Pub
Por: Redação

O Projeto Mano a Mano, em nova edição amanhã dia 29 de junho, é uma autêntica Lição de Casa. Quer no sentido pedagógico, quer no sentido simbólico, o Projeto nos mostra como a família é o melhor lugar onde se pratica a arte da tolerância, da ancestralidade, da inclusão e do amor.

PrincipekuMano 

No caso em concreto, os conhecidos irmãos Princezito e Mário Lúcio Sousa assumem seu vínculo e sua relação familiar como uma metáfora que inspira um tema artístico que se transforma em Projeto, para gerar ainda mais afetos, mais arte e cada vez maior autonomia na forma de ser de cada um deles. As potenciais rivalidades que teriam que existir em decorrência da “personalidade” de cada um são transformadas em alimento para mais arte, mais riso dos que assistem ao espetáculo e mais afeto entre todos os presentes.

No método da observação de campo e treinando a observação participante, relata-se a seguir o espetáculo fundante do Projeto “Mano a Mano” e o seu impacto nas pessoas envolvidas no dia da graça de 23 de dezembro de 2016, na cidade da Praia, ilha de Santiago.

O lançamento do Projeto “Mano a Mano”, com início às 22h00, no Auditório Nacional Jorge Barbosa teve o tema, as razões e o repertório do show anunciados anteriormente, numa Conferência de Imprensa dada no Quintal da Música, lugar por si só muito significativo para os Manos.

Os Dois Irmãos do Tarrafal são um contraste ao imaginário coletivo que nos reporta aos dois irmãos da literatura. Eles são comunicativos, sorridentes, primam pela Paz e a Liberdade; e dizem, com todos os dentes que têm na boca, que o que interessa mesmo é o amor e a arte, escrito assim no singular, já que o artista deve ser um pacífico e um promotor de afetos. E nem vale a pena conjugar o verbo no plural, já que um homem sem amor não seria capaz de compor. Assim sendo amor e arte é uma coisa só.

O campo e os contrastes

Ao chegar ao Auditório, não sabia bem o que procurava, para além do que estava previsto. Sabia que deveria ficar ciente nas surpresas e criatividade artísticas que aconteceriam. Havia uma curiosidade normal de descobrir, por mim mesmo, por que razão os dois queriam fazer um projeto “Konsertu” conjunto. Havia as explicações antecipadas, mas eu queria seguir o percurso do show, para além das palavras que os manos anteciparam. Também queria observar a relação entre os SOUSAS, outros irmãos e primos e familiares, e entre eles e o público. É claro que o próprio deleite pela música de ambos, pelo prazer estético, eram um bom motivo para a minha presença lá. Mas também era interessante demonstrar o envolvimento de ambos com a pesquisa, a intelectualidade: o humor tímido com cheiro à erudição de Mário Lúcio, perante o desconcertante perfil sempre brincalhão do Princezito, não menos sofisticado… E de como seria o contraste…se houvesse. E houve: um fazia mais o papel do politicamente correto, o responsável pelos resultados, enquanto o outro se deleitava em ser bem-humorado, muito criativo com as palavras e estava “de improviso” a todo o tempo (como aliás se faz no Finason). Para além de tudo isso, a altura era propícia para se resgatar os valores da fraternidade, da Paz, da união, da família… temas que eram a linguagem apelativa do show. Era Natal!

Que pessoas, públicos, estariam presentes e por que motivo? Que relação com a temática? Entre os dois haverá formas diferentes de fazer o transplante ou não? A forma de vivenciar esses assuntos era parecida ou diferente? E se fosse, seria por causa da idade? Ou da personalidade? Ou motivo qual?

Procedimento metodológico

O procedimento foi planificado com base nos anteriores. Planificava tomar notas, para além de apreciar a performance. A observação como exemplo de etnografia. Com estas expectativas, levava a mente aberta para entender a melhor metodologia que o campo me propusesse. Por isso, pude me adaptar à dinâmica, em vez de simplesmente acompanhar e constatar a movimentação do “Antes do show.” Na recolha de dados, senti que havia dois momentos diferentes da noite. O momento antes do show, em que entrevistei informalmente os que chegaram cedo; e o show propriamente dito, ao qual vim a chamar de “On Stage”. Assim surgiram os relatos e anotações assumidamente descritivos.

Antes do show. A incursão em campo

O Auditório Nacional Jorge Barbosa do Instituto da Biblioteca Nacional fica situado na Cidade da Praia e é a segunda maior sala de espetáculos de Cabo Verde. A uma hora do horário marcado para o espetáculo, muitos fãs já haviam chegado: estavam nas escadas, na rua, no hall de entrada a conversar, e mesmo dentro da sala. Previa-se sala cheia. Algumas permaneciam nas escadas que dão acesso ao Auditório, esperando colegas, amigos, familiares…outros tomando “uma fresca”. As pessoas falavam sobre o espetáculo que ainda não tinha começado, sobre o Natal, sobre como conheceram Princezito e Mário Lúcio. E sobre kau mau. Falta de dinheiro suficiente para a ocasião. Ruas pobremente ornamentadas…

O espaço era-me familiar. Resolvi sair e ver o que se passava lá fora. Chamou-me a atenção a razão de as pessoas chegarem tão cedo, cerca de 1h ou 1h30 antes. As pessoas não justificaram a razão de terem chegado tão cedo. Estavam mais interessadas em justificar por que apreciavam os artistas e estavam curiosas por saber o que de tão especial poderiam fazer juntos os Manos Sousa.

