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Por: Armindo Tavares

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CENA CLXXVII

A Televisão Nacional transmite uma grande reportagem com a Drª Rosária.

JORNALISTA – Caros telespetadores, depois de uma dilatada exegética a Televisão Nacional preparou esta reportagem, que vai agora transmitir ao país e ao mundo, levando às vossas casas as minudências das nefastas tragédias que, infelizmente, têm ocorrido e vêm ocorrendo de forma reiterada e sem peia no nosso país desde há algumas décadas. E hoje, convidamos aqui no Estúdio, a advogada, Drª Rosária que, em linguagem técnica ou jurídica, nos irá explicar. (Para Drª Rosária) Boa tarde, Doutora!

DRA. ROSÁRIA – Boa tarde, Srª Jornalista, boa tarde caros telespetadores.

JORNALISTA – Muito obrigada por ter aceitado vir aqui no nosso estúdio, ajudar-nos a esmiuçar e decepar os tabus que, desde há algum tempo vem nublando, de forma fóbica ou hecatómbica, as nossas mentes.

DRA. ROSÁRIA – Eu é que agradeço pelo convite e estou totalmente à disposição.

JORNALISTA – Caros telespetadores, a nossa convidada está cá para nos falar das questões relacionadas com a nossa justiça, mais concretamente, sobre os últimos acontecimentos ocorridos. (Para Advogada) Drª, o nosso país é pequeno, não bastando, é arquipelágico. Não sendo um arquipélago, certamente, a bordo de um potente Audi Q7, a gente poderia almoçar em Santo Antão e ir Jantar na Brava. Certo?

DRA. ROSÁRIA – Sem dúvidas.

JORNALISTA – Ora, lembro-me de uma composição musical sobre um poema dos anos 40, salvo erro, em que dizia: «Europa é enorme, América é um mundo». Mas ali, poucos casos não serão desvendados.

DRA. ROSÁRIA – Desde que eu me lembre, só o caso da inglesinha Maddie Mccann ficou por desvendar. Mas mesmo assim, volvidos 12 anos, as investigações não pararam. Mesmo o caso do General Humberto Delgado, que aconteceu em plena ditadura do Estado Novo, o ex-inspetor da PIDE-DGS, Rosa Casaca não conseguiu fintar a acusação. Mas aqui, o assassinato de uma pessoa é coisa tão banal, tão fútil que não há qualquer responsabilização! Num país decente e minimamente civilizado, por esses crimes hediondos o Estado seria responsabilizado criminal e politicamente e, o Procurador-Geral da República e sua equipa seriam presos e julgados por incumprimento dos deveres e denegação de justiça.

JORNALISTA – A título introdutório, queira permitir-me fazer retrospetiva de algumas notícias que saquei, para o efeito, daqui do Estúdio.

DRA. ROSÁRIA – Tenha a bondade.

JORNALISTA – Nos idos anos de 1983, em Ponta D’Água na cidade da Praia, um juiz do Tribunal Popular foi assassinado sob uma urdidura digna de um filme de ficção intemporal. Ora, esse juiz ficou famoso, infelizmente pelos maus motivos, ou seja, pelas suas sentenças impiedosas, tendo granjeado e somado inimigos sobre inimigos. Certo dia, depois de uma rixa com a esposa que havia sido mãe de um bebé poucos dias antes, resolveu estender um cobertor no chão da sala e ali se deitar. Às tantas da madrugada, uma enorme pedra furou o telhado e caiu-lhe sobre o peito, provocando-lhe a morte imediata.

DRA. ROSÁRIA – Como é que a pessoa soube que ele estava de zanga com a mulher e que estava a dormir na sala?

JORNALISTA – Mistério!

DRA. ROSÁRIA – Poderia no mínimo, ter-se beneficiado do fator sorte. Ou seja, o criminoso poder-se-ia ter atirado a pedra para o quarto e sobre a cama onde ele costumava dormir e, a esposa e o bebé, eles sim, por azar, se levariam com a pedra e sofreriam consequências.

JORNALISTA – Efetivamente. Aí já ele se poderia dizer que teve sorte por ter deitado na sala.

