraças no meu futuro. Minha avó, a quem por fim não foram estranhos esses ditos, pediu-me hoje, com lágrimas nos olhos, que o deixasse, mostrando-me a inconveniência destas relações aos olhos do mundo, pela distância que nos separa um do outro e pela impossibilidade, talvez, de podermos ser um do outro.

AMÂNDIO (levanta-se e cruza os braços ao peito) – Estou admirado do teu procedimento, Rosalina: dizias amar-me, juraste-me esse amor, por fim, escarneces dos sentimentos mais puros do meu coração, traindo todas essas promessas! Eis como são as mulheres: só amam quando não há sacrifícios a fazer. Havendo-os, o amor evapora-se!

ROSALINA (desfeita em pranto) – Por piedade, não diga isso, Sr. Amândio; não duvide do amor que lhe jurei!

AMÂNDIO – Não duvido do teu amor, quando acabas de me dar a prova mais convincente de que nunca me tiveste a mais leve afeição!…

OSALINA – Amândio!…

AMÂNDIO – São escusadas mais explicações. E o melhor é terminarmos isto por uma vez; deixo-te livre, podes retirar-te! De hoje para o futuro suponha que nunca me conheceste; seja feliz com as tuas novas conquistas, mas o que te aconselho é que nunca enganes ninguém como me enganaste a mim! Adeus!

Dá alguns passos para se retirar, Rosalina levanta-se impetuosamente, agarra-lhe aos braços desesperada.

ROSALINA – Por compaixão, Sr. Amândio, não me deixe assim; ouça-me primeiro e julgue-me depois.

AMÂNDIO – Pois bem: fale. 

ROSALINA – O Sr. Amândio diz que eu não o amo, que nunca o amei!… Oh, não, mil vezes não; juro-lhe pela salvação da minha alma, por tudo quanto há de mais sagrado, que ainda não deixei sequer, um momento, de lhe consagrar toda a minha existência, todos os afetos da minha alma. É verdade que prometi a minha avó deixá-lo, mas sabe se eu teria forças para cumprir tal promessa? Ah, Sr. Amândio, muito mal me julgou!… Diga: não haverá um meio qualquer de continuarmos estas relações sem darmos motivo a que se fale delas, ocultando-as aos olhos de toda essa gente e até aos da minha própria avó? Ordene, diga o que é preciso fazer, que estou pronta a obedecer-lhe como uma escrava.

AMÂNDIO (volta a aproximar-se dela, segura na mão e beija-a na testa) – Ora vamos, minha querida Rosalina, fui na verdade bastante precipitado em te julgar; mas que queres? Quando se ama como eu te amo e se chega a duvidar por um momento do amor daquela a quem devotamos a nossa felicidade, o nosso futuro até, não podemos reter no coração o despeito que isso nos causa e dizemos quanto nos vem a cabeça; porém, tu perdoas-me, não é assim?

ROSALINA – Se lhe perdoo!

AMÂNDIO – Muito bem. Agora sentemo-nos outra vez e discorramos sossegadamente sobre os meios que devemos empregar para fazer persuadir essa caterva de imbecis de que terminaram as nossas relações. Não é isto o que pretendes?

ROSALINA – É; sobretudo o que eu desejava era não desgostar a minha avó; ela está tão velha e gosta tanto de mim que, dar-lhe qualquer desgosto seria o fim dela.

AMÂNDIO – E já te lembras de algum meio?

ROSALINA – Não, por enquanto.

AMÂNDIO (pausa) – Rosalina, tu disseste amar-me, não é assim?

ROSALINA – Jurei-lho.

AMÂNDIO – E por este amor serás capaz de fazer um sacrifício?

ROSALINA – Obedecer-lhe-ei em tudo como uma escrava, já lho disse.

AMÂNDIO – Bem. Ora responde-me: o extremo do teu quintal dá para um baldio que tem entrada pelo caminho do chafariz, não é verdade?

ROSALINA – É.

AMÂNDIO – O muro que separa o teu quintal do baldio é apenas da altura de um homem, se tanto.

ROSALINA – Do lado direito, junto à espinheira grande, é ainda mais baixo.

AMÂNDIO – Melhor ainda. Pois é aí, no teu quintal, que poderemos falar todas as noites, sem ninguém o saber.

ROSALINA – No quintal?!…

AMÂNDIO – Sim. Ouve o meu plano: de hoje para o futuro o nosso amor terminou aparentemente, isto é, eu deixarei de passar à tua porta e, ainda que nos encontremos, não nos dirigiremos uma só palavra, nem sequer um olhar, de modo que toda a gente se persuada que efetivamente as nossas relações terminaram. Todas as noites, porém, por volta da uma hora entrarei no baldio e saltarei daí ao teu quintal, e, a um sinal convencionado - um assobio que imitará o canto de uma ave, por exemplo - tu agasalhar-te-ás, abrirás a porta do teu quarto com toda a cautela e dirigir-te-ás para junto da espinheira, do fundo do quintal, onde me deves encontrar. Creio ser este o único meio e o mais seguro de que podemos lançar mão. (Rosalina não responde) Então não respondes? Acaso recusarás?

ROSALINA – Oh, não, não; nada recusarei, porque prometi obedecer-lhe.

AMÂNDIO – Obrigado, meu anjo.

ROSALINA – Mas, se alguém vem a saber…

AMÂNDIO – Pensas que eu não procederei com toda a prudência?

ROSALINA – Pois bem: entrego-me nas suas mãos, Sr. Amândio; quero dar-lhe todas as provas de que o amo como nenhuma outra o amaria.

AMÂNDIO – Obrigado, Rosalina, pela tua dedicação. Amanhã, pois, principiaremos as nossas novas entrevistas. Agora vai para casa, porque já te demoraste bastante e pode tua avó dar pela tua ausência.

ROSALINA – Tem razão, Sr. Amândio, retiro-me. Adeus, até amanhã. Muito cuidado e segredo é o que lhe peço.

AMÂNDIO – São desnecessárias essas recomendações, amor. A uma hora, não te esqueças.

Amândio vai por um lado e Rosalina por outro. Benvindo sai do esconderijo.

BENVINDO [V. O.] – “Desgraçada! Como se deixa arrastar para o inferno da desventura! Insensatos! Julgaram que ninguém os ouvia, como se não houvesse no mundo um ente que vigiasse noite e dia os seus passos! Oh! Continuarei agora a velar mais do que nunca.



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Comentários  

0 # Gerson Correia 06-07-2019 16:13
Uma belo Romance. Embora não o tenha acabado de ler, este faz me lembrar muito" Romeo and Juliet" Gostaria de saber se o Livro ja está disponivel para venda.
Responder
0 # Armindo Tavares 07-07-2019 20:50
Amigo Gerson antes de mais, muito obrigado pela tua apreciação. Esses textos que venho a publicar há um ano e tal, emanam de uma Telenovela que organizei a partir das minhas cento e tal peças de teatro que tenho já produzidas.
Mas tenho alguns livros no mercado. Sou autor de 11 livros, embora muitos estão esgotados
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