Pub
Por: Armindo Tavares

 

CENA IV — LÁLA E NHAMINA [O. S.]

Com ouvido encostado à janela da casa de Nhamina, Lála espera que o galo cante. Finge a voz do Patchane e chama.

LÁLA - NHAMINA… (espera um pouco) MINHA MULHER… (espera mais um pouco) Não te assustes.

NHAMINA [O. S.] - Marido…?!

LÁLA - Por favor não sintas medo. Por favor. Meu amor. Deus mandou-me pedir-te para não sentires medo.

NHAMINA [O. S.] - O que é que vieste fazer outra vez ao mundo?

LÁLA - Não sou eu que estou a dizer-te isto.

NHAMINA [O. S.] - Então quem é? E tu… quem tu és? Não és Patchane?

 

LÁLA - Eu sou Patchane, o teu marido. Estás a ouvir a minha voz, mas é Deus quem te fala. Ele mandou-me vir, para Ele te dizer que ainda não entrei no reino.

NHAMINA [O. S.] - Não me digas, homem de Cristo?! Tu que nem eras malcriado… não eras runho!

LÁLA - É verdade, Nhamina.

NHAMINA [O. S.] - Até ainda não entraste no céu?!

LÁLA - Deus disse que enquanto eu não viesse falar contigo e deixar-te em boas mãos, que Ele não me deixa ver-Lhe a face.

NHAMINA [O. S.] - O quê, marido?

LÁLA - Que enquanto não arranjares um outro marido Ele não me deixa entrar no reino. Desde que morri, Nhamina, a minha morte é sonambular na porta do céu… entre relento e chuvas frias… não me mataram porque já estou morto uma vez.

NHAMINA [O. S.] - Coitado, marido! Então vais entrar no céu, porque se foi Deus que te mandou… amanhã logo cedo arranjo um marido.

LÁLA - Mas não é qualquer pessoa que tens que arranjar. Deus disse que tem de ser um homem que tome conta de ti, do José e da Luisinha.

NHAMINA [O. S.] - E como é que vou saber quem é?

LÁLA - Deus disse que ele já sabe que tu vais estranhar… que vais ficar espantada. Mas que foi ele que mandou… que te perdoará.

NHAMINA [O. S.] - Quem foi que ele te disse? Para tu entrares na Glória eu faço tudo o que Deus quiser.

LÁLA - Ele disse que o único homem capaz de te fazer feliz é…

NHAMINA [O. S.] - É… Quim-Quim de Mouro? Nhu Teófilo? Ou José Monteiro?

LÁLA – Não! Destes… Ele disse para tu fugires. Eles são ricos, não conhecem o sofrimento dos pobres.

NHAMINA [O. S.] - Então quem é? Nhu Lelenxo, José Quintino, Nhu Bernardino ou Monteirinho?

LÁLA - Não é nenhum deles. Eles são todos a mesma coisa. São todos farinha do mesmo saco. Têm muito dinheiro nos Bancos, mas não têm alma no corpo.

NHAMINA [O. S.] - Então quem foi que Deus disse?

LÁLA - O nosso compadre.

NHAMINA [O. S.] - O nosso compadre?! Qual deles?

LÁLA - Compadre Lála, padrinho do José nosso filho.

NHAMINA [O. S.] - Ave-maria! Credo em cruz vate retro! Amancebar-me com o meu compadre… padrinho que eu escolhi para batizar o meu filho?! (Lála assusta-se e fica calado, comadre pensa que terá ido embora) Marido… Patchane… (Arrepende-se e chora) Oh! Não acredito que o afugentei… ele vai continuar a dormir ao relento?! Oh meu Deus, perdoa-me. Ah marido, desculpa-me.

LÁLA (volta a falar) - Já me ia embora, mas Deus mandou-me voltar, porque arrependeste, pediste-lhe desculpa, Ele já te perdoou.

NHAMINA [O. S.] - Aleluia! Vá em paz, eu rezo por ti.

LÁLA - Se não o fizeres até amanhã… já depois de amanhã será tarde demais.

NHAMINA [O. S.] - Deus não te disse como é que eu devo fazer para dizer ao compadre? Ou ele já sabe?

LÁLA - O compadre não sabe, e nem tem que saber. Diga-lhe que fui eu que vim falar contigo e que foi Deus que me mandou. Fala com ele como eu falei contigo.

NHAMINA [O. S.] - Ele não me chamará "aqueles nomes"… se eu lhe disser com a minha boca que…

LÁLA - Deus não o deixará. E ele ficará a amar-te ainda mais, porque acredita que tu que o declaraste o amor… é porque gostas mesmo dele.