DRA. ROSÁRIA – Veja só! Como é que, estando o criminoso do lado de fora, se pode saber, exatamente, onde ele está deitado e mandar com a pedra justamente em direção ao peito?!

JORNALISTA – Alguns jovens que já eram rotulados e devidamente verberados pelas autoridades de zona, julgados e condenados algumas vezes pelo Tribunal Popular e por esse juiz, foram imediatamente detidos e selvaticamente torturados na Esquadra da Polícia, obrigados a confessar a autoria do crime. Muitos ficaram com sequelas irreversíveis, com dor na alma e incapacidade física pelo resto da vida. Entretanto, nunca foram julgados e a culpa acabou por morrer solteira.

DRA. ROSÁRIA – Esses jovens não apresentaram queixa contra o Estado, nem participaram dessa estúpida barbaridade na Comissão dos Direitos Humanos?

JORNALISTA – Na altura não havia essa Comissão. Nem ninguém sabia que ela existia.

DRA. ROSÁRIA – Francamente! Se nessa altura eu já estivesse cá, ofereceria voluntariamente para os defender.

JORNALISTA – Que generosidade a sua, Doutora! (Riem-se) Bem… continuo. A 26 de Setembro de 1989 foi assassinado Renato Cardoso, o Secretário de Estado da Administração Pública, tendo as circunstâncias do crime envoltas em polémicas, embora a primeira reação manifestada nesta Televisão foi de que: Este crime não tem contornos políticos.

DRA. ROSÁRIA – Eu era estudante ainda em Portugal, mas soube que chegaram a prender um suspeito.

JORNALISTA – Foi preso um marginal… um jovem com perturbações mentais. O Badiu Bokiseru. Levou tanta porrada… foi de tal forma torturado que acabou definitivamente demente e inválido para sempre. Entretanto, o crime nunca foi resolvido, nem o autor descoberto e punido. Do Badiu Bokiseru ninguém se falou mais. Ninguém se lembrou mais dele.

DRA. ROSÁRIA – Não encetaram mais investigações?

JORNALISTA – Nada. Um escritor e deputado nacional disse em tempo: «As circunstâncias em que foi cometido perderam-se ou foram engolidas pela opacidade que caracterizava o regime político então vigente. O partido único, desde cedo, criou um regime de exceção para se defender de eventuais manifestações de revolta e indignação individuais ou coletivas dos cabo-verdianos contra o seu domínio».

DRA. ROSÁRIA – Mas neste momento estamos distantes daquela época há cerca de 30 anos! E as coisas não mudaram quase nada.

JORNALISTA – Isso é verdade.

DRA. ROSÁRIA – Mas entenda-se. As coisas não podem mudar sem que mude o governo.

JORNALISTA – O Governo mudou, Doutora!

DRA. ROSÁRIA – O Governo não mudou, Srª Jornalista. Mudaram, sim, os governantes. O sistema e o regime se mantiveram. As mordomias continuaram intactas.

JORNALISTA – Mas as coisas melhoraram, Doutora.

DRA. ROSÁRIA – Em que aspecto?

JORNALISTA – Saíram várias leis que combatem a corrupção, o nepotismo… a lei que regula os concursos públicos, entre outras.

DRA. ROSÁRIA – A feitura dessas leis não significa muito nada. O que interessa é a sua profícua implementação. Ora vejamos: O concurso público faz-se, mas desde véspera do concurso já se sabem quem irá passar e onde irá ficar colocado. Quanto ao nepotismo só o tolo o comete. Um dirigente diz ao outro: Tu nomeias o meu marido, a minha esposa, o meu primo, a minha sobrinha ou o meu irmão como chefe do teu gabinete, eu nomeio os teus como PCAs na Empresa Pública que tutelo. E está resolvido.

JORNALISTA – Olha que tem lógica, sim!

DRA. ROSÁRIA – E nestas circunstâncias, enquanto a economia se definha, o país se empobrece, o povo fica na miséria e a insegurança aumenta, os bens públicos são delapidados a favor dos deputados, governantes e estrangeiros brancos.

JORNALISTA – Estrangeiros… brancos?!

DRA. ROSÁRIA – Sim. Estrangeiros brancos. Os europeus não entram no nosso país sem qualquer Visto de entrada, marimbando-se no respeito pelos critérios de reciprocidade?

