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Por: Armindo Tavares

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LXXI CENA

Punoi e Beluca planeiam assaltar o Sr. Casimiro que acaba de entrar num Banco há poucos metros da Praça onde eles se encontram, dentro de um carro (roubado) estacionado, sem chapa de matrícula. Sr. Casimiro leva uma pasta e uma mala com um computador portátil.

BELUCA – Tu vais segui-lo milimetricamente. Mantém-lhe a marcação cerrada… Ya?

PUNOI – Ya! Arrebato-lhe a mala do portátil?

BELUCA – Não. Primeiro tenta saber o que é que ele vai fazer ao Banco: se vai fazer depósito ou levantamento. Se for levantamento, atuaremos quando ele sair. Se for depósito… seguir-lhe-emos a partir de agora e agiremos na próxima oportunidade. Não precipitemos. Assim diz a regra de um bom ladrão.

PUNOI – Ya… fixe!

BELUCA – Nos assaltos convém sempre levar dinheiro. Nunca objetos. O portátil terá riscos ao tentar vendê-lo depois. Tive um amigo, quando estava nos Estados Unidos - desgraçado, morreu com uma bala no peito, poucos dias antes de me repatriarem -, que foi vender um portátil ao filho da pessoa a quem o tinha roubado.

PUNOI – Poxa!… O gajo teve azar, pá!

BELUCA – Teve azar porquê? Por ter levado um tiro no peito?

PUNOI – Porque depois de tanto trabalho foi vender o portátil ao filho do patife!

BELUCA – Ele não teve azar. O dono é que teve sorte. O portátil não era dele!

PUNOI – Já imaginaste o trabalho que ele teve para roubar o portátil… e ir entregar de bandeja ao bandido?!

BELUCA – Ok.

PUNOI – Já agora… sabes por que é que José Rádio tem esse nome?

BELUCA – Talvez por chamar-se José… e concerta rádios!

PUNOI – Dele foi mesmo azar. Acabou algemado, na Frigideira e com o nome mais comprido.

BELUCA – Como assim?

PUNOI – Roubou um rádio e quis ir vendê-lo na ilha do Fogo. Na sala de embarque do Aeroporto, chega o dono e ele tenta refilar. O dono chamou um Polícia que estava ali de serviço e disse-lhe que dentro do rádio tinha 17 contos guardados. O Polícia abriu o rádio e lá estavam, de facto, os 17 contos.

Riem-se.

BELUCA – Se ele soubesse que dentro do rádio estavam 17 contos, abria-o, tirava o dinheiro e deitava a porcaria do rádio lá pra o lixo.

PUNOI – Imagina só… ele ia vender o rádio por 6 contos!

BELUCA – Coitado. Isto, de facto, é mesmo azar.

PUNOI – Daí, o polícia que o prendeu ficou a chamar-lhe José Rádio.

Riem-se novamente.

BELUCA – Conforme estava a dizer, tu só vais seguir-lhe os movimentos. Se levanta o dinheiro, quanto é que levanta, onde é que o guarda e para onde vai depois. Se for depositar, procura saber quanto é que depositou. Perfeito?

PUNOI – Perfeito!

BELUCA – Ele não pode perceber que estás a segui-lo. Vai disfarçado. Depois acabamos de fumar o resto do charro.

Punoi vai seguindo o homem que sai do Banco e dirige-se à Rua Pedonal, entrando-se num restaurante.

LXXII CENA

Sentado à mesa do Restaurante, o senhor Casimira liga o auscultador ao portátil e fica a ouvir músicas enquanto lê os e-mails.

EMPREGADA – Bom dia, senhor.

  1. CASIMIRO – Baum dia.

EMPREGADA – Deseja alguma coisa?

  1. CASIMIRO – Ai nau… caldo de arenque com banana verde e xerém, e um copo de vinho manekon.

EMPREGADA – É num instante.

  1. CASIMIRO – Bem malaguetado.

EMPREGADA – Sim, senhor. Com licença.

Entra um menino com aspecto de muito sofrimento, fome e miséria. Dirige-se ao Sr. Casimiro numa voz desalentada.