NHAMINA [O. S.] - Então podes ir na paz e sossego, tenho fé que já amanhã deitarás na tua cama no céu… debaixo do lençol branco, entre os Anjos e o Espírito Santo.

LÁLA - Amem! A minha cama está toda feita desde o dia em que fui sepultado, que me rezaram o "VAI À LUZ". Todos os dias um Anjo muda o lençol, põe flores e perfumes… o Espírito Santo espalha incenso, água benta e santos óleo para desinfetar. São Pedro tem os Anjos preparados para me receberem com toar de flautas, para me fazerem deitar, dormir e recuperar todo o sono que perdi.

NHAMINA [O. S.] - Amanhã de manhã eu falo com o compadre Lála e digo-lhe o que é que Deus mandou-te pra me dizer.

LÁLA - Muito obrigado, Nhamina. Já comecei a sentir frescura na minha alma.

NHA MINA [O. S.] - Graças a Deus!

LÁLA - Também tens de falar com o José e com a Luisinha, diga-lhes que foi Deus que te mandou maridar com o teu compadre Lála, que eles não devem ficar zangados.

NHAMINA [O. S.] - Eu falo com eles. José é um menino compreensível. A Luisinha também.

LÁLA - Então deixa-me ir. Muito boa noite.

NHAMINA [O. S.] - Deus vai contigo.

 

CENA V — NHAMINA E LÁLA

Nhamina varre a rua, Lála passa além, montado num burro.

NHAMINA - Eh, compadre! Você hoje passa assim de longe, porquê?!

LÁLA - Estou com pressa, comadre. Acordei tarde, estou muito atrasado. Na volta dou-lhe fala.

NHAMINA - Por amor de Deus, compadre. Todos os dias que você passa nós falamos… hoje não quer, porquê?!

LÁLA - Quando eu voltar, comadre. Agora tenho pressa.

NHAMINA – Você pode ter toda a pressa do mundo, compadre. Mas com o costume não se brinca. Você já me habituou a conversar consigo todos os dias!

LÁLA - Desculpe, mas hoje não dá mesmo.

NHAMINA - Não acredito, compadre! Logo hoje que estou a precisar de si?!

LÁLA - Se você está a precisar de mim… falamos depois. É assunto urgente?

NHAMINA – Mais do que Urgente. Já lhe devia até ter dito!

LÁLA - Então vou, mas por favor não me vá dar água e voltar a caneca… nem me pôr sentado num pilão e virá-lo boca para baixo.

NHAMINA - Se você é feiticeiro, hoje eu corto-lhe o rabo. (Riem-se) Venha só e deixe de brejeirice.

LÁLA - Vou, mas por favor não me faça parar muito. Tenho muito a fazer hoje.

Ele vai e os dois se mesuram com muita vénia.

NHAMINA - Compadre, você sabe quem falou comigo esta noite?

LÁLA - Quem? O meu afilhado José?

NHAMINA - Sabia que nem se lhe dessem os Estados Unidos e lhe oferecessem a Rússia, não ia adivinhar.

LÁLA - Se eu adivinhasse, estaria rico, comadre.

NHAMINA - Todos nós.

LÁLA - Quem foi que falou consigo? O Administrador disse-lhe que José conseguiu vaga para Angola?

NHAMINA - O seu compadre… meu compadre!

LÁLA - O compadre Patchane?! Não me diga, comadre! O compadre então não morreu? Aquela jangada que eu carreguei… que eu vi com esses meus olhos a ser metido na cova, a ser enterrado e a cova a ser estivada (pisada) com aquela somedianti (enorme) pedra… não era corpo do meu compadre que estava dentro dela?! Ou compadre era patiado (pactuado) com Diabo para lhe levar corpo e alma para o Inferno?

NHAMINA - Era corpo do seu compadre, sim senhor.

LÁLA - Então você disse que ele falou consigo?!

NHAMINA - Compadre!… coisa rai-di esquisita.

LÁLA - Coisa esquisita?! Esquisito é o que você está a dizer.

NHAMINA – Você não acredita que ele ainda não entrou no Reino?!

LÁLA - O quê?!

NHAMINA - Até ainda ele não viu a face de Deus!

LÁLA - Mas… a comadre está a falar a sério?

NHAMINA - Acha que eu ia brincar com esse tipo de coisas?

LÁLA - Ainda o compadre não entrou na Glória?!

NHAMINA - Foi o que ele me disse.

LÁLA - Será que ele fez algum pecado às escondidas? Não acredito que ele tenha sido mau e dissimulado…

NHAMINA - Ele disse-me que ainda não viu a face de Deus… que ainda não entrou no Reino por causa de mim…

LÁLA - Por causa de si, comadre?!