JORNALISTA – Boa observação você fez! E os nossos irmãos da Costa Ocidental Africana, os ilustres Manjacos, são sistematicamente barrados e retidos nos aeroportos, recambiados de seguida como se fossem contrabandos.

DRA. ROSÁRIA – Você viu quem opera atualmente no nosso espaço aéreo?

JORNALISTA – Uma companhia das Canárias!

DRA. ROSÁRIA – A BINTER. Uma companhia espanhola. E quem comprou os TACV?

JORNALISTA – Uma companhia irlandesa. A Icelandair.

DRA. ROSÁRIA – Por quanto é que o nosso atum é vendido aos brancos… à União Europeia?

JORNALISTA – Há dias comprei um quilo, em Palmarejo, por 800$00.

DRA. ROSÁRIA – À União Europeia o nosso atum é vendido a 9$00 o quilo.

JORNALISTA – Se nos descuidarmos, vamos ficar ainda pior que os angolanos.

DRA. ROSÁRIA – Pior que os angolanos como?

JORNALISTA – Angola foi, até o ano passado, o maior produtor do petróleo em África. Foi este ano ultrapassado pela Nigéria, ficou a ocupar o segundo lugar. Mas ainda ontem, em várias bombas não havia combustível para o consumo premente.

DRA. ROSÁRIA – Cabo Verde assinou com os Estados Unidos da América o acordo SOFA, em que os militares americanos que cometam crimes em Cabo Verde, ficarão sob alçada da jus­tiça militar Norte Americana, não podendo ser julgados nos tribunais cabo-verdianos.

JORNALISTA – O acordo prevê que se Cabo Verde solicitar aos Estados Unidos informarão sobre o estado do processo penal relativo a infração alegada­mente cometida no território Cabo-verdiano por pessoal dos Estados Uni­dos, que envolvam cidadãos cabo-verdianos, em conformidade com a legisla­ção e a política dos Estados Unidos, estes envidarão esfor­ços para permitir e facilitar a comparência e observação de representantes de Cabo Verde durante o processo.

DRA. ROSÁRIA – Os Estados Unidos envidarão esforços… em conformida­de com as leis e regulamentos dos Estados Unidos, incluindo o Código Uniforme de Justiça Militar e os regulamentos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Que bonita esperteza! Olhe só: Basta invocarem a Segurança do Estado, para que Cabo Verde fique bequite. E não nos esqueçamos de que nos Estados Unidos se aplica a pena de morte.

JORNALISTA – Pois. Eis a questão!

DRA. ROSÁRIA – E o Liceu da Várzea que acabou de ser vendido aos americanos para a construção da sua Embaixada?

JORNALISTA – Permitir a construção de uma Embaixada estrangeira, especialmente a dos Estados Unidos da América, no quintal do Palácio do Governo é uma coisa de loucos. É apanágio, senão mesmo prodígios da demência. É pendurar linguiça no pescoço de um gato famélico.

DRA. ROSÁRIA – Mas ainda há mais. Os estrangeiros, à exceção de Manjacos, são de tal forma venerados que até no Governo há uma ministra estrangeira.

JORNALISTA (riem-se) – Ok. Agora a Doutora vai-nos falar sobre as questões recentes, mais concretamente sobre as tragédias que vem assolando o concelho de Santa Cruz, onde tudo se passa sob o olhar impune, quiçá, cúmplice ou conivente, ou mesmo, por deliberada encomenda dos fautores legalistas, cuja missão seria de proteger e defender os fracos, oprimidos, indefesos e injustiçados. Como sabemos, há um rol de crimes que vem acontecendo, principalmente no âmago da cidade de Pedra Badejo, sendo um dos mais recentes, o assassinato do seu amigo Juiz Dr. Joaquim e de tentativa de homicídio na pessoa da sua amiga, a Drª Mónica.

A Drª Rosária não consegue evitar que lhe caiam algumas lágrimas.

