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Por: Armindo Tavares

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LXII CENA 

Nhu Seis sai da Cadeia depois de cumprir 6 meses de prisão. Agora e conhecido pelo nome de José Rádio. Ele e a Beluca estão a fumar um charro e a beber um copo de whisky.

JOSÉ RÁDIO – Pois é, Beluca! Tenho um plano que, se conseguirmos realizá-lo, sairemos de vez dessa porra.

BELUCA – Tu sabes que se há coisa que quero sair-me dela, é da porra.

JOSÉ RÁDIO (tira uma folha de papel e abre-a em cima da mesa) – Este mapa fi-lo na minha cela quando estava na Cadeia.

BELUCA – Eu pensei que tu não sabias ler!

JOSÉ RÁDIO – Tu viste-me a ler?

BELUCA – Não foste tu que desenhaste este mapa?

JOSÉ RÁDIO – Desenhar é ler?

BELUCA – Se não sabes ler como é que consegues desenhar?

JOSÉ RÁDIO – Cala a boca e deixa-me explicar-te. (Aponta para o mapa) Aqui está a loja do Xinóca. As 18 horas, quando estão a preparar para fechar a loja, uma pessoa entra e esconde-se atrás da porta. Com pressa para saírem, levam a porta na mão e a pessoa fica la dentro.

BELUCA – A forma de entrar já pensaste e acho bestial. Mas já pensaste como sair?

JOSÉ RÁDIO – Deixa-me acabar.

BELUCA – Ok. Fala.

JOSÉ RÁDIO (põe-lhe a mão no ombro) – Como vieste repatriada dos Estados Unidos, sei que tens muita experiência nessas coisas…

BELUCA – Então diz-me o que é que eu tenho que fazer. Qual vai ser o meu papel.

JOSÉ RÁDIO – Quero que arranjes um puto capaz de entrar na loja e ficar escondido atrás da porta.

BELUCA – Isso não é problema. O Punoi é formatado para isso.

JOSÉ RÁDIO – Esse puto não. Ele é muito confuzento.

BELUCA – Ele é confuzento mais contigo porque andas a morder-lhe a velha.

JOSÉ RÁDIO – Mas não há hipótese de arranjar uma outra pessoa?

BELUCA – Melhor do que Punoi… é impossível.

JOSÉ RÁDIO – Então fala com ele.

BELUCA – Ok. Vou falar com ele.

JOSÉ RÁDIO – Há-que ser numa sexta-feira. (Abre uma caixa de ferramentas e mostra-lhe um molho de chaves, um martelo, uma grosa, uma lima, uma serra e algumas chaves de fenda) Tem que ser num fim-de-semana.

BELUCA – Sim, continua.

JOSÉ RÁDIO – O puto esconde-se atrás da porta, às tantas da noite, combinamos uma hora, ele abre-me a porta e eu entro.

BELUCA – Não te lembras que há um Polícia ali a fazer ronda toda a noite?

JOSÉ RÁDIO – O Polícia que estará de serviço nesses dias, sexta e domingo, é Pila Ku Nha Boi. Ele entra as 2 da manhã e sai as 6. Conheço-o bem e tenho-o devidamente controlado. Ele tem mania de andar sempre com a cara postada no chão.

BELUCA – Como se é filho de uma porca.

JOSÉ RÁDIO – E com as mãos atrás das costas, marcando os passos …

BELUCA – Como um soldado no quartel.

JOSÉ RÁDIO – Pocha, Beluca! Deixa um gajo falar, pá! (Beluca dá um riso) Quando ele vai numa direção, não olha para trás.

BELUCA – Ele é carneiro ou o quê?

JOSÉ RÁDIO – Estás bêbada, ou estás drogada, Beluca?

BELUCA – Porquê?

JOSÉ RÁDIO – Não me deixas falar!

BELUCA – Não estás a falar?! Então queres que te deixe falar mais.

JOSÉ RÁDIO – Ok. Então deixa-me acabar de falar.

