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Por: Armindo Tavares

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CXCIII CENA

Amândio é um jovem moço, estudante de medicina na cidade da Praia. Encontra-se de férias em casa dos pais em Pedra Badejo. Está sentado numa cadeira, com os pés cruzados, lendo um livro sobre a medicina. O Morgado, seu pai, está deitado num catre a fumar um cachimbo e Nhanha, sua mãe, está em cima de um banquinho, com uns óculos fortemente graduados, remendando umas ceroulas do Morgado. Estão todos na rua de um casarão do tipo sobrado, caiado de branco, com duas portas, uma a cada lado, e duas amplas janelas no meio. O teto é coberto com telha francesa.

MORGADO – Estás lindo, rapaz! E com esses bigodes assim retorcidos… aquelas mocitas lá de Praia não hão-de ter folgado nada contigo. Hem, diz lá, malandro?

Amândio dá um sorriso.

NHANHA – Devemos agradecer a Deus por ele não ter sido como muitos que por ai andam. Sempre estudou e aproveitou o tempo, que é o que eu desejava. Para o ano, se Deus quiser já teremos um cirurgião cá na zona. (Para o Amândio) Não é, meu filho?

AMÂNDIO – Assim o creio.

MORGADO (levanta-se de repente) – A propósito; tu já serás capaz de dar aí um remédio para um doente cá da casa?

AMÂNDIO – Quem é que está doente?

MORGADO – A pobre da nossa besta preta. Deu aqui há dias um tropeção e ficou com uma perna aleijada. Já a levei ao Nhonhô em Achada Igreja, mas o filho-do-Naxo tanto fez como nada para o curar. (Amândio dá uma gargalhada) Tu de que ris?

AMÂNDIO – Por amor de Deus, pai! Vê-se que gosta mesmo da minha ciência. Você mandou-me aprender a curar gente ou burros?

NHANHA – Esse homem sai com cada coisas!

AMÂNDIO – Mas… vamos lá ver o que é que ela tem. Também faz parte da família. Mas fique sabendo que não estudo há oito ou nove anos para curar bestas. Essa clínica deixamo-la a quem de direito pertence.

Amândio e Morgado saem, pouco depois passa a Rosalina.

ROSALINA – Dê-me bênção, Nhanha.

NHANHA – Deus te dê juízo na cabeça e livre-te de todos os perigos deste mundo, minha filha.

Rosalina afasta-se e Amândio surge duma esquina. Ela olha para trás e o vê a olhar para ela.

ROSALINA [V. O.] – «Está um mocetão mesmo bonito, meu Deus!»

AMÂNDIO – Quem é aquela moça que vai ali, mãe?

NHANHA – Oh! Pois tu não a conheces?!

AMÂNDIO – Tenho ideias daquele rosto, mas não sei…

NHANHA – É a Rosalina neta da Simoa!

AMÂNDIO – Na verdade aquela lindíssima rapariga é a Rosalina?!

NHANHA – Mas que espanto é esse, meu filho? Quem te ouvisse havia de dizer que já não vens aqui há mais de dez anos!

AMÂNDIO – Ela está tão demudada, que decerto não a reconhecia se não me tivesse dito! Há dois anos, quando cá estive, era uma criança, já encantadora, sim, mas agora ela está uma mulher perfeita!…

NHANHA – Em verdade, aquele corpo e aquela boniteza apoderaram-se dela de há dois anos a esta parte. Ela é a melhoria destes arredores. Pena é ser tão pobre! (Levanta a cara) Afinal, já foste curar a besta ao teu pai? Olha que ele é sequento.

AMÂNDIO – Estou a espera que ele me traga um pouco de salmoura e folhas de São Caetano que lhe mandei buscar.

Amândio senta-se e continua a sua leitura. Rosalina volta de novo.

NHANHA – Eh! Voltaste depressa! Ainda há pouco que passaste?!

ROSALINA (faz um sorriso embaraçoso) – Não estava lá quem eu ia procurar.

AMÂNDIO (levanta-se e vai cumprimenta-la) – Se há pouco não me dissessem quem tu eras, quase que não te conhecia.

ROSALINA – Porquê, Amândio?

Nhanha vai para dentro.

AMÂNDIO – Porque da última vez que cá estive, tu eras uma criança, e venho agora encontrar-te uma mulher bela e encantadora como a Helena de Troia, capaz de endoideceres a cabeça a um velho, se lhe lançasses um desses olhares magnéticos… feiticeiros!