MENINO DE RUA – Senhor, não tem umas moedinhas?

  1. CASIMIRO (levanta a cara) – Não tenho, menino.

MENINO DE RUA – Só uma moedinha para comprar um pão.

  1. CASIMIRO – Está bem, eu compro um. (Abre o e-mail e fica distraído a ler) Essa música leva-me até Mindelo e às boas lembranças dos tempos idos do Festival da Baia das Gatas.

Vai ouvindo a música e o menino, pacientemente, ao pé dele.

LXXIII CENA

Da porta do Restaurante Punoi envia uma mensagem via telemóvel à Beluca.

PUNOI – «Levantou 300 contos e meteu na pasta. Está no 5º restaurante depois do Mercado. Já pediu um almoço».

BELUCA (responde a mensagem) – «Fica ao pé dele. Tenta saber para onde vai depois e com quem se vai encontrar. Aliás, aplica o truque de sempre».

PUNOI – «Ok.»

Punoi entra, senta-se numa mesa e pede um sumo de laranja. Sr. Casimiro está entretido a ler os e-mails e a ouvir a música de Frank Mimita, repetindo estas letras:

https://www.youtube.com/watch?v=KkF2-s8Q4kM

Dja N xinti ma es kre mata-m [Sinto que querem-me matar]

Mas mi, si N ka kre morrê… [Mas assim eu não quero morrer…]

Mi N kre mórre mórti di Nhor Dés [Quero morrer uma morte natural]

Oh kriolu… kriolu bo e rasa muá [Oh crioulo… crioulo és a minha raça]

MENINO DE RUA – Senhor, peça para colocar margarina e queijo.

  1. CASIMIRO (percebe-se que o menino está aí) – Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar. Estou muito ocupado. Está bem? (A Empregada chega com a refeição) Já agora… peço desculpa…

EMPREGADA – Quer que mande o menino embora?

  1. CASIMIRO (atrapalhado) – Está tudo bem. Deixe-o ficar. Traga um pão e mais uma refeição decente para ele.

MENINO DE RUA (senta-se à frente do Sr. Casimiro) – Senhor, o que está a fazer?

  1. CASIMIRO – Estou a ler uns e-mails.

MENINO DE RUA – O que são e-mails?

  1. CASIMIRO – São mensagens eletrónicas mandadas por pessoas via Internet. (Olha nos olhos do menino) É como se fosse uma carta, só que via Internet.

MENINO DE RUA – Senhor, você tem Internet?

  1. CASIMIRO – Tenho, sim. É muito essencial no mundo de hoje.

MENINO DE RUA – O que é Internet?

  1. CASIMIRO – É um local no computador onde podemos ver e ouvir muitas coisas: notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo. É um mundo virtual.

MENINO DE RUA – E o que é virtual?

  1. CASIMIRO (quase aborrecido, abana a cabeça) – Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar… é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse. (Chega a Empregada com uma travessa de comida e coloca-a frente do menino. Este come com muito apetite) Menino, entendeste o significado da palavra virtual?

MENINO DE RUA (com a boca cheia) – Sim. Também vivo nesse mundo.

  1. CASIMIRO – Tens computador?!

MENINO DE RUA – Não. Mas o meu mundo é vivido dessa maneira… virtual.

  1. CASIMIRO – Virtual não existe! Só existe na nossa imaginação.

MENINO DE RUA – Pois. Eu vivo imaginando coisas… vejo-as na minha frente, sinto-as… mas não passam de simples visões e meros sentimentos.

  1. CASIMIRO – Mas porquê, menino?

MENINO DE RUA – Olha só: a minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a vejo; eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome e eu dou-lhe água na colher para ele pensar que é sopa…

  1. CASIMIRO – Já estou a ver. Para ele pensar que é sopa virtual!

MENINO DE RUA (abana a cabeça afirmativamente) – A minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo outra vez…

  1. CASIMIRO – E o teu pai, faz o quê?

MENINO DE RUA – O meu pai está na cadeia há já muito tempo.