BELUCA – E tu sabes se num desses dias não lhe dará na tola para virar a cara e olhar para trás?

JOSÉ RÁDIO – É preciso muito azar.

BELUCA – É sempre bom prevenir.

JOSÉ RÁDIO – Mas tudo vai dar certo.

BELUCA – Nessas coisas deve-se ponderar e equacionar todas a possibilidades e probabilidades.

JOSÉ RÁDIO – Estão ponderadas todas as conivências e inconveniências. Já contei quantos passos é que ele dá de uma ponta da rua para a outra. (Aponta para o mapa) Desta ponta aqui até ali, ele dá 28 passos e demora 4 minutos. Quer dizer que da porta para o fim da rua, ele faz 14 passos e demora 2 minutos. Estás a entender-me?

BELUCA – Acaba de explicar.

JOSÉ RÁDIO – Às três da madrugada, eu fico na esquina a espreitá-lo. Quando ele começar a andar e passar da porta por lá, estarei combinado com o puto, ele abre-me a porta e eu entro. Lá dentro trabalharei estas chaves de forma a abrir os cofres, as malas e todas as maletas que lá houverem.

BELUCA – Não se ouve o baralho quando limas a chave?

JOSÉ RÁDIO – Fico no fundo da loja, entre caixotes e mercadorias. De qualquer maneira, se ouvirem barulho podem pensar que são ratos a roer qualquer coisa.

BILUCA – E se de repente Xinóca resolver passar por loja?

JOSÉ RÁDIO – Ele há-de me lá encontrar… com martelo na mão.

BILUCA – Olha que muitos chineses têm karaté.

JOSÉ RÁDIO – Eu também estarei lá preparado com o meu marteloté.

Riem-se e dão umas goladas no copo de Whisky.

BELUCA – E eu… entretanto, qual será o meu outro papel?

JOSÉ RÁDIO – Tu, no domingo, lá p’ras três da madrugada, vais ficar na esquina para nos protegeres.

BELUCA – Proteger-vos como?

JOSÉ RÁDIO – Ficas armado e em alerta máximo. Se a coisa der por torto… se o Pila sacar-nos… limpa-lhe o sebo. Viste a quantidade do ouro que está na montra?

BELUCA – E se o Polícia for mais rápido e sacar primeiro da arma?

JOSÉ RÁDIO – Vira essa boca pra lá! Não pense em coisas ruins. Iremos com fé em Deus!

BELUCA – Fé em Deus para ir roubar?! Seria melhor se fossemos com fé no Diabo. Talvez nos valesse melhor.

JOSÉ RÁDIO – Ao sair, procedemos da mesma forma. (Aponta para o mapa) Quando o Polícia passar da porta e vai para baixo, saímos rapidamente e entramos no beco.

BELUCA – Estou a brincar. Vai dar tudo certo. Podes contar comigo.

JOSÉ RÁDIO – Assim é que eu gosto. E se tudo der certo, compraremos bilhete de passagem e vamos a Dacar. Dali compramos visto e entramos na Europa.

BELUCA – Vou combinar com Punoi e ainda hoje a tarde dou-te a resposta.

JOSÉ RÁDIO – Ok.

Fazem estalidos com os dedos, um brinde nos copos e uma sorvedela no copo do Whisky.

BELUCA – Merci beaucoup, garçon.

JOSÉ RÁDIO – Então eu é que mereço o teu cu. E gardion és tu.

BELUCA – Deixa-te de armar em burro, Zé Rádio. Merci beaucoup, quer dizer muito obrigado. E garçon é rapaz em francês.

JOSÉ RÁDIO – Ahn! Então desculpa-me! Vocês que vêm do estrangeiro são mascavados! Pensei que disseste que mereces o meu cu, e que sou gardion. Deixei-te saber que não sou nenhum paneleiro.

BELUCA – Como é que eu ia dizer que mereço o teu cu, se sou mulher?! (Riem-se) Como disseste que vamos a Dacar, estou já a treinar falar francês.