ROSALINA – Meu Deus do céu! O Sr. Amândio está decerto a gracejar com uma pobre rapariga.

AMÂNDIO – Gracejar, eu? Mas diz-me lá: como tens passado?

ROSALINA – Graças a Deus, sempre boa. O Sr. Amândio, creio que tem igualmente gozado de boa saúde. Além disso, está cada vez mais bonito.

AMÂNDIO – Ah, também caçoas comigo?

ROSALINA – Oh, meu Deus! Pois, eu caçoo consigo, dizendo a verdade? Visto isso, o senhor também escarnecia de mim há pouco…

AMÂNDIO – Maldosa!…

ROSALINA – Pois, sim, serei o que quiser.

AMÂNDIO – Ainda moras ali, na mesma casa?

ROSALINA – Onde mais ia morar?! E porquê uma tal pergunta?

AMÂNDIO – Porque amanhã, quando for à caça, desejo fazer-te uma visita.

ROSALINA – Uma visita, a mim?!…

AMÂNDIO – Então não queres?

ROSALINA – É demasiada honra, Sr. Amândio.

AMÂNDIO – A não ser que tenha algum comprometimento para ti.

ROSALINA – Não o compreendo…

AMÂNDIO – Quero dizer que poderia ver-me algum teu conquistador e depois…

ROSALINA – Conquistador?! São-no todos os rapazes daqui, sem exceção.

AMÂNDIO – E entre eles não há nenhum que tenha encostado a mão na chave do teu peito?

ROSALINA – Creio que não…

AMÂNDIO – Então não tens a certeza?

ROSALINA – Tenho a certeza.

AMÂNDIO – Alegro-me muito com isto. (Olha para o relógio) Rosalina, como o meu pai já me espera, digo-te adeus até amanhã, sim?

ROSALINA – Até quando quiser, Sr. Amândio.

AMÂNDIO – Obrigado.

Despedem-se e apartam um do outro.

CXCIV CENA

Dário e o pai, João da Cruz, estão sentados na sala a conversar.

JOÃO DA CRUZ – Não vejo inconveniente se na verdade tu gostas dela.

DÁRIO – Não gosto dela. (O pai estranha-se) Gostamos um do outro.

JOÃO DA CRUZ – Aprovo o vosso namoro e dou-vos todo o meu apoio. Quando é que queres trazê-la cá à casa?

DÁRIO – Não sei se ela vai querer vir já assim tão rápido.

JOÃO DA CRUZ – Qual é a moça que não quererá conhecer a casa dos pais do namorado?

DÁRIO – Mas… a D. Berta… minha madrasta?! Será que ela vai encarar isto como o pai já encarou e aprovar a visita da moça cá à casa?

JOÃO DA CRUZ – Eu falo com a Berta.

DÁRIO – Espero que o pai irá gostar-se dela.

JOÃO DA CRUZ – Acredito que tenhas bom gosto e não me irás desapontar.

CXCV CENA

É noitinha, Rosalina está sentada num banco a fazer renda e a cantar uma canção.

ROSALINA [O. S.] –

Quem me dera amar um dia

E poder entregar o meu coração?

Seria uma escrava e tudo faria

Por um formoso mocetão.

 

Se eu tivesse um peito amigo

Que me desse um tal amor

Eu, então, sem ver o perigo

Lhe entregaria com fervor.

 

De uma esquina, a uma distância curta, vem o Amândio vestido de caçador, com uma espingarda na mão. Pára, sorri e exclama.

AMÂNDIO – Essa é a voz da Rosalina… vá, Amândio, seja também poeta. (Caminha de novo)

Se tu queres amor, ó bela,

Dou-te amor, amor bem puro;

Se juras ser minha donzela

Bonito será o teu futuro.

 

Não te esquives, não me negues,

Esse amor é doce como o mel

Que adoça a boca de nós os dois.

Pois, sem o amor não há viver.

 

Levanta o rosto e vê Rosalina pasmada a olhar para ele. Ele aproxima-se mais, com sorriso no rosto. A casa da Rosalina é uma casinha com uma porta no meio e duas janelas, uma em cada lado.

ROSALINA – Amândio!… Ora essa!