  1. CASIMIRO – Tens quantos irmãos?

MENINO DE RUA – Éramos nove irmãos. O mais velho morreu, há três anos, com anemia e icterícia. Tinha catorze anos. Agora, a mais velha é essa aí que lhe falei. Tem quinze. (Sr. Casimiro comove-se e suas lágrimas caem sobre o teclado) Mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de Natal, e eu a estudar para vir a ser um médico um dia. (Sr. Casimiro olha para ele com os olhos molhados) Isto é tudo virtual. Não é, senhor?

O menino come muito pouca comida.

  1. CASIMIRO – Acaba de comer para eu pagar. Tenho de me ir embora.

MENINO DE RUA – Já comi o bastante. Este aqui que deixei vou levar para a casa para os meus irmãos. Vão ficar contentes. (Chega a Empregada) A senhora não tem um saco que me arranje para levar este resto de comida para os meus irmãos?

A Empregada não responde.

  1. CASIMIRO (para Empregada) – Quanto é a conta?

EMPREGADA – São oitocentos escudos.

  1. CASIMIRO – Posso pagar com euros?

EMPREGADA – Tal por tal?!

  1. CASIMIRO – Está bem!

EMPREGADA – Pode.

  1. CASIMIRO (dá-lhe uma nota de 100€ e volta para o menino) – Como te chamas?

MENINO DE RUA – Menino de Rua.

  1. CASIMIRO – Moras muito longe daqui?

EMPREGADA – Não! Ele mora já aqui perto… uns cem metros. Está aqui todos os dias a fandatar os restos de comida dos clientes…

  1. CASIMIRO – Podes comer a tua comida, depois vais trazer os teus irmãos para virem comer também. (Para Empregada) Desconta esta conta, ficam aqui os trocos, os irmãos dele vêm comer e, o que sobrar, ele traz a mãe deles para vir buscar. (Para o menino) Percebeste?

MENINO DE RUA (com um sorriso que toca profundamente à qualquer coração) – Brigado senhor, você é muito bom… muito humano!

O menino continua a comer, entra um amigo do Sr. Casimiro.

  1. CASIMIRO – Tens que dar mais palha ao teu cavalo, pá! Acabei agora mesmo de almoçar, e já me ia a sair, é que tu vens.

AMIGO – Já devia ter chegado há muito tempo. Apanhei um furo no pneu, tive que ir à oficina remendar câmara-de-ar. (Depois de cumprimentar o Sr. Casimiro, ele olha para o menino que come avidamente) – É neto ou sobrinho? Filho sei que não é.

  1. CASIMIRO (abana a cabeça antes de responder) É um menino de rua.

AMIGO (comovido) – Custa acreditar que a Natureza produz o suficiente para que cada criatura viva o seu dia condignamente!

  1. CASIMIRO – Ya, meu irmão. Infelizmente, a Natureza tem sido madrasta para muitos… supermãe para poucos. Tem sido muito gressiva, pá!

AMIGO – E nós, enquanto essa realidade cruel nos rodeia, fazemos de conta que não nos apercebemos!

Sr. Casimiro levanta, guarda o portátil na mala, deixa-o em cima da mesa, mete as mãos nos bolsos e vira para a plateia.

  1. CASIMIRO – Neste instante, meus irmãos, estou tendo a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias.

AMIGO – Enquanto uns morrem obesos por comerem demais…

  1. CASIMIRO – O infeliz irmão deste pobre morreu de desnutrição e de uma doença sem possibilidade de se curar.

AMIGO – Muito bem falado, Sr. Casimiro Teixeira. Falaste… e disseste.

Abraçam os dois ao Menino, com uma nostalgia profunda, ao som da música “Terra Bo Sabê”, https://www.youtube.com/watch?v=C3ktIL_YWOU de Renato Cardoso.

  1. CASIMIRO – Pede uma coisa rápido, porque vou ter que sair.

AMIGO – Vais aonde?

  1. CASIMIRO – Vou sentar-me um bocadinho na Praça e espero o contabilista. Ele vem buscar o dinheiro para pagar o pessoal. Amanhã já é o fim do mês, os trabalhadores têm que receber.