JOSÉ RÁDIO – Ainda nem foste, já estás a querer falar francês. Estás como um amigo meu. Foi à França com visto falso, nem chegou a sair do aeroporto, quando chegou a casa, todo o mundo a chorar, com pena dele, uma galinha passou por baixo do banco onde ele estava sentado, ele deu um xuto na galinha e disse: Xó, galinha, Ça vas pas:

LXIII CENA

Beluca está sentada no sofá com pernas cruzadas. Tem um copo com whisky a frente e um cigarro “CAMEL” entre os dedos.

BELUCA – Puto, um amigo apresentou-me um projeto interessantíssimo, cuja tua participação será fundamental.

PUNOI – Para quando?

BELUCA – Para sexta-feira. Amanhã ele vem cá e explica-te melhor.

PUNOI – Tudo bem.

BELUCA – Como és magrinho, dás perfeitamente para aquilo que ele pretende.

PUNOI – Ok. (Acende um charro e fuma) Queres? (Beluca aceita) E quem é o gajo?

BELUCA – Sei que não o curtes, mas não tem nada a ver.

PUNOI – Não me digas que é o José Rádio?

BELUCA – É ele. Mas o plano é interessante.

PUNOI – Mas a mim não me interessam os planos dele. Eu não me alinho com ele.

BELUCA – Olha primeiro que plano é que é.

PUNOI – Não quero saber.

BELUCA – É um plano simples e que nos poderá valer milhares de contos.

PUNOI (olha para Beluca com olhos arregalados) – Ah é! Então que plano é?

BELUCA – Um assalto à loja do Xinóca. Vamos tirar todas as jóias que estão na montra e todo o dinheiro dos cofres.

PUNOI – Ok. Eu aceito.

LXIV CENA

Uma maleta cheia de dinheiro e objetos de ouro está no chão diante deles.

JOSÉ RÁDIO – Ao todo estão aqui 27 mil contos em dinheiro.

BELUCA – Acho que em ouro ainda são mais.

JOSÉ RÁDIO – Onde é que isto vai ficar guardado?

BELUCA – Não te preocupes. O mais difícil está feito.

PUNOI – Quando é que vais levar isso para guardar?

BELUCA – Não vais comigo?

PUNOI – Eu não. Tenho de me dormir porque amanhã vou ter uma tarefa delicada.

BELUCA – Então o Zé vai comigo.

JOSÉ RÁDIO – Aonde?

BELUCA – À casa da mãe dele guardar estas coisas.

JOSÉ RÁDIO – Ok. Não há problema.

BELUCA – Guardamo-las e esperamos uns dias para vermos as reações. Mas acho que o trabalho foi bem feito. O teu plano foi bestial.

JOSÉ RÁDIO – Obrigado.

BELUCA – Tiramos 500$00 para cada um de nós e levamos o resto para guardar.

PUNOI – Bem, eu vou dormir. Adeus.

BELUCA E JOSÉ RÁDIO – Até amanhã.

JOSÉ RÁDIO – Então vamos lá. Eu também depois vou-me dormir. Amanhã vou almoçar ao Sucupira, compro 20$00 de cigarro e fico aí a lavar os carros como costumo.

BELUCA – Assim ninguém desconfiará de ti.

JOSÉ RÁDIO – Então vamos.

LXV CENA

Grande paródia em casa da Bia. Drogas e álcool não faltam. José Rádio está sentado ao lado da Bia e Punoi está cheio de ciúme.

BELUCA – D. Bia, as nossas coisas estão bem guardas?

BIA – Guardadinhas da silva!

PUNOI – Espero que continuem.

BIA – Por quê filhote?

PUNOI – Por nada. Aquele palhaço já tomou juízo?

BELUCA (à Bia) – Ele está a chamar palhaço a quem?

BIA – É o irmão dele. O mais velho.

JOSÉ RÁDIO – Ele tem razão. Danilson tem que perceber que o pai está preso e que vocês têm que se desenrascar.

BIA – Aquele menino se tivesse estudos daria padre. É muito rigoroso! Tudo tem que ser à maneira dele.