DRA. ROSÁRIA – Desculpa! (Limpa as lágrimas com um lenço de papel) Desculpa! Efetivamente, o que se passa com a nossa justiça é de uma vergonhosidade impressionante. A inteligência dos nossos agentes judiciários é de uma dimensão microscópico quanto ao tamanho de muitos deles. São baixos, reles, parvos, incautos, desnutridos e desprovidos de técnicas para exercerem as funções pelo que, por simpatia, nepotismo ou militância lhes foram impendidas. E assim sendo, só fazem o que o patrão ordena e dão o que ele lhes pede. Ou então, só fazem asneiras.

JORNALISTA – Desculpe interrompê-la. O caso mais recente aconteceu com o emigrante que, segundo consta, em menos de uma semana de ter chegado ao solo pátrio, para visitar a família e mostrar que tinha acabado de receber uns rins novos, recebeu uma chamada por telemóvel, saiu para ir responder e só veio a aparecer o seu cadáver 4 dias mais tarde, com todos os órgãos internos retirados.

DRA. ROSÁRIA – Tenho aqui uma lista de crimes que cá aconteceram e que os criminosos ficaram impunes e cândidos candidatos à Glória do Pai. (Para Jornalista) Posso enumerá-las?

JORNALISTA – Pode, com certeza.

DRA. ROSÁRIA – Muito obrigada! Há cerca de vinte e poucos anos, um jovem que morava em Chã da Silva, foi encontrado enforcado numa mangueira, tendo a autópsia revelado que tinha o pescoço partido.

JORNALISTA – Quer dizer que o mataram e o penduraram para dissimular o suicídio!

DRA. ROSÁRIA – Ora, está! E podia muito bem surtir efeito. Basta a médica/legista tivesse ignorado e não autopsiasse o cadáver, como fez no caso do DEGO, a tese do suicídio teria vingado.

JORNALISTA – Casta de profissionais nós temos, Santo Deus?!

DRA. ROSÁRIA – Em 2000, um agente da Polícia de Alfândega, natural da Ribeira da Barca e que estava destacado para trabalhar em Pedra badejo, foi encontrado estirado no interior de sua residência com uma bala cravada na nuca. A sua arma foi encontrada junto ao seu corpo prostrado. Até esta, ninguém conhece o móbil desse crime. Especula-se, entretanto, que terá suicidado. E o processo seguiu diretamente para os arquivos da Procuradoria, esperar o despacho para ir jazer no contentor. Em 2001, um jovem Procurador do Ministério Público desta Comarca, o Zezito, que era dos Picos, foi assassinado com uma bala na cabeça, dentro da sua própria residência. Foi encontrado prostrado no chão e com a pistola que lhe pertencia segurada na mão direita.

JORNALISTA – Se calhar, também, para dissimular o suicídio!

DRA. ROSÁRIA – Óbvio! Mas só que todo o mundo sabia que ele era canhoto e que não tinha jeito para fazer nada com a mão direita. Por isso, ele seria incapaz de disparar uma pistola com essa mão.

JORNALISTA – E quais foram as conclusões da autópsia?

DRA. ROSÁRIA – Suicídio. Mas esse crime, como os demais, esteve e ainda continua envolto em mistérios ou segredos dos Deuses.

JORNALISTA – Mistério total. Um amigo confidenciou-me uma incongruência de um magistrado do Ministério Público sobre esse caso do Zezito. Ele disse-me que esse magistrado, que na Faculdade foi colega do Zezito, e na altura do acontecimento era simpatizante, senão militante do Partido que orientava o governo, lhe terá dito que Zezito havia suicidado. Que ele terá visto o cadáver antes ser recolhido para a morgue.

DRA. ROSÁRIA – Ele pode até dizer isso. É normal. Mas quem atesta a causa da morte é o médico/legista após a devida autópsia.

JORNALISTA – Entretanto, o que me contristou e me fez tremenda confusão, foi quando o Governo mudou, o regime alterou-se e esse Procurador, por sua vez, metamorfoseou também a sua ideologia e, consequentemente, modificou-se de forma radical a sua idiossincrasia em relação ao atual patrão.

DRA. ROSÁRIA – E como prebenda foi colocado na Procuradoria-Geral da República ocupando o 4º cargo da hierarquia magistral do Estado.

JORNALISTA – E descaradamente deu o dito por não dito, mandou abrir inquérito judicial por suspeitas de ter havido crime na morte do ex-colega.