PUNOI (envia um novo SMS à Beluca) – «Vai à Praça esperar o contabilista».

Enquanto Sr. Casimiro arruma as coisas e prepara para sair.

EMPREGADA – O que é que amigo deseja?

AMIGO – Traz-me um Logan sem gelo.

  1. CASIMIRO – Recebe logo porque vou ter mesmo que me sair.

PUNOI (recebe SMS)«Ok».

  1. CASIMIRO (Conta umas moedas, dá à Empregada e volta para amigo) – Peço desculpas, mas tenho mesmo de me ir.

AMIGO – E tu, não tomas nada?

  1. CASIMIRO – Bebi um copo de vinho ao almoço… chega.

AMIGO – Depois vou ter contigo aí na Praça. Acabo só de beber este Whisky.

Sr. Casimiro despede-se do amigo com um abraço bem apertado. Punoi sai um pouco antes e envia uns SMS à Beluca.

PUNOI – «Está a caminho. E estou em cima dele».

LXXIV CENA

Sr. Casimiro senta-se e encosta tranquilamente num banco de Praça. Põe a mala do portátil em cima do banco ao seu lado e a mala do dinheiro no chão entre as pernas.

PUNOI (dirige-se-lhe tranquilamente) – Desculpe, senhor. Como se chama?

  1. CASIMIRO – Sr. Casimiro Teixeira.

PUNOI – Sr. Casimiro Teixeira, já reparei que o senhor é muito simples…

  1. CASIMIRO – Ai nau. Simples como? Porque ajudei uma família que precisava?

PUNOI – Não é isso.

  1. CASIMIRO – Então… desculpa! Eu sou migrante… vou e venho… venho e vou…

PUNOI – Eu não sei o que é que o senhor tem nesta pasta, mas é muito perigoso andar com pasta aqui no Platô. E pior ainda deixá-la no chão como a tem.

  1. CASIMIRO – Achas que haverá corajoso que venha roubar o que é meu? Isto é meu, pá! Eu sou migrante… estou acá… estou alá… sou migrante.

PUNOI – Os rapazinhos do Platô são muito gressivos, pá. Não lhe roubam o que é seu. Tomam-no. Você nem vai perceber as intenções deles.

  1. CASIMIRO – Meu sobrinho, já te disse que sou um migrante. Vivo muitos anos no estrangeiro. Vou e venhotou alá, tou acá… tou acá, tou alá, nunca houve algo… não sei pá. Nunca fui assaltado. E não é aqui que sou cidadaninha que me vão assaltar.

PUNOI – São gressivos, pá! Os jovas… são gressivos, pá. Muito cuidado é pouco. Os jovas são muito gressivos.

  1. CASIMIRO – Os jovas, de facto, são gressivos, pá. Mas em toda a parte há um bocadinho de baum… um bocadinho de baumbaum e mau… mas eu tenho um bocadinho de… sei lá?! Mas são gressivos, pá. Muito gressivos, pá.

PUNOI – Pois, são. Eles chegam perto do senhor com conversas mansas, às vezes dão-lhe alguns conselhos, o senhor chama-lhes de sobrinho, eles aproximam-se de si e da pasta…

Enquanto ele fala, vai fazer os movimentos, mostrando como se faz.

  1. CASIMIRO – Mas isto é meu, podes ver, isto é meu…

PUNOI – Eles não querem saber. Enquanto estão a falar consigo, pegam na pasta e mostram-lhe como é que fazem…

Com a pasta na mão, Punoi foge e tapa a cara com um capucho. O Menino de Rua surge à frente dele e tenta retirar-lhe a mala. Punoi puxa de uma pistola Boca-Bedju e dá tiro na cara do Menino de Rua que cai morto. Sr. Casimiro puxa uma pistola de calibre 6.35mm, Beluca sai de dentro do carro estacionado, encarapuçada e, com uma Beretta dispara uma rajada contra Sr. Casimiro. Volta a entrar no carro e foge.



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