NHAMINA - Deus disse-lhe que enquanto eu não arranjar um marido, Ele não lhe abre a porta da Glória.

LÁLA - Comadre… então como é que vai ser?! Você vai deixar o compadre ao relento, lá em cima no alto Céu?!

NHAMINA - E você sabe com quem ele disse que Deus mandou-me juntar?

LÁLA - Não faço a menor ideia. Mas isto também Deus mandou-o dizer-lhe?

NHAMINA - Custa acreditar, compadre.

LÁLA - E quem é essa pessoa? Se há coisas que não faltam por aí… são homens descomprometidos. Por exemplo: Manel de Nha Dina ou Manel Passou, João Preta, João de Pequena, Sanga-Sanga, Fumaça, Lindus Mélia…

NHAMINA – Credo, compadre! Essas pessoas aí?

LÁLA – Essas pessoas, eu é que estou a dizer.

NHAMINA – Até sinto vergonha de lhe dizer.

LÁLA - Vergonha porquê? Para que o nosso compadre saia do relento… para ele entrar na Glória… da minha parte faço tudo para lhe ajudar. Ainda que tenha que vender alguns dos meus bois.

NHAMINA - Deus disse-lhe que a única pessoa capaz de cuidar de mim, do José e da Luísa é…

LÁLA - Quem? Pode dizer-me. Eu o conheço? É daqui da zona?

NHAMINA - Ele disse que o único homem com quem me possa juntar e que me faça feliz é você.

LÁLA (finge espantar-se) - O que é que você disse, comadre? Não volte a repetir isto, nem a brincar.

NHAMINA - Eh! Compadre Lála, para o seu compadre continuar na rua do Céu eternamente a levar com frio… como Thug ou menino de rua?!

LÁLA - Bom… de facto…

NHAMINA - E foi Deus que o mandou.

LÁLA - Eh, pa! Com Deus, por acaso, não se deve brincar.

NHAMINA - Ele dá-nos tudo o que precisamos… também quando Ele nos pede uma coisa, acho que devemos dar-Lha.

LÁLA - E então… como é que vai ser?

NHAMINA - Eh! Por mim… nós juntamos.

LÁLA – Ok. Passo cá logo a tarde e a gente fala melhor. Certo?

NHAMINA - Fico a sua espera. Não venha muito tarde.

LÁLA - Farei os possíveis. Até logo.

NHAMINA - Até logo.

 

CENA VI — LÁLA E NHAMINA

No quarto de Nhamina

LÁLA - O compadre deve estar muito feliz.

NHAMINA - Ele já deve ter entrado no Reino.

LÁLA - Mas desde que o compadre morreu, não tinha entrado na Glória?! Coitado! Ele deve ter sofrido muito.

NHAMINA - No timbre da voz dele, compadre… conforme ele falava comigo, deu para perceber que ele estava a sofrer.

LÁLA - Deus não tem brincadeira com a sua criatura. Mal o compadre morreu, Ele preocupou com a situação da comadre.

NHAMINA - Preocupou tanto que até escolheu quem devo tomar por marido.

LÁLA - E há quem diga que Deus não existe! Se Deus não existe, então não sei o que é que existe!

NHAMINA - Também você não viu como é que muitos ficam com a boca torta? É castigo que Deus lhes dá. Agora, para despistarem, dizem que mau ar lhes apanhou!

LÁLA - Comadre, agora não se diz mau ar.

NHAMINA - Então como é que se diz? Eu costumo ouvir dizer mau ar.

LÁLA - Agora diz-se trombose.

NHAMINA - Trombose?!

LÁLA - Ou então: AVC.

NHAMINA - Eles querem mudar nome em tudo e chamar as coisas da maneira deles! O nome que Deus pôs não está correta! Por isso é que estamos cheios de castigo. Felizmente Deus castiga aquele que merece. ABC! Isto, eu aprendi quando soletrava na cartilha.

LÁLA (despe a camisa) - Comadre, acho que quanto melhor fizermos… mais satisfeito ficará o compadre.

NHAMINA - Também acho. (Para um pouco) Mas… quanto melhor… como?

LÁLA - Ficamos todos nus.

NHAMINA – Nunpriti (nua), compadre?!

LÁLA – Por que estranhou? A comadre e o compadre nunca ficaram nus?

NHAMINA – Tioxi (nunca). Sem uma combinação no corpo nunca dormi. E ele também sem as suas ceroulas… não dormia.

LÁLA - E a comadre não tirava… antes de deitar?

NHAMINA - Nem para fazer xixi. Desvio-a com o dedo para o lado e trintxu (faço, disparo) a urina.

LÁLA - E quando vocês tinham que matar o porco… não despiam?!