DRA. ROSÁRIA – Que barafunda! Que incompetente bajulador! E para mostrar que é grato ao seu libidinoso patrão, fez-se esquecer atafulhado nas gavetas dos armários e nos vãos das prateleiras da Procuradoria, as queixas contra si, nomeadamente o processo em que, num tresloucado ato de desespero durante um pleito eleitoral, ter-se-á dito que a campanha do seu adversário estava sendo patrocinada com o dinheiro dos traficantes de droga.

JORNALISTA – Sinceramente!… Falta de escrúpulos!

DRA. ROSÁRIA – Ordenou, igualmente, que arquivasse um processo de injúria e difamação infligidas à oposição, quando o então Primeiro-ministro se proferiu a célebre frase: Buru na Txada e pa da ku po.

JORNALISTA – E não percebo por que é que havia dito, peremtoriamente, que tinha sido suicídio e, mais tarde, abrir inquérito para averiguar indícios de crime! Realmente!

DRA. ROSÁRIA – Em 2002, um senhor septuagenário, de nome Pépi de Tchetchena, lavrador, que morava em Achada Fátima, foi encontrado morto numa horta onde ele cultivava como rendeiro. Tinha os olhos furados e os seus órgãos genitais mutilados. Foi detido um suspeito, ouvido na Procuradoria, por fim mandado em paz para a casa. E em menos de uma semana ele já se encontrava fora do país.

JORNALISTA – E segundo foi noticiado na altura, havia evidências bastantes para manter o suspeito em prisão preventiva. Mas não era possível. O suspeito pertencia à elite poderosa.

DRA. ROSÁRIA – Pertencia à classe dos Copo Leite. Ora, em 2013, um jovem que residia em Cutelinho, foi vítima de uma bala perdida quando regressava à casa depois de um árduo dia de labor. Por azar, há já uns metros de sua casa, deparou com dois jovens altercando-se, tendo um deles disparado uma pistola e, involuntariamente, a bala o atingiu mortalmente.

JORNALISTA – Teve mesmo azar!

DRA. ROSÁRIA – E mais uma vez, por a Vítima ser coitado, ninguém foi ouvido na Procuradoria… não houve responsabilização. Em 2014, a Liné de Beatriz, uma adolescente com acentuada deficiência e grau de incapacidade, foi amordaçada, estuprada e estrangulada até a morte na zona de Tchetchénia em Achada Fátima. Em 2015, um jovem que residia em Renque Purga e que respondia pelo nome de Sandro, desapareceu e nenhuma autoridade fez ou promoveu buscas conforme manda a lei, por um lado, ou a moral, por outro, como observância Constitucional e pelo respeito à pessoa humana. Nem a Procuradoria da República, nem a Proteção Civil, nem os Bombeiros ou a Polícia Nacional cumpriu com a sua obrigação.

JORNALISTA – Em que mundo estamos a viver, meu Deus?! E até onde vamos chegar?

Deixam escapulir um sorrisinho um tanto quanto insípido.

DRA. ROSÁRIA – Em 2016, um ex-emigrante em França, o Felismino, foi assassinado em via pública, por volta das 6h00 de manhã, em Achada Fátima, com 11 tiros de um revólver de calibre 38 mm. Calibre de uma arma de guerra. Porém, poucos meses depois, o principal suspeito foi surpreendido em flagrante na posse de um revolver de calibre 38 mm, escondido na cabine da sua viatura. Entretanto, se ele deu 11 tiros ao inocente, o tribunal deu-lhe apenas um TIR e encontra-se a viver fora de Cabo Verde, possivelmente a financiar os seus pupilos que por aqui se encontram encalhados nas fumaradas da Padjinha, cocaína e heroína e, naufragados nas ondas do grogue-fede.

JORNALISTA – A justiça anda a brincar com a gente.

DRA. ROSÁRIA – Em 2017, um jovem, filho de pobre, foi morto após sofrer um golpe à catanada, mas foi como se um balde de água suja fosse atirado para uma duna de areia exposta aos raios do sol, num meio-dia de um Verão Tropical. Ainda em 2017, dia 24/10, Edmilson Fernandes Tavares, o DEGO de Nezinho Lobo Tabari, foi bárbaro e cobardemente assassinado.