AMÂNDIO – Sou eu mesmo, minha flor. Pensas que só tu sabes fazer coisas bonitas? (Aproxima-se, reclina e leva a mão à aba do chapéu) Boa tarde.

ROSALINA – Salve-o Deus, Sr. Amândio.

AMÂNDIO – Então que tal achas as minhas cantigas?

ROSALINA – Oh! Muito lindas, muito lindas; estava quase a desafiá-lo para um duelo no próximo concurso «Todo o Mundo Canta».

AMÂNDIO – E eu estou pronto a aceitar com o maior gosto o torneio.

ROSALINA – Na verdade atrever-se-ia?

AMÂNDIO – E porque não?

ROSALINA – Deus me defendesse de tal; estava bem servida se fosse cantar consigo ao desafio. O Sr. Amândio que tanto sabe… eu certamente ficaria em último lugar.

AMÂNDIO – Ficarias ou não… vamos a saber: estás pelo contrato?

ROSALINA – Qual contrato?

AMÂNDIO – Pelo das cantigas que há pouco trocamos.

ROSALINA – Lhe juro que se o senhor fosse tão pobre como eu, aceitava.

AMÂNDIO – Então gostas de mim?

ROSALINA – Nunca me deu motivos para o contrário

AMÂNDIO – Pois ouve, Rosalina, eu morro por ti!… se soubesses o sentimento que despertaste no meu coração…

ROSALINA (deixa a cabeça pender para o peito) – E de que vale isso, Amândio? O senhor só deve gostar daquelas que, pela sua posição, se lhe possam igualar.

AMÂNDIO (em tom apaixonado) – Pobre é quem não tem nada… nem para si, nem para dar ao outro.

ROSALINA – E eu… tenho o quê para dar?

AMÂNDIO – Pelo menos tens tudo aquilo que quero: esta tua beleza… o teu encanto… esta frescura da tua presença.

ROSALINA – Ah, Amândio! Quando é que viu uma pessoa esconder-se do sol à sombra de um coqueiro?

AMÂNDIO – Se soubesses o que estou a sentir dentro de mim…

ROSALINA – O quê?

AMÂNDIO – Sinto o meu coração a transbordar de felicidade… a obrigar a minha boca dizer-te que te amo.

ROSALINA – Não faça pouco de mim, Amândio. Posso não ter o preço de uma toalha, mas acho que valho mais do que um guardanapo.

AMÂNDIO – Achas que estou a fazer pouco de ti, por ter dito que te amo? Porque te disse que a felicidade que me despertaste não me cabe no coração?

ROSALINA – Porque é que não me arranje trabalho como sua empregada quando casar com a sua mulher?

AMÂNDIO – Pois, crês o meu amor tão mesquinho que precise dessas vaidades para se alimentar? Porque é que não te arranjo uma empregada?

ROSALINA – Eu não tenho estatutos para ser sua empregada… vai arranjar uma para mim?

AMÂNDIO – Rosalina!…

ROSALINA – Não falemos mais nisso. Vai à caça, não é verdade?

AMÂNDIO – Vou, sim.

ROSALINA – Então não se esqueça de trazer-me uma peça da sua caçada.

AMÂNDIO – Satisfarei da melhor vontade o teu pedido. E adeus até à volta.

ROSALINA – Vá na paz do Senhor.

Amândio parte e Rosalina acompanha-o com os olhos até que lhe perca de vista.

CXCVI CENA

João da Cruz, Dário e Diana estão sentados na sala.

JOÃO DA CRUZ – Meu filho, não a deixes fugir. Não é com frequência que se encontra uma dádiva dessas. A moça é linda! (Para Diana) Não calculas a alegria que me trazes com esta visita a minha casa e, saber que já és mais uma na família.

DIANA – Obrigada. (Para Dário) Tens um pai muito brincalhão.

DÁRIO – Este velho que aqui vês, já viveu o seu tempo, Diana. Conhece bem as coisas boas.

JOÃO DA CRUZ – Não só conheço coisas boas, como sei, também, quando é que elas são sérias. O amor desta menina, conforme está traduzido nos olhos dela, é sincero e honesto.

DIANA – O senhor é simpático. (Levanta-se) Permita-me dar-lhe um beijo.

BERTA (entra de repente) – O que é que estão a fazer no meu sofá, como se não bastasse, tentando beijar o meu marido?