O Projeto, na Voz dos Manos

Em conferência de imprensa, dois dias antes, o Projeto foi apresentado pelos Manos como: “Um projeto de dois irmãos de sangue, que tiveram na infância quase tudo em comum e em comunhão. A diferença de sete anos de idade entre os dois nunca os impediu de partilharem os mesmos espaços, as mesmas artes e as mesmas aventuras.

Princezito e Mário partilharam o gosto pelas artes e caminharam na senda da poesia, ora cantada, oram declamada, nas ruas, nas escolas, e mais tarde nos palcos.

Mano a Mano é ventilada sempre que os dois manos se encontram em ambiente calmo, onde partilham as suas criações, brindam à saúde e paz, quase sempre invocando a infância doirada, a avós que os formatou nos costumes brandos, e hábitos da terra, do quartel, a vivência e o aprendizado granjeado em Cuba.

Mano a Mano também tem o sotaque cubano, que significa de mãos dadas, de mão para mão. Está-se perante uma performance de meditação conjunta, contemplação da verdadeira essência do viver que é a felicidade.

A música, o som, a iluminação, o cenário e os músicos, são apenas pretextos.

O que realmente importa é o amor ao próximo, é o exercício da irmandade e a manifestação de ternura de que tanto precisamos.

Se há uma verdade incontornável é que todos somos Manos”

On stage e a epopeia dos Sousas

On stage realça o recontar das biografias de autoficção partilhadas em palco. Estratégias de partilha incluíram: o tributo aos ancestrais, a memória, a devolutiva aos benfeitores do passado, ali presentes, e o recosturar das biografias dos Sousas. Remonta-se à década de 60, do Século XX, altura em que a família (de 12 irmãos) vivia no Tarrafal e reconstrói-se uma trajetória de vida com momentos plurais e outros em que o protagonismo é atribuído a um de cada vez. Optaram por, ao longo da apresentação do repertório, usar recursos épicos para compor a história dos membros da família, especialmente dos dois: cada um com suas peripécias.

A odisseia de Mário Lúcio, entretanto, parece ser a que mais redefiniu o destino da família, fadada antes ao fracasso com a perda dos pais.

Como tópicos adicionais, houve ainda partilha da pesquisa de algum conhecimento teórico sobre a música; e o humor, principalmente nas falas de Princezito.

Interação e Recosturas

Antigos colegas de Mário Lúcio, pessoas do Tarrafal, familiares, irmãos e irmãs, especialmente aquela que, sem ser gémea, nasceu no mesmo ano que Princezito…participaram na interação havida ao longo do konsertu, para além dos fãs e de artistas a quem Mário Lúcio direcionou sua fala, a propósito da música “Ilha de Santiago”..

O humor característico de Princezito e o contraste entre as duas personagens criadas e em ação no palco: uma representando o mais velho, a tradição, a preservação dos valores; e outra representando o devir, a esperança no futuro e a leveza do espírito, tornaram o espetáculo em uma obra artística do início ao fim. Ambos os manos puderam, junto com a sua história de vida e a da sua família, delinear uma narrativa de identidade em que perpassam os aspectos culturais da nossa crioulidade; em que os temas tradicionais estão presentes.

O espetáculo e tudo e todos os que foram por ele envolvidos tiveram, como resultado final, a produção de uma autêntica enciclopédia de afetos: com harmonia, fraternidade, registo e memória.

A narrativa foi entremeada com música de que se destaca a inédita: “Mi ki e kauberdianu Varela”. Esta foi cantada, ensinada, ensaiada e repetida por Princezito. Entrou para o repertório musical do dia ao lado de músicas emblemáticas dos dois artistas como “Lua”, “Pilonkan”, “Ilha di Santiago”, “Tabankamor”; músicas que ambos compuseram sobre o mesmo assunto, ou seja, a sua música que fala de “Lua”, “Mar de Tarrafal” e “Tarrafal”. E ainda cantaram juntos a música “Zita”, de Mário Lúcio, uma homenagem à mãe, para além de outras solicitadas pela plateia e que não constavam no repertório do dia.

Vale destacar aqui a mudança de registo sobre o enquadramento e as razões da criação da música Zita. Ela foi atribuída, por Mário Lúcio, ao nascimento de Princezito e não ao seu próprio dia de nascimento. Mário Lúcio e Princezito costuraram uma narrativa que ilustra a sua relação desde a infância e os laços familiares que transpuseram para o palco. Nota-se a figura do irmão mais velho, protetor e providente, e a do mais novo, o garante da continuidade.