JORNALISTA – Desculpe Doutora! Se a Doutora não se importa, deixe-me ler aqui um artigo que extraí do Jornal Online Santiago Magazine. É um texto longo mas de uma dulcificada leitura. Vale a pena lê-lo.

DRA. ROSÁRIA – Quem é o articulista?

JORNALISTA – Armindo Martins Tavares, um dos 20 irmãos do Edmilson. O mais velho entre os varões. Também é jurista, embora não exerce. Prefere dar aulas e escrever peças de teatro com sátiras mordazes que fazem titubear o nosso sistema judicial e a desgovernação do país.

DRA. ROSÁRIA – Então ele deve ser muito odiado por cá! É o decalque do Dr. Amadeu Oliveira.

JORNALISTA – Tal e qual! Ambos são odiados e perseguidos. Mas, de uma coisa ninguém lhes consegue enodoar. Ninguém lhes consegue desmerecer e dizer que são incompetentes naquilo que fazem.

DRA. ROSÁRIA – Isto é um bocado contra producente. Incompetente é o que mais há nesta terra.

JORNALISTA – Então vou ler a exposição. Tudo terá começado como se fosse um dia normal ou como qualquer outro oponente da noite para esse jovem, o qual, sobre o seu peso da idade somavam apenas mais 35 doze luas. E gozava de uma saúde férrea, tinha uma postura descontraída para com todos: colegas, mais velhos, mais novos, homens, mulheres e até pelas crianças. Fisicamente era tão possante como mais nenhum outro mancebo. Dotado de uma compleição mediana, mas todos se reconheciam que, mano a mano, nenhum outro pelejava com ele. Plácido e inconscientemente ditoso, parecia uma criatura emoldurada com um objetivo claro e específico. O cabelo que outrora era um pouco do tipo black ou hippie dos anos 60/70, acabou-se por despedir do seu couro cabeludo tão cedo quanto ele deste mundo. Pois, era calvo ou careca e, quando não rapava a barba parecia o mago Gaspar, o representante bíblico da raça amarela ou asiática. A tez era bastante clara, resultado de uma perfeita mistura ou acasalamento de uma Europa branca com uma África caprichosamente negra. Eram primeiras horas do dia 24 de Outubro de 2017, pouco depois de terça-feira ter recebido a chave do alvor das mãos de segunda-feira, quando Edmilson entrou na casa do falecido pai, onde, também, morava uma irmã, um filho menor e alguns sobrinhos. Mudou de roupa, saiu e foi comprar uma tigela de sarabulho numa vizinha, uma açougueira que, normalmente, usa um maçarico de labareda azul, qual chamas do fogo cuspido por um dragão, ou da forja do coxo Deus Hefesto, para chamuscar porco ou mãos e cabeça de vaca, matéria-prima imprescindível para a confeção do disputado sarabulho. Levou um pequeno tacho com sarabulho para a casa, comeu e deixou um pouco de sobra no referido tacho dentro do seu quarto. A casa do pai, onde ele morava, não tem terraço algum. É uma casa simples, de único piso, contendo alguns compartimentos de teto coberto com betão de cimento armado. Ora, sob o manto negro daquela terça-feira que mal acabara de receber a chave noturna das mãos do seu predecessor [segunda-feira], Edmilson rumou-se, acompanhado de um vizinho e colega da infância, o CABRAL, neto do Marçal da Costa, para uma paródia num quiosque denominado NHAFRÓZA, em Cutelinho, arrabalde da cidade de Pedra Badejo em Santa Cruz, depois de se deambularem de taberna em taberna, quiosque em quiosque acervejando, e o pagador, sempre o assinalado para receber a insígnia do último e eterno adeus para o Hades ou seja, a morada dos mortos. Por volta das três horas da manhã, ou da madrugada, se quiser, o Olavo de Nha Menininha Soares, técnico da construção civil, despediu-se da malta, daí do quiosque, entrou na sua viatura para ir dar trabalho por umas horas aos seus olhinhos já sonâmbulos. ATENÇÃO! Eram três horas da madrugada, já do dia 24 de Outubro de 2017, uma TERÇA-FEIRA. E o Edmilson continuou lá no quiosque impávido e sereno, sempre ao lado do acompanhante, o Cabral, e de mais vivalmas saciando o apetite. Quiçá, se alguém lhe dissesse que a sua vida estaria por uns segundos, certamente, em duelo por uns momentos entrariam. A caixeira, balconista ou vendedeira do quiosque, a NINA, neta da Naia e do Nené, confirmou a presença do Edmilson aí nessa fatídica noite-riba. Durante todo o clarão do portentoso Hélio de terça-feira, dia 24/10/2017, muito pouca gente, não mais do que meia dúzia, certamente, terá visto Edmilson, e pode-se jurar, de pés juntos, que o viram com o corpo já distante da vida. Nos primeiros alvores de QUARTA-FEIRA, 25 de Outubro, apenas um dia após a paródia no quiosque NHAFRÓZA, acompanhado do amigo e colega de infância, o CABRAL, neto do Marçal da Costa, eis-que o Edmilson Tavares é encontrado comodamente colocado numa lixeira, atrás da casa onde morava, com um lado da cara completamente esmagada, o pé direito serrado, os olhos furados, a língua cortada, os dentes arrancados e os testículos esmagados. A parte da cara que ficara exposta estava com queimaduras como se tivessem usado, para o efeito, um maçarico. E estava pintada de negro. ATENÇÃO! Terá caído de um terraço que nem existe? O pé direito não partiu, mas sim, sapou? [Arrancou] O queixo estava intacto, mas os dentes quase todos arrancados e a língua sapada [cortada]; uma parte da cara esmagada, a outra queimada e pintada. Entretanto, não havia uma gota de sangue no local onde o corpo foi encontrado. Ou será que num período de tempo não superior a 30 horas o sangue terá sumido por completo? Ou, conforme a médica legista, que nem ao local para proceder ao levantamento do corpo foi, disse ao irmão mais velho que a pata do pé, que nunca apareceu, terá sido comigo por um cão, esse estúpido cão, que preteriu as pernas, as coxas, as nádegas e a barriga para roubar apenas uma pata ao Edmilson, terá também bebido todo o seu sangue e lambido o chão? Edmilson terá caído de um terraço e não ficou sulcado nenhuma marca ou sinal de que o corpo terá escorregado ladeira-abaixo? E por que é que o corpo não estava sujo e coberto de pó, nem os lixos sobre os quais ele jazia inerte estavam espalhados ou remexidos? Contem melhor as estórias, senhores da Judiciária, por que hoje já não se engana uma criança em como nasceu de uma flor da laranjeira. Caros leitores, como nós os familiares do Edmilson somos uns asnos, pelo menos assim nos consideram os senhores da Polícia Judiciária e o Procurador da República da Comarca de Santa Cruz, ajudem-nos a equacionar algumas questões. Para tal, colo aqui o extrato, na íntegra, do Comunicado:

«Em comunicado a Policia Judiciária  diz que está convencida  que a morte do guarda-noturno Edmilson Tavares  cujo corpo foi encontrado numa ribanceira na localidade de Achada Fátima, em Santa Cruz, teve morte por acidente, provocado por queda do terraço da sua própria residência, no dia 25 de Outubro. A convicção da PJ está baseada no exame pericial que revelou “a causa da morte foi queda acidental, que gerou um Politrauma e amputação traumática do membro inferior.” Quando foi encontrado   cadáver encontrava-se em avançado estado de decomposição e sem identificação“. O mesmo estava em estado de liquidificação, com protusão da língua e ocular, e de uma forma geral, aumento da volumagem do tecido do corpo. O exame médico constatou, ainda, fletenas (ampolas com conteúdo fétido de coloração escura), característico de putrefação, edema de escroto e deformidade da face, constatações resultantes do exame de autópsia, devidamente documentado”.

Perante estes dados, a PJ enviará as conclusões desta investigação ao Ministério Publico para avaliação e decisão»



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Comentários  

0 # Manuel Miranda 12-05-2019 11:50
Uma aberração vergonhosa da injustiça com a humilde população de Santa Cruz. Mas, a justiça do Senhor jamais falhará. Que Deus ilumine o Concelho de Santa Cruz e protege o seu rebanho.
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