NHAMINA - Só depois de estarmos debaixo do lençol e com a luz do candeeiro apagada. Mas mal me despacho, volto a vestir de novo.

LÁLA – Por quê, comadre?

NHAMINA – Porquê?! Você me pergunta porquê?

LÁLA – Sim comadre. Eu não vejo mal nenhum nisso.

NHAMINA – O compadre acha que eu ia deixar que um homem me veja nua?! Que veja a minha coisa? Só as meretrizes é que fazem isso.

LÁLA - Mas eu gosto de ficar nu.

NHAMINA – Mas primeiro apague o candeeiro.

LÁLA - Tape a cabeça!

NHAMINA - Não senhor. Apague o candeeiro.

O compadre assopra o candeeiro e, de repente, põe-se a gritar. Um chicote descontrolado lhe bate nas nádegas. Foge para a rua e, todo nu, procura agasalhar-se com sacos velhos, plásticos e papelões.


CENA VII — NHU FIDJINHO E LÁLA

Novamente no consultório de Nhu Fidjinho.

NHU FIDJINHO - Então… resultou ou não?

LÁLA - Estava quase!

NHU FIDJINHO - Por que é que não deu? O que falhou?

LÁLA - Coisa estranha, senhor. Ela levou-me para o quarto, eu todo nu e o candeeiro apagado, senti chicote nas minhas nádegas… sai como estava e corri como um doido.

NHU FIDJINHO - O teu compadre sovou-te?

LÁLA - Só pode ser ele.

NHU FIDJINHO - Espera aí… (Deita-lhe umas cartas) Já vi porquê.

LÁLA - Porquê?

NHU FIDJINHO - Não devias ter entrado no quarto dela, nem usar a sua cama logo na primeira vez.

LÁLA - Então por que é que não me avisou?

NHU FIDJINHO - Não me disseste que ias entrar no quarto dela. Eu mandei-te experimentar falar com ela… mas não pensei que ias conseguir tanto.

LÁLA – O senhor não viu nas cartas? E agora?…

NHU FIDJINHO - Agora tens que ir falar com ela de novo. Arranje alguma desculpa.

LÁLA - Vou-lhe dizer que como ela recusou despir-se, o compadre zangou.

NHU FIDJINHO - Excelente! Mas no quarto dela e em cima da sua cama, só depois do terceiro encontro.

LÁLA - Sim, senhor.

NHU FIDJINHO - Mais uma coisa: quando estiverem na aula de matemática… não a deixes chorar antes de ti.

LÁLA - Tenho que chorar?!

NHU FIDJINHO - Se ela chorar primeiro, voltará a ficar viúva.

LÁLA - Morrerei?

NHU FIDJINHO - Sem nenhuma dúvida. Destocar viúvas não são coisas de brincadeira.

LÁLA – Ainda bem que me disse. Muito obrigado.

Levanta-se, despede-se, paga a consulta e sai.

FIM



APOIE SANTIAGO MAGAZINE. APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE!

A crise na imprensa mundial, com vários jornais a fechar as portas, tem um denominador comum: recursos financeiros. Ora, a produção jornalística, através de pesquisas, entrevistas, edição, recolha de imagens etc. Tem os seus custos. Enquanto está a ler e a ser informado, uma equipa trabalha incessantemente para levar a si a melhor informação, fruto de investigação apurada no estrito respeito pela ética e deontologia jornalisticas que caracterizam a imprensa privada, sobretudo.

Neste momento em que a informação factual é uma necessidade, acreditamos que cada um de nós merece acesso a matérias precisas e de interesse nacional. A nossa independência editorial significa que estabelecemos a nossa própria agenda e damos nossas próprias opiniões. O jornalismo do Santiago Magazine está livre de preconceitos comerciais e políticos e não é influenciado por proprietários ou accionistas ricos. Isso significa que podemos dar voz àqueles menos ouvidos, explorar onde os outros se afastam e desafiar rigorosamente aqueles que estão no poder.

Portanto, se quiser ajudar este site a manter-se de pé e fornecer-lhe a informação que precisa, já sabe que toda contribuição do leitor, grande ou pequena, é tão valiosa. Apoie o Santiago Magazine, da maneira que quiser, podendo ser através da conta nº 6193834.10.1 - IBAN CV64 000400000619383410103 – SWIFT: CANBCVCV - Correspondente: TOTAPTPL - Banco Caboverdeano de Negócios - BCN, ou por meio deste dispositivo do PayPal.


APOIE SANTIAGO MAGAZINE. APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE!

Comentários  

0 # Gamboa Marques 20-05-2018 23:12
Kkkkk! A história é mesmo convidativo
Responder