Co-existiram momentos individuais e outros momentos em que os dois interagem. Há um limite de linguagem e de conteúdo, ligado ao jeito de cada um, em que ele passa a ser o ator do momento e performatiza, entre músicas, narrações e outras narrativas, a sua arte. Em cada momento, contam versões pessoais de histórias deles com a família e o seu papel em relação aos outros manos e demais membros. São detalhes de trajetos, percursos, odisseia de cada um. A saída do Tarrafal, a educação, o acompanhamento dos mais velhos, a oportunidade que apareceu.

A memória dos pais é uma biografia reconstruída e transformada em uma história de amor. Em vez de pobres- coitados-órfãos, os meninos, 12 ao todo, refizeram a sua história, com a ajuda da família. Das génesis dos Sousas, compreendemos o êxodo, a partir do Tarrafal, para a Praia e para o mundo; e os livros lidos e escritos, sempre presentes em novas alianças, sem nunca dar lugar ao apocalipse. 12, um número nada desprezível em culturas judaico-cristãs de quem perde o líder, mas não perde o caminho. O amor, sempre presente. Sim, porque os pais não morreram: eles se amaram tanto, que um não podia ficar sem o outro aqui na terra.

O relato biográfico de Mário Lúcio foi também um pretexto à gratidão. Fê-lo para ressaltar a importância de pessoas ali presentes, a quem ele atribui mérito no sucesso por ele conquistado. Por exemplo, os meios de produção da música “Zita” que Mário Lúcio reconta de outro jeito traz os mais velhos da aldeia e a sua sabedoria bem aproveitada

Pelos Manos. Homenagem, gratidão explícita a pessoas que acolheram, orientaram, investiram nele Mário Lúcio e indiretamente na família (presentes Dona Adélcia e Comandante Pedro Pires).

E assim nasceu o Projeto Mano a Mano, em sua versão fundante, que nos reaparece em nova edição amanhã.



APOIE SANTIAGO MAGAZINE. APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE!

A crise na imprensa mundial, com vários jornais a fechar as portas, tem um denominador comum: recursos financeiros. Ora, a produção jornalística, através de pesquisas, entrevistas, edição, recolha de imagens etc. Tem os seus custos. Enquanto está a ler e a ser informado, uma equipa trabalha incessantemente para levar a si a melhor informação, fruto de investigação apurada no estrito respeito pela ética e deontologia jornalisticas que caracterizam a imprensa privada, sobretudo.

Neste momento em que a informação factual é uma necessidade, acreditamos que cada um de nós merece acesso a matérias precisas e de interesse nacional. A nossa independência editorial significa que estabelecemos a nossa própria agenda e damos nossas próprias opiniões. O jornalismo do Santiago Magazine está livre de preconceitos comerciais e políticos e não é influenciado por proprietários ou accionistas ricos. Isso significa que podemos dar voz àqueles menos ouvidos, explorar onde os outros se afastam e desafiar rigorosamente aqueles que estão no poder.

Portanto, se quiser ajudar este site a manter-se de pé e fornecer-lhe a informação que precisa, já sabe que toda contribuição do leitor, grande ou pequena, é tão valiosa. Apoie o Santiago Magazine, da maneira que quiser, podendo ser através da conta nº 6193834.10.1 - IBAN CV64 000400000619383410103 – SWIFT: CANBCVCV - Correspondente: TOTAPTPL - Banco Caboverdeano de Negócios - BCN, ou por meio deste dispositivo do PayPal.


APOIE SANTIAGO MAGAZINE. APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE!

Comentários  

0 # Zepa Mandinga 28-06-2019 17:42
A memória dos pais é uma biografia reconstruída e transformada em uma história de amor. Em vez de pobres- coitados-órfãos, os meninos, 12 ao todo, refizeram a sua história, com a ajuda da família. Das génesis dos Sousas, compreendemos o êxodo, a partir do Tarrafal, para a Praia e para o mundo; e os livros lidos e escritos, sempre presentes em novas alianças, sem nunca dar lugar ao apocalipse. 12, um número nada desprezível em culturas judaico-cristãs de quem perde o líder, mas não perde o caminho. O amor, sempre presente. Sim, porque os pais não morreram: eles se amaram tanto, que um não podia ficar sem o outro aqui na terra. Carlos Alberto Sousa e Mario Lucio - Cabo Verde, parabéns pelo que fizeram daquilo que a vida fez de vocês.
Responder
0 # Zepa Mandinga 28-06-2019 17:41
"A memória dos pais é uma biografia reconstruída e transformada em uma história de amor. Em vez de pobres- coitados-órfãos, os meninos, 12 ao todo, refizeram a sua história, com a ajuda da família. Das génesis dos Sousas, compreendemos o êxodo, a partir do Tarrafal, para a Praia e para o mundo; e os livros lidos e escritos, sempre presentes em novas alianças, sem nunca dar lugar ao apocalipse. 12, um número nada desprezível em culturas judaico-cristãs de quem perde o líder, mas não perde o caminho. O amor, sempre presente. Sim, porque os pais não morreram: eles se amaram tanto, que um não podia ficar sem o outro aqui na terra." Carlos Alberto Sousa e Mario Lucio - Cabo Verde, parabéns pelo que fizeram daquilo que a vida fez de vocês.
Responder