PUNOI – Ele já tem 16 anos. Ponha-o fora daqui e vê se não toma juízo.

BIA – Ele já começou um trabalho com Nhu Desempate e está a estudar.

PUNOI – Faz bem. Pelo menos alguma coisa ele consegue fazer.

BIA – Já não vinhas cá há muito tempo, mas ele agora está muito melhor. Já não me faz aquelas perguntas que antes me fazia: «Onde estiveste; com quem estiveste; quem te deu isto ou aquilo, quem é aquele rapaz que dormiu cá ontem».

PUNOI – Esse de homens dormirem aqui em casa, eu também sou contra.

BIA – Está bem, meu filho! Já não faço mais. Agora só tenho o José.

Ela abraça José Rádio e dá-lhe um beijo.

BELUCA – A tua mãe quer fazer-nos ciúmes, Punoi. Não reparaste?

Ela abraça Punoi e dá-lhe beijos também.

PUNOI – Que trabalho é que ele está a fazer com Nhu Desempate?

BIA – Está pastor de cabras.

PUNOI – Quanto é que lhe paga?

BIA – Quarenta escudos por dia.

PUNOI – Palerma! E o que é que ele está a estudar?

BIA – Está a tentar fazer o 2º ano para ver se entra na Polícia ou como Professor.

PUNOI – Se ele entrar na Polícia vocês todos vão sair desta casa e vão morar la pra puta que os pariu.

JOSÉ RÁDIO – Assim que tu falas com a tua mãe, Punoi?

PUNOI – Cala a boca, chulo de merda! (Saca da pistola) Quem falou contigo? (Beluca acalma-o) Quero ver quando o papá sair da Cadeia o que lhe vais dizer. Meu amor… eu te amo. Descarada, sem vergonha!

Bia fica a chorar. Punoi acende mais um charro, fuma e passa à Beluca.

BELUCA (fuma e passa à Bia) – Vá, puxa um fumo e façam as pazes.

BIA (a chorar) – Não quero.

PUNOI – Passe ao José Rádio e larga a puta da mão!

JOSÉ RÁDIO – Desculpa, Punoi. (Ele puxa um fumo e tenta convencer a Bia) – Toma Bia. Puxa um passe e isso passa. O Punoi não está a dizer por mal. Ele é teu filho e é teu amigo.

PUNOI – Se ela não quer… passa cá. Como sou filho dela… sou herdeiro do nada que ela possui… herdo o fumo dela. Dá ca. (Puxa um fumo) Isto é meu por direito. (Puxa mais um fumo) Isto também é meu por força do direito de sucessão. É a minha herança pela parte materna. (Todos se riem, menos Bia. Punoi chega perto dela e abraça-a) Toma mãezinha. O que fica é todo teu. Estava a brincar. Tu ainda não morreste… como que te vou herdar?

Bia toma charro, fuma e fazem as pazes.

LXVI CENA

Na tasca da Zulmira, ela e o Xinóca estão com uma garrafa de Whisky à frente e cada qual com um copo na mão. Fumam um cigarro.

XINÓCA – É verdade, Zulmira. Não sei quem me fez esse trabalho.

ZULMIRA – Não te preocupes. Deus é grande. Um dia tu irás descobrir.

XINÓCA – Tenho fé. E Deus há-de ouvir o que estás a dizer.

ZULMIRA – O meu pressentimento diz-me que não demorarás a descobrir o ladrão.

XINÓCA – Se me ajudares a descobrir essa pessoa… nem sei o que te pago.

ZULMIRA – Podes ficar descansado, porque se eu souber, digo-te logo.

XINÓCA – A tua casa está sempre cheia de gente… gente de toda casta social. É muito capaz que esse bandido venha cá também.

ZULMIRA – As jóias têm alguma marca em que eu possa reconhecer, caso as visse?

XINÓCA – Há um colar que tem uma fotografia da minha bisavó.

ZULMIRA – E como é que saberei que ela é tua bisavó?

XINÓCA – Tem também o nome dela gravado.

ZULMIRA – Como é o nome dela?

XINÓCA – Xinocaia Xin Li Xu.

ZULMIRA – Xino… quê?

XINÓCA – Caia Xin Li Xu.

ZULMIRA – Fodas!!!

Riem-se e secam o copo de whisky.

XINÓCA – Bom, deixa-me ir. (Levanta-se) Confio em ti. Não ficarás a perder.

ZULMIRA – Podes confiar. Assim que eu souber digo-te logo.

Zulmira apaga o cigarro no cinzeiro, levanta e acompanha Xinóca até à porta.

XINÓCA – Adeus.

ZULMIRA – Deus te acompanha.

LXVII CENA

José Rádio ocupa, sozinho, uma mesa na tasca da Zulmira. Esta serve-lhe um whisky e um piri com duas postas de moreia frita. Enquanto ela entra no quarto, José Rádio tira da Peúga uma caixa de Marlboro, confere as jóias que estão nela e volta a guardar de novo. Noutra peúga ele tem outro maço de Marlboro com cigarros. Zulmira volta e senta-se ao lado dele.

JOSÉ RÁDIO (dá um gole no copo de Whisky) – Toma uma coisa por minha conta.

ZULMIRA – Por isso que sempre digo aos meus amigos que gosto de ti, porque és franco. Quando tens… todo o mundo tem.

JOSÉ RÁDIO – Ganhei o génese da minha mãe. Ela também era muito franca. Por isso é que meu pai não casou com ela.

ZULMIRA – Porquê? O teu pai não gosta de mulher franca?

JOSÉ RÁDIO – Qual é o homem que gosta de uma mulher que se dá facilmente?

ZULMIRA – Queres chamar a tua mãe de meretriz, José Rádio?

JOSÉ RÁDIO – Meretriz, não. Franca. Meretriz, tu é que dizes.

ZULMIRA – Disseste que foi por causa disso que o teu pai não casou com ela…

JOSÉ RÁDIO – Se ela não lhe tivesse dado a prova primeiro… ele casaria com ela.

Riem-se e bebem whisky. Zé Rádio deita uma fumarada do cigarro.

ZULMIRA – Dá-me um cigarro, Zé Rádio.

José Rádio tira a caixa que contém jóias e dá-lha. Ela nota que o peso não é de um maço de tabaco, levanta-se e vai ao quarto. José Rádio fica a fumar o seu cigarro e a beber o seu whisky. Zulmira despeja o ouro em cima da cama, tira a sua parte, inclusive a medalha que tem a fotografia e o nome de Xinocaia Xin Li Xu, volta a sala e põe o maço em cima da mesa. José Rádio apanha e guarda.

LXVIII CENA

BELUCA – Punoi, vou dizer-te uma coisa, mas não tens que precipitar.

PUNOI – O quê?

BELUCA – A tua mãe não é séria!

PUNOI – Oh! Disso eu sei há muito.

BELUCA – Não é da forma que pensas…

PUNOI – Então é de que forma?

BELUCA – Ela já nos deu banhada.

PUNOI – Banhada?!

BELUCA – Fui verificar aqueles ouros e não estavam lá todos.

PUNOI – Ah, é?! Qual é que está a faltar?

BELUCA – Muitos. Inclusive aquela medalha com fotografia.

PUNOI – Trabalho da minha mãe e daquele seu chulo.

BELUCA – Mas não digas nada ainda à tua mãe. Vamos primeiro atrás do José Rádio. E está a faltar também muito dinheiro.

PUNOI – Ele não está em casa da amante?

BELUCA – A tua mãe disse que ele tomou banhou, mudou de roupa, jantou e saiu.

PUNOI – Então fazemos assim: Tu vais por um lado e eu vou para outro à procura dele. Quem o encontrar telefona o outro a dizer. Tá?

BELUCA – Tá.

Saem cada um por um lado.

LXIX CENA

Zulmira entra e senta-se numa cadeira frente ao José Rádio.

JOSÉ RÁDIO – Serve-me mais um whisky e toma um para ti também.

ZULMIRA – O meu fica pago e tomo depois. (Apanha a garrafa e serve-lhe. Entra no quarto e liga Xinóca) Alou, Xinóca! Anda cá urgente e traz Polícia contigo. Já sei quem roubou as tuas coisas. (Pausa) Ele está aqui em minha casa. (Pausa) Vem descontraidamente, de forma que ele não desconfie que fui eu que te chamei. (Volta a sala) O bafio está bem temperado?

JOSÉ RÁDIO – Está muito saborosa.

ZULMIRA – Foi feito por mulher que sabe cozinhar.

JOSÉ RÁDIO – Tu és muito gabarolas!

ZULMIRA – Não é por me gabar. Todas as minhas coisas são saborosas.

JOSÉ RÁDIO – Deixa que alguém te gabe.

ZULMIRA – A verdade é para ser dita. (Chega mais perto) Queres mais un kusinha.

JOSÉ RÁDIO – Mais um quê?

ZULMIRA – Un kusinha de bafio! Não é de outra coisa, não.

JOSÉ RÁDIO – E se me deres a outra coisa o que é que tem? Quem tu dás é melhor do que eu?

ZULMIRA – Não tens dinheiro que chegue para me comprares outra coisa, rapaz!

JOSÉ RÁDIO (exibe uma paca de notas) – Isto é merda?

ZULMIRA – Estás hoje orientado, Rádio! Deve ser a mamã que já se lembrou de ti.

JOSÉ RÁDIO – A mamã lembra sempre de mim. (Põe mais uma paca em cima da mesa) Mas isto não é da mamã, nem de papá.

Xinóca entra com um Polícia de pistola em punho. Faz posição de caraté e José Rádio deita de barriga para o chão com as mãos por trás das costas. O Polícia põe-lhe algemas e leva-o para o carro. Depois volta para Zulmira, senta-se numa mesa na rua, Xinóca pede dois whiskies e brindam. Punoi passa por perto, dá conta da situação, esconde-se e telefona.

PUNOI (ao telemóvel) – Alou…

BELUCA – Alou!

PUNOI – Bilus

BELUCA – Sim. O que se passa?

PUNOI – Granda bronca, Bilus!…

BELUCA – Bronca?

PUNOI – Sim. O Rádio está preso… está no carro da Polícia.

BELUCA – Ele estava onde?

PUNOI – Em casa da Zulmira. O Xinóca também está aí.

BELUCA – Eh, pá! Estás armado?

PUNOI – Estou.

BELUCA – Então limpa-os gajos.

PUNOI – O Rádio está no carro sozinho. O Polícia e o Xinóca estão a festejar na tasca da Zulmira.

BELUCA – Então limpa ao menos o Rádio. Não o deixes sobrar para nos denunciar.

PUNOI – Ok. Farei o serviço. Espera por mim aí.

BELUCA – Com muito cuidado! Ninguém te pode ver.

PUNOI – Vai dar tudo certo. Quem me ver… verá.

BELUCA – Ok. Espero que sim.

PUNOI – Adeus!

BELUCA – Diz ao Rádio que dê os cumprimentos lá no Inferno.

PUNOI – Digo-lhe. Tchau.

BELUCA – Tchau.

Punoi desliga o telemóvel e vai ter com José Rádio.

PUNOI (bate no vidro e Rádio olha para ele) – Filho da mãe! (Aponta-lhe a Beretta) Agora vais gastar o resto no inferno… filho da puta! (José Rádio tenta esconder-se) Morre como homem, caralho! Ou estás a esconder para que os teus colegas não te vejam no Inferno? Ah! Bilus mandou dizer-te para dares cumprimentos quando chegares no Inferno.

Dispara uma rajada contra ele e foge. Ao ouvir os disparos, o Polícia entra na casa da Zulmira e manda trancar a porta. Comunica o sucedido via rádio e pede reforço. Só depois de o reforço chegar é que sai à rua.



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