JOÃO DA CRUZ – Berta, é a namorada do nosso filho…

BERTA – Namorada do teu filho!

JOÃO DA CRUZ – Namorada do Dário, querida!

BERTA – Não sou tua querida. Chama de querida à estupora de tua mãe.

JOÃO DA CRUZ – Ele veio apresentar-nos a namorada dele.

BERTA – Namorada dele!…

JOÃO DA CRUZ – Sim, Berta.

BERTA – Então que fique claro: doravante, não quero nenhuma meretriz na minha sala. Há muitos pardieiros, folhadas e lapas para se encontrar com putecas. (Aos berros) NA MINHA CASA NÃO, NÃO, NÃO. Pela próxima que isto aconteça, já sei o que fazer. Caso contrário não me chamo mais Berta Maria Atalaia de Pina.

Dário toma Diana pela mão e saem calados.

CXCVII CENA

Rosalina está sentada no mesmo lugar. Amândio chega com uma galinha na mão.

AMÂNDIO – Boas noites, Rosalina!

ROSALINA – Boas noites, Amândio.

AMÂNDIO – Esperavas há muito por mim, não é verdade?

ROSALINA – Eu não o esperava, Amândio.

AMÂNDIO – Não me esperavas? Então o que fazias aqui a esta hora?

ROSALINA – Bem se vê que o senhor desconhece os nossos hábitos, ou pelo menos os meus.

AMÂNDIO – Não te compreendo…

ROSALINA – Eu lhe explico: nós as raparigas que trabalhamos em casa, costumamos deixar o trabalho logo que a noite começa, e vimos depois descansar um pouco para junto da porta; as que têm namorados esperam por eles e entretêm-se algum tempo a falar-lhes; as que os não têm divertem-se com as raparigas das vizinhanças.

AMÂNDIO – Visto isso, tu, que não estás a divertir-te com as tuas companheiras, esperas decerto pelo teu namorado, não é assim?

ROSALINA – Oh, meu Deus! Pois eu não lhe disse já que não tinha namorado algum?

AMÂNDIO – Juras?

ROSALINA – Que loucura!… Que necessidade tinha eu de mentir-lhe?

AMÂNDIO – Bem, fico satisfeito; agora cumpre-me satisfazer o teu pedido: aqui tens esta galinha. Foi a única que pude hoje caçar.

ROSALINA – Ora esta!… pois o Amândio tomou a sério o meu pedido?

AMÂNDIO – E porque não?

ROSALINA – Mas o que lhe disse foi por simples brincadeira.

AMÂNDIO – Fosse o que fosse… aceitas ou não?

ROSALINA – Aceito para não o desgostar.

Ela recebe a galinha.

AMÂNDIO – Ora ainda bem; estava a ver se, depois de tanto trabalho…

ROSALINA – Então não havia caça? Esforçou-se muito só para me obsequiar?

AMÂNDIO – Caça havia até demais; mas eu é que estava de uma infelicidade atroz; não sei se deva atribuir isso à falta de exercício, se a outro qualquer motivo; o que é certo, é que todos os tiros me falhavam, e, se não fosse o teu pedido, Rosalina, juro-te que tinha pegado em espingarda e pólvora e atirado tudo para o inferno.

ROSALINA – Não sei como pagar-lhe tantos sacrifícios, Sr. Amândio.

AMÂNDIO – É bem fácil satisfazeres o teu desejo; deveras queres recompensar-me?

ROSALINA – Decerto, mas infelizmente não vejo com quê.

AMÂNDIO – Vejo eu…

ROSALINA – Oh! Então peça; se for coisa que só depende de mim…

AMÂNDIO – Tão-somente de ti. Dá-me o teu coração, a tua vida, e eu ficarei bem recompensado.

ROSALINA – Não brinque com essas coisas, Sr. Amândio.

AMÂNDIO – Juro que te falo sério. É preciso, enfim, que nos deixemos de dissimulações e rodeios e falemos com franqueza. Eu amo-te; amo-te como nunca amei neste mundo. E se queres ver-me feliz, se queres…

SIMOA [O. S.] (com uma voz rouca) – Rosalina!

ROSALINA – Adeus, Sr. Amândio. Não posso demorar-me mais; minha avozinha chama-me.

Sai a correr.

AMÂNDIO – Adeus, Rosalina.

Segue-a com os olhos até ela desaparecer.



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