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Por: Armindo Tavares

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CENA CLXXXIV

NARRADOR – Há seis anos que a Helena faleceu e que João da Cruz e Berta se vivem juntos. Dário tem já 12 anos e Nande 8. A Isa, filha só da Berta, também tem 12 anos. Ela ainda está a estudar a 3ª classe e é repetente. Na Pré-Primária, quando a Berta disse ao João da Cruz que ela conseguia escrever os nomes de todos eles e que o Dário não, o que fez João da Cruz dar uma surra ao Dário, ela nem chegou a ser escolhida para o exame. Entretanto, com o apoio decisivo do Faustino Jorge, o Dário dispensou-se da prova oral.

CENA CLXXXV

Dário, Narciso, Luizinho e Armandinho jogam biscas enquanto conversam.

LUISINHO – Mamã tinha-me dito que se eu vendesse muitos pastéis ela me comprava um par de Kolukutú, mas não consegui vender o suficiente.

ARMANDINHO – Então vais à Praia sem sapatos nos pés?

LUISINHO – Não os tenho! Lá o meu pai mos compra.

ARMANDINHO – Eu tenho uns chinelos xupakaka que a minha mãe mos comprou.

NARCISO – Tu vais ficar onde, Luizinho? Onde é que o teu pai mora?

LUISINHO – O meu pai mora em Achada de Santo António. No Brasil.

NARCISO – E tu Armandinho? Onde vais ficar?

ARMANDINHO – Vou ficar em Vila Nova, na casa do meu tio Joaquim Loureiro.

DÁRIO – Eu vou ficar em Achadinha, na casa da minha tia, irmã da minha mãe, que é também minha madrinha. Ela tem casa sábi. É emigrante no Congo Brazzaville.

NARCISO – Eu vou ficar no Seminário.

ARMANDINHO – Tu vais ser padre, Narciso?

NARCISO – Sim. Vou estudar para ser padre.

DÁRIO – Também o Zé de Txutxa Kondon e o Quim de Nha Nikiléta vão para o Seminário para serem padres!

LUIZINHO – Eles são filhos de casado! Para o Seminário só vão os filhos de quem é casado.

ARMANDINHO – Eu não vou ser padre. Para ficar sem arranjar namorada?!

NARCISO – Arranjas namorada aqui na terra, não vais para o Céu quando morreres!

ARMANDINHO – Praia é rai-di-sábi. Vamos andar de bicicleta, vamos ao cinema ver os filmes de Charlot e do Bruce Lee…

LUISINHO – Comemos fresquinha, pão com manteiga, bolacha maria…

DÁRIO – Eu já tenho as minhas coisas todas arrumadas. Comprei uma capa que tem os desenhos de todas as bandeiras do mundo. Desde que fiz a 4ª classe, fiquei a guardar o dinheiro da papaia que vendo, já comprei seis cadernos, um estojo de doze canetas de feltro, compasso, régua, esquadro, transferidor, lápis de cor e de carvão, borracha e esferográfica.

ARMANDINHO – Eu só não tenho compasso. Está muito caro.

NARCISO – Eu também já tenho tudo comprado.

LUISINHO – Eu não tenho nada ainda. O meu pai vai-mos comprar lá na Praia.

ARMANDINHO – Como tu moras mais a cima, Narciso; o Luizinho também como mora atrás da minha casa, vocês passam lá por mim e vamos apanhar o Dário que mora mais abaixo.

DÁRIO – Sim. Depois vamos apanhar o Zé de Kondon, passamos pela Kaká de Teté e vamos encontrar com o Quim de Nhu Bernardino dentro do Porto.

LUISINHO – E vamos apanhar o Zé Manel de Ernesto e a Chã de Bibí e de Joãozinho Borodjada em Achada Fazenda.

Findam a partida, todos se levantam e despedem-se.

CENA CLXXXVI

Berta e João da Cruz estão no quarto, deitados.

BERTA – O Dário já tem as suas coisas arrumadas para ir à Praia amanhã.

JOÃO DA CRUZ – Pois. Ele vai começar as aulas.

BERTA – Mas tu deixas o menino ir estudar na Praia?!

JOÃO DA CRUZ – Tem que ser Berta. Cá só se estuda até a 4ª classe!

BERTA – Quarta classe já não lhe está bom?! Para quê mais do que isso?

JOÃO DA CRUZ – Vamos tentar. Deixa para ver.

BERTA – E tu tens confiança na casa onde ele vai ficar?

JOÃO DA CRUZ – É em casa da madrinha dele, irmã da sua falecida mãe.

BERTA – Eu não te percebo…

JOÃO DA CRUZ – Porquê?

BERTA – Ainda há dias vieste zangado com ela. Ainda bem, que estavas moco.

JOÃO DA CRUZ – Estava moco, mas não estava doido.

BERTA – Ela é armada em branca… em gente fina… copo leite!

JOÃO DA CRUZ – Exatamente. Por isso que ela armou-se em branca comigo!

BERTA – Tu nem devias tratar com essas gentes, famílias da Helena. Falam todos mal de ti. Vais pôr o puto em casa deles para estudar, vão sair por aí a dizer para todo o mundo que eles é que te criaram o filho.

JOÃO DA CRUZ – Tu achas que eu não pensei nisso? Ainda por cima, a sua madrinha que é uma não presta. Que está convencida de que é branca, por causa daquela sua cor de porcaria!

BERTA – Não é nada comigo, mas se fosse meu filho… não iria pra a casa dela.

JOÃO DA CRUZ – Tens razão. Vou ver se arranjo uma outra casa para ele ficar.

BERTA – Por acaso eles têm a mania de subestimar as pessoas por causa daquela cor de gemada que eles têm.

JOÃO DA CRUZ – E a madrinha do Dário não gosta mesmo nada de mim. Está sempre a descompor-me, a dizer que sou raça de negro. Ela nunca quis que Helena tivesse filho comigo.

BERTA – Nem te foram visitar e dar-te os pêsames!

JOÃO DA CRUZ – Puseram esteira [velório] lá em casa deles.

BERTA – Falta de respeito e de consideração.

JOÃO DA CRUZ – Depois, a minha filha morreu, eles enterraram-na e não me disseram. So depois de a terem sepultado é que me mandaram dizer.

BERTA – E ainda tens cara de mandar o teu filho ficar em casa daquela bandida? (João da Cruz vira de lado, encolhe os pés e tapa a cabeça. Berta levanta-se) E mesmo deixa-me calar a boca, porque tu não estás bom da cabeça.

Ela levanta-se e vai arrumar a cozinha. O Dário também levanta-se, toma o banho, veste-se e fica preparado à espera dos colegas. Chegam Narciso, Luizinho e Armandinho, esperam-no na rua. Estão todos vestidos com calças e camisas curtas. Luizinho é o único que não traz sapatos nos pés. Narciso traz umas sandálias de plástico, todo remendado e Armandinho traz uns chinelos xupakaka. Fica à espera que o Dário saia para irem apanhar o transporte à frente do Mercado, dentro do Porto. Cada um deles tem uma mochila pendurada ao ombro. Dário também pendura a sua e vai à cozinha despedir-se da madrasta.

DÁRIO – Adeus, D. Berta!

BERTA – Diz ao teu pai que vais à Praia. (Dário vai em direção ao quarto a Berta chama-o) JOÃO DA CRUZ… JOÃO DA CRUZ… (João da Cruz responde estremunhado) Responde o Dário.

João da Cruz destapa a cabeça lentamente e abre os olhos ainda sonolentos.

DÁRIO – Adeus, papá.

JOÃO DA CRUZ – Adeus de quê? Aonde é que o senhor vai?

DÁRIO – Vou a Praia. As aulas começam amanhã.

JOÃO DA CRUZ – Vai mas é pôr a mochila num sítio e deixa de atrevimento! Não vais a sítio nenhum. Tu é que mandas?!

Dário deixa a mala em cima da mesa, sai a chorar e vai ter com os colegas.

DÁRIO – Papá não me deixou…

LUIZINHO – Porque é que ele não te deixou?

DÁRIO – Não sei…

ARMANDINHO – O teu pai é mau!

NARCISO – Vamos ficar com saudades tuas…

Dário soluça-se, vira às costas e vai para dentro.

ARMANDINHO – Quando eu chegar, escrevo-te.

Os colegas partem tristes. João da Cruz chama-o.

JOÃO DA CRUZ – DÁRIO!

Ele limpa as lágrimas, dissimula a sua tristeza e vai responder.

DÁRIO (à porta) – Sim, papá!

JOÃO DA CRUZ – Vai despir essa roupa e vai a Jaracunda tratar de regar os canteiros que estão todos secos. Mas antes, vai cuidar dos animais no curral. Fica-te melhor! (Dário vira as costas) Já tomaste o pequeno-almoço?

DÁRIO – Sim!

BERTA – Nem devias ter-lhe perguntado!

JOÃO DA CRUZ – Pois. É a primeira coisa que ele faz sempre que acorda!

NARRADOR – O Dário fica sem ir para a escola na cidade da Praia. Aos 18 anos foi para tropa e, ao perguntarem-lhe qual era a sua profissão, em tom de brincadeira disse que era Ajudante de Mecânico. Foi escolhido para ir fazer o curso de mecânico auto, terminou o curso como o melhor aluno. Prestou 20 meses de serviço militar como condutor. O Zé de Txutxa Kondon fez o 7º ano dos liceus e foi lecionar numa escola particular em Pedra Badejo. Aos 22 anos de idade, Dário foi estudar com ele o 2º ano do Ciclo Preparatório.

CENA CLXXXVII

Dário está sentado em cima de uma pedra, na empena da casa, triste e com a mão no queixo. Nande chega ao pé dele, correndo atrás do seu arco.

NANDE – O que é que tu tens, Dário? (Dário deita lágrimas) O pai bateu-te?

DÁRIO – Não.

NANDE – Então porque estás a chorar? (Dário limpa os olhos) É a D. Berta? Ela brigou contigo.

DÁRIO – Não, Nande.

NANDE – Diz-me! O que é que tu tens?

DÁRIO – Hoje é último dia de inscrições para o exame… pedi ao papá o dinheiro e ele não mo deu.

NANDE (pensa um pouco) – Sabes se vais passar?

DÁRIO – Isso não sei. Mas na escola eu sou bom aluno.

NANDE – Se o papá te der dinheiro… se chumbares não sei o que é que ele fará contigo.

DÁRIO – Eu já não estudava há anos, Nande. Fiz quarta classe há 12 anos!

NANDE – Vou falar com a minha avó para ver se ela tem esse dinheiro. Quanto é que é?

DÁRIO – Não, Nande. Deixa estar.

NANDE – Quanto é que custam as inscrições?

DÁRIO – Cento e oitenta escudos… para comprar selo fiscal.

NANDE – Tu trabalhas na horta todos os dias, de manhã a noite e o papá não tem coragem de dar-te 180$00 para os exames?!

DÁRIO – O papá faz o que a D. Berta lhe manda.

NANDE (pensa um pouco e olha para o Dário) – Sabes uma coisa… aquelas calças jardineiras já não me servem. Ficam-me apertadas. Se quiseres eu dou-tas e vais vendê-las. (Dário olha para ele com muita ternura) Elas ainda estão novas, podes vendê-las por esse preço.

DÁRIO – Vai buscar.

Nande sai a correr atrás do seu arco, Dário levanta, limpa o rosto e entra em casa.

CENA CLXXXVIII

Dário está sentado à mesa a estudar.

BERTA – Hoje não vais a Jaracunda, Dário?

DÁRIO – Já disse ao papá que vou mais tarde.

BERTA – Não sei casta de homem é que tu vais ser! Mas quem tem culpa disso tudo é o teu pai. Ele é que te deixa fazer o que quiseres. O que é que estás a fazer que não vais à horta?!

DÁRIO – Vou fazer inscrições para os exames. Hoje é último dia.

BERTA – Inscrições para os exames?! Já tens dinheiro? Ele deu-te dinheiro? (Nande entra com a jardineira na mão) Olá, Nande! Isto é pra quê?

NANDE – Já não me servem.

BERTA – E o que vais fazer com elas?

NANDE – Trouxe-as ao Dário.

BERTA – Se não te servem a ti, hão-de servir ao Dário que é mais velho?

NANDE – É para ele vender e ir fazer inscrições para os exames do 2º ano.

BERTA – Por quanto é que estás a vendê-lo?

DÁRIO – Cento e oitenta escudos.

BERTA – Deixa-me ver. (Nande dá-lhas) Não tomas cento e cinquenta? Comprava e dava ao meu afilhado que faz anos depois de amanhã.

NANDE – Dário é que sabe.

DÁRIO – Eu estou a precisar de cento e oitenta escudos.

BERTA (tira dinheiro da carteira, conta 180$00) Toma. Vai atirá-los ao mar.

DÁRIO (arruma os livros e levanta da mesa) – Com licença. Vou a escola fazer inscrições e de lá vou a Jaracunda.

BERTA – Não te esqueças de trazer um feixe de lenha. Estás habituado a vir mãos a abanar… e o teu pai não te diz nada!

DÁRIO – Sim, senhora. Tchau.

NANDE – Tchau, D. Berta.

BERTA – Tchau. Deus vos acompanha.

Dário e Nande saem, Berta analisa as calças e fica a comentar.

BERTA – Vi umas iguais lá no Sucupira por 250$00. O meu afilhado vai gostar da prenda qua a madrinha lhe irá dar. (Pensa um bocado) Pensei que João da Cruz ia estragar dinheiro com aquele safado! Não sei para quê estudar?! O melhor que ele devia fazer era aprender a cavar e mondar nas hortas!

JOÃO DA CRUZ (entra) – Onde está o Dário?

BERTA – Ele não falou contigo?

JOÃO DA CRUZ – Não! Só me disse que chegava mais tarde. Não me disse mais nada.

BERTA – Ele quer ser doutor… foi fazer inscrições para os exames!

JOÃO DA CRUZ – Conseguiu o dinheiro? Eu lhe disse que não tinha dinheiro para essas patetices.

BERTA – O irmãozinho dele deu-lhe estas jardineiras para vender… (João Da Cruz toma e vê) Estão novas ainda, não estão?

JOÃO DA CRUZ – Por acaso!…

BERTA (muito meiga) – Amorzinho, como o meu afilhado faz anos amanhã, comprei para lhas oferecer… fiquei tesa.

JOÃO DA CRUZ (dá-lhe um beijo seguido de 180$00) – Tiveste sorte. Era o que aquele preguiçoso queria que lhe desse. E se o tivesse dado… ficavas de fora.

BERTA – Obrigada.

Abraçam